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Terça-Feira 22.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Mundo

Militares da Venezuela abrem fogo contra opositores e matam 2 perto da fronteira com o Brasil

Governo Maduro acusa Estados Unidos e vizinhos de preparar intervenção

Postado em 22 de Fevereiro de 2019 - Redação Semana On

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Militares venezuelanos abriram fogo contra um grupo de civis que tentava ajudar a manter aberta a fronteira da Venezuela com o Brasil na manhã desta sexta-feira (22). Ao menos duas pessoas morreram. 

O ditador Nicolás Maduro ordenou o bloqueio da fronteira entre os dois países na noite de quinta-feira (21), para impedir a entrada de ajuda humanitária no país, visto pelo seu governo como uma ação diversionista para uma intervenção estrangeira ao país.

O confronto ocorreu em uma vila de Kumarakapay, na Venezuela, que fica ao lado de uma estrada. Um grupo indígena tentou parar um comboio militar que se dirigia à fronteira com o Brasil, em um dos pontos onde o governo Maduro pretende barrar a entrada de ajuda humanitária. Os soldados entraram na vila, abriram fogo contra as pessoas, liberaram o caminho e seguiram em frente.

"Uma mulher indígena e seu marido morreram e ao menos outros 15 membros da comunidade indígena do município Gran Sabana ficaram feridos após a investida de um comboio da Guarda Nacional", informou à AFP a ONG Kapé Kapé. De acordo com o jornal El Nacional, ao todo 22 pessoas ficaram feridas no confronto. 

Apesar do bloqueio, duas ambulâncias venezuelanas cruzaram a fronteira brasileira para levar cinco feridos a um hospital de Roraima. "Neste momento, cinco pacientes venezuelanos estão sendo atendidos no Hospital Geral de Roraima. Todos foram feridos por arma de fogo", disse a Secretaria Estadual de Saúde, em nota.

Após o ataque, ao menos 30 moradores dos arredores da vila sequestraram três funcionários do governo. Segundo Tamara Suju, advogada e defensora dos Direitos Humanos, eles só serão liberados pelos indígenas caso o ministro da Defesa da Venezuela, Padrino López, vá buscá-los pessoalmente. 

Os ativistas que fizeram o bloqueio pertencem ao grupo indígena Pemones, que se uniu ao esforço da oposição venezuelana para ajudar a receber a ajuda humanitária enviada pelos EUA.

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, condenou "energicamente" o ataque contra a comunidade. "Exigimos o fim dos ataques contra as populações", segundo um comunicado postado em redes sociais.

O líder opositor Juan Guaidó, reconhecido por 50 países (incluindo o Brasil) como presidente interino, se comprometeu a fazer chegar "de uma forma ou de outra" a ajuda humanitária ao país a partir de diversos pontos na fronteira, neste sábado (23). 

Em uma postagem no Twitter, Guaidó enviou solidariedade às vítimas e prometeu que o caso "não ficará impune". Ele pediu que os responsáveis pelos disparos sejam capturados e entregues por seus superiores.

O envio de ajuda para os venezuelanos que sofrem com a crise econômica se tornou um foco de luta de poder entre Maduro e Guaidó. O ditador teme que a entrega seja um disfarce para facilitar uma intervenção dos Estados Unidos, e ordenou aos militares que impeçam a entrada dos mantimentos, enquanto o opositor pede ao Exército que libere a passagem dos carregamentos. As Forças Armadas seguem leais a Maduro. 

Os Estados Unidos dizem que 'todas as opções estão sobre a mesa' e, nos últimos dias, têm pressionado o Brasil para que o país use força militar para entregar ajuda humanitária à Venezuela.

A área de Defesa brasileira resiste à ideia por temer que a situação escale para um conflito, e também vetou a sugestão de que soldados americanos participassem da operação.

Nesta sexta, a Rússia acusou os Estados Unidos de usar a ajuda humanitária enviada à Venezuela como "um pretexto para uma ação militar" para derrubar o presidente Nicolás Maduro.

"Há informações de que empresas norte-americanas e aliados dos Estados Unidos na Otan estudam a compra de uma importante quantidade de armas e munições de um país do leste da Europa, com o objetivo de entregá-las para as forças de oposição da Venezuela", disse Maria Zajarova, porta-voz da diplomacia russa. ​

A China também questionou a entrega de comida e remédios. "Se a chamada ajuda humanitária chegar a ser enviada à força para a Venezuela, poderá desencadear um conflito e provocar graves consequências", disse Geng Shuang, porta-voz do ministério de Relações Exteriores da China. "Isso é o que ninguém quer ver."

Caravana da oposição é atacada, dizem deputados venezuelanos

Deputados venezuelanos que integram a caravana da oposição a caminho da fronteira da Venezuela com a Colômbia também denunciaram ataques que teriam ocorrido durante a madrugada desta sexta (22). Nas redes sociais, eles compartilharam imagens que mostram vidros quebrados, estilhaços de vidro e marcas de sangue.

As imagens e os relatos estão nas redes sociais do presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, e da Assembleia Nacional do país.

“Não vão impedir que chegue a ajuda humanitária”, disse a deputada Mariela Magallanes em vídeo publicado nas redes sociais. “Não querem deixar entrar ajuda humanitária, então vamos caminhando, atravessando o túnel de La Cabrera (na fronteira com a Colômbia)”, acrescentou a deputada Delza Solorzano, também em vídeo.

A caravana com deputados está a caminho da cidade de Cúcuta, na fronteira da Venezuela com a Colômbia, para apoiar a estratégia de distribuição de ajuda humanitária organizada pelo líder opositor Juan Guaidó. De acordo com os parlamentares, o ataque ocorreu na região próxima à cidade de Guanare, no estado de Portuguesa e deixou o motorista de um dos ônibus ferido gravemente.

Nas redes sociais, Guaidó reiterou o apoio aos parlamentares. “Respaldo total a nossos deputados e voluntários que se dirigem em caravana para Cúcuta, para a entrada da ajuda humanitária. A Venezuela está mobilizada com um propósito nobre e pacífico: salvar vidas. Não há razão alguma para impedir a esperança no país.”

Bogotá

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, participará, na segunda-feira (25), junto ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão, de reunião do Grupo de Lima em Bogotá sobre a crise na Venezuela. O encontro é organizado pelo presidente colombiano, Iván Duque, e também contará com a presença do vice-presidente norte-americano, Mike Pence, e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro.

Dos 14 países integrantes do Grupo de Lima, 11 reconhecem Juan Gauidó como presidente interino da Venezuela —a exceção é o México. 

Na reunião na Colômbia, representantes dos países que reconheceram o líder opositor Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela discutirão os desdobramentos da crise venezuelana.

Possível conflito?

Desde 1995, quando Peru e Equador se enfrentaram brevemente para disputar a região do rio Cenepa, a América do Sul é palco apenas de conflitos de Estados com entes subnacionais.

Uma eventual escalada militar da situação na Venezuela traria um cenário novo ao continente e diversas assimetrias para um campo de batalha que envolvesse o país e seus vizinhos ora antagonistas na crise atual, Brasil e Colômbia —esta, fortemente apoiada pelos Estados Unidos.

Cada país tem forças militares adaptadas para sua realidade política e geográfica, e o desenrolar de um embate dependeria muito do tipo de conflito a ser lutado.

O regime chavista, que desembocou na ditadura de Maduro, fez fama ao introduzir equipamento militar russo avançado na região.

Hoje, possui a melhor defesa aérea do continente, com sistemas de longa distância S-300 complementados pelos de médio alcance Buk, além de lançadores manuais para proteção pontual Igla-S.

Além disso, a Venezuela ostenta os poderosos caças Sukhoi-30, os mais formidáveis do continente em potencial, seguidos de perto pelos F-16 de nova geração chilenos.

A questão envolvendo a existência desses dois ativos é dupla. Primeiro, eles teriam serventia em caso de uma guerra aberta, com risco de invasão terrestre, para proteger centros de comando centrais.

Mesmo nesse caso, não seriam páreo caso houvesse intervenção direta dos EUA.

Além disso, ninguém sabe o real estado operacional do equipamento, já que os russos não são famosos pela qualidade do seu pós-venda e a economia venezuelana colapsou.

Por fim, nunca é demais lembrar que esse cenário não parece realmente provável.

Nesse caso de uma guerra de fato, é de se especular se os americanos deixariam o serviço todo para seus colegas ao sul ou se participariam --o que faria a diferença em qualquer caso, mas deixaria aberta a porta para o confronto a interesses russos e chineses em solo, o que é sempre um risco político.

A ideia de um bloqueio naval, medida clássica nesse cenário, teria então de envolver os parcos submarinos brasileiros e colombianos em atividade muito distante de suas bases. O uso de fragatas e corvetas seria mais provável, mas ainda assim a hipótese parece basicamente fantasiosa.

Para escaramuças fronteiriças, algo que se anuncia como mais provável particularmente na crescente hostilidade com a Colômbia, os venezuelanos podem contar com helicópteros de ataque Mi-35 semelhantes aos que o Brasil opera na Amazônia, com grande dificuldade logística.

A geografia fala alto na inóspita região. Os 2.000 km de fronteira com o Brasil são basicamente florestas, com poucos pontos de acesso.

Não seriam vistos do outro lado da fronteira em Pacaraima os melhores tanques do continente, os 93 T-72 modernizados russos à disposição de Caracas.

Eles, assim como os diversos blindados comprados de Moscou, seriam mais úteis na longa fronteira seca com a Colômbia, a oeste.

Bogotá tem talvez as mais experientes Forças Armadas do continente, dadas as cinco décadas de enfrentamento com a narcoguerrilha e o estreito laço militar do país com Washington, que mantém mil soldados ainda por lá.

Não é por acaso que os colombianos não dispõem de tanques ou sistemas de lançamento múltiplo de mísseis —eles são basicamente inúteis no terreno amazônico no qual combateram as Farc e ainda lutam contra o ELN.

A Colômbia teria provavelmente mais sucesso numa intervenção limitada contra aquilo que parece ser o maior trunfo do chavismo, os cerca de 220 mil paramilitares armados com fuzis Kalachnikov.

As unidades de selva e as de intervenção rápida do Exército Brasileiro também se encaixam nesse cenário.

Tanto Brasília quanto Bogotá também operam os mais adequados aviões para esse tipo de combate no mercado, os Super Tucano da Embraer.

Numericamente, até por demografia a Venezuela é achatada pelo tamanho do poder militar dos vizinhos, ainda que ninguém pareça ter saúde financeira e logística para sustentar um confronto de fato. Mas a realidade é que ninguém quer uma guerra, apesar da retórica belicista da Colômbia e de alguns setores do bolsonarismo no Brasil, ambos inflados pelos EUA.

No caso brasileiro, a preocupação central dos militares é menos de um conflito entre Estados, mas sim com a eventualidade de ser dragado para intervir numa guerra civil no país vizinho sem um mandato da ONU.

Além disso, Roraima depende da energia da hidrelétrica de Guri, e um corte de abastecimento obrigaria ao custoso emprego de termelétricas (quase R$ 700 milhões/ano).

Por isso a resistência em insinuar o uso da força para viabilizar os corredores humanitários, como os EUA gostariam.


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