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Terça-Feira 23.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Saúde

Estilo de vida não saudável causa 60 mil mortes por câncer todo ano no Brasil

Enquanto o tabagismo acomete mais os homens, as mulheres superam a proporção dos casos em relação a alimentação não saudável, por exemplo

Postado em 26 de Fevereiro de 2019 - Naiara Albuquerque - Galileu

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Nesta semana, o estudo “Proporção de casos de câncer e mortes atribuíveis a fatores de risco no estilo de vida no Brasil”, feito por um grupo de pesquisadores do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, foi publicado na revista científica internacional Cancer Epidemiology.

A ideia do estudo, como conta Leandro Rezende, pesquisador com doutorado em saúde coletiva pelo departamento de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da USP, é mostrar o impacto que fatores de risco — como tabagismo, consumo de álcool, excesso de peso, falta de atividade física e alimentação não saudável — têm na vida dos brasileiros.

No Brasil, o câncer é a segunda maior causa de mortes. Para ter ideia, só em 2012, 224 mil pessoas morreram por causa da doença e 437 mil indivíduos foram diagnosticados.

Esses fatores, segundo o estudo, têm relação direta com o número de casos e mortes que vemos todos os anos. Estimativas do estudo são de que, em 2025, o número de casos vai aumentar 50%.

Como o estudo foi feito

Rezende conta que a pesquisa foi realizada entre 2017 e 2018, enquanto ele fazia um estágio no exterior com colaboradores do departamento de nutrição da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

De acordo com Rezende, o estudo passou por quatro etapas. A primeira e mais importante consistia em verificar evidências na literatura sobre os fatores de risco e os casos de câncer. “Checamos relatórios publicados por agências internacionais de pesquisa em câncer para estabelecer essa relação de causa e efeito”, disse.

A segunda etapa focou em conseguir dados sobre a distribuição dos fatores de risco na população. “Qual a proporção de pessoas que fumam no Brasil atualmente?” foi uma das perguntas que guiaram o trabalho dos pesquisadores nessa fase.

Outros fatores como o consumo de carne vermelha e processada, e de cálcio e fibra também foram levados em conta. Os pesquisadores então classificaram, a partir de base de dados disponíveis do IBGE, como era o hábito de consumo dos brasileiros: quantas vezes por semana ingeriam álcool, por exemplo. “Classificamos esses dados entre abstêmio, consumo leve, moderado ou pesado”, disse o pesquisador.

Então utilizaram o conceito de “risco relativo” para classificação da terceira fase do estudo. “A questão que nos fizemos foi a seguinte: 'Em que magnitude pessoas que fumam tem um aumento no risco de câncer de pulmão quando comparado com pessoas que não fumam?'”, explica Rezende.

Rezende conta que os dados encontrados foram chocantes. Levando-os a crer que, a partir da literatura consultada, fumantes têm dez vezes mais risco de desenvolver câncer de pulmão. 

Na quarta e última etapa, os pesquisadores focaram em descobrir quantos casos de câncer e quantas mortes pela doença ocorrem anualmente no Brasil. “Foi então que tivemos a proporção e o número de casos que poderiam ser evitados se a gente reduzisse ou eliminasse os fatores de risco”, explica.

Na junção de todos os fatores de risco, a proporção dos casos de câncer entre os homens é de 29,2%, enquanto nas mulheres é de 23,7%. “Se você olhar para os dados dos homens em relação ao tabagismo ele acomete os casos de câncer maior do que todos os outros fatores em conjunto”, observa Rezende.

De acordo com os dados do estudo, 20,8 da proporção dos casos de câncer nos homens são causados pelo tabagismo. Nas mulheres, essa proporção é de 10,1%.

Rezende observa que, apesar do bom desempenho geral observado entre as mulheres, elas superam a proporção dos casos em relação à alimentação não saudável e à falta de atividade física.

A prevenção

Rezende critica os esforços unicamente direcionados para identificar precocemente os tipos de câncer, como exames prévios de mamografia para o câncer de mama. Segundo ele, dos 20 tipos de câncer avaliados, ao menos 13 deles poderiam ser reduzidos em 20% com a mudança de hábito para uma vida mais saudável. 

“Poderíamos reduzir ao menos pela metade o número de casos de câncer de laringe, esôfago, pulmão e colorretal, caso a incidência desses fatores fosse eliminada”, destaca.


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