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Ano VII - Nº 342

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Poder

Ala militar comemora poder no governo, mas se preocupa com destaque excessivo

Com oitavo ministro e temendo por estabilidade, núcleo terá de enfrentar filhos de Bolsonaro

Postado em 22 de Fevereiro de 2019 - Igor Gielow - Folha de SP

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Se por um lado está sendo comemorada pelo núcleo militar como a consolidação de seu poder no centro do governo Jair Bolsonaro, a chegada do oitavo ministro egresso das Forças Armadas já começa a despertar algumas preocupações.

A principal diz respeito ao óbvio: os filhos de Bolsonaro continuarão a ser instrumentos de interferência no governo?

É preciso sublinhar que Carlos Bolsonaro não atacaria Bebianno, disparando a crise, sem a anuência do pai.

O caso do laranjal do PSL foi a gota-d'água para uma longa história de desavenças entre os filho e o ex-ministro, mas Bolsonaro só deu o OK para a operação depois que ele começou a atingir Bebianno.

A ala militar não é coesa, podendo ser dividida grosseiramente entre aqueles que aderiram ao projeto Bolsonaro de forma ideológica ou por proximidade pessoal e os que veem no capitão reformado um barco do qual podem desembarcar se a nau se perder.

A eles, com igual divisão, somam-se oficiais da ativa. Todos dividem a preocupação dita em entrevista ao jornal Folha de SP no ano passado pelo influente Eduardo Villas Bôas, então chefe do Exército: é preciso delimitar o que é governo, o que são as Forças Armadas.

O problema é que eles entraram em peso na gestão, tornando tal fronteira turva. O próprio Villas Bôas ocupa lugar no Planalto ao lado do patrono do projeto militar-bolsonarista, o general da reserva Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).

Essa ocupação, ora reforçada pela nomeação do general Floriano Peixoto para a cadeira de Bebianno, tornou-se então uma armadilha.

Na avaliação de alguns generais, se a militarização do governo torna-se ampla, a próxima crise tenderá a atingi-los diretamente. E aí quem irá fazer a mediação?, perguntam.

O único membro indemissível do grupo, o vice-presidente Hamilton Mourão, já é visto com desconfiança pelos filhos de Bolsonaro. Diverge publicamente da agenda propugnada pela "rapaziada", como ele os chama.

Mourão tem influência, mas não é um líder inconteste da ala militar. Tanto que seu protagonismo durante a ausência por razões médicas de Bolsonaro de Brasília foi alvo de críticas por alguns oficiais mais próximos de Bolsonaro, e ele de fato reduziu um pouco sua exposição nos últimos dias.

O temor é tal que os próprios militares tentaram salvar Bebianno, para manter uma aparência de estabilidade no núcleo do poder no momento em que o governo precisa encaminhar a vital reforma da Previdência e outras medidas ao Congresso, embora soubessem que tal missão era virtualmente impossível.

Para destacar isso e evitarem a pecha de terem sido derrotados pelos Bolsonaros, os generais impuseram o nome de Floriano Peixoto.

O general havia sido convidado para ocupar o segundo posto da Secretaria-Geral pelo próprio Bebianno, que havia se aconselhado com Heleno —ambos os militares serviram juntos no Haiti.

Há desconfortos tributários desse embate central.

A ocupação do governo pelos militares funciona em rede: todos os principais nomes conhecem a situação enfrentada pelos seus pares. Mas parece questão de tempo para que as divisões ainda ofuscadas pela impressão de ordem unida da tropa surjam focalizadas em conflitos internos.

Hoje, a ala militar tem um Estado-Maior em formação na administração, com secretarias, estatais e cargos diversos.

Só que esse tipo de órgão assessora e aconselha um líder, e o episódio Bebianno jogou dúvidas entre vários oficiais sobre a capacidade de comando do presidente logo na sua primeira crise política.

Outros militares ponderam que Bebianno não virou o homem-bomba que se anunciava —o menos ainda.

Como a troca de mensagens entre bolsonaristas indica, a morosidade do presidente após seu impulso inicial parece obedecer à avaliação do jogo mútuo de chantagens que correu essa rede. Em um áudio do então ministro ele diz que foi "apunhalado covardemente".

Por fim, um general diz que o governo ainda está em estágio de experiência, e o que importa é estabilizá-lo.

Quem são os militares na Esplanada

Recém-nomeado

  • Floriano Peixoto Vieira, general (Secretaria-Geral da Presidência) - substitui Gustavo Bebianno

Outros já no governo

  • Carlos Alberto dos Santos Cruz, general (Secretaria de Governo)
  • Augusto Heleno, general (Gabinete de Segurança Institucional)
  • Fernando Azevedo e Silva, general (Defesa)
  • Tarcísio Gomes de Freitas, capitão (Infraestrutura)
  • Marcos Pontes, tenente-coronel da FAB (Ciência e Tecnologia)
  • Bento Costa Albuquerque, almirante (Minas e Energia)
  • Wagner Rosário, capitão (Transparência)*

*É auditor da controladoria que hoje o ministério representa desde 2009


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