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Quarta-Feira 20.mar.2019

Ano VII - Nº 342

Camara março

Poder

Todos os filhos do presidente

Interferência, escândalos e fritura. Com envolvimento direto nas crises da nova gestão, a prole de Jair Bolsonaro vem exercendo influência e transformando o governo em uma operação familiar

Postado em 22 de Fevereiro de 2019 - Jean-Philip Struck (DW), Igor Gielow e Paula Sperb (Folha de SP)

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O processo de desgaste e a saída barulhenta do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, explicitou mais uma vez o que já vem se tornando uma marca do governo Bolsonaro: a influência e a disposição dos filhos mais velhos do presidente em causar instabilidade no governo. 

Controvérsias envolvendo parentes de presidentes não são exatamente novidade na recente história republicana brasileira. A ex-primeira-dama Rosane Collor nomeou parentes e se viu alvo de suspeitas de corrupção envolvendo a antiga Legião Brasileira de Assistência (LBA). Um dos filhos de Lula enriqueceu de maneira suspeita durante o governo do pai. Fernando Henrique Cardoso foi acusado de nepotismo quando nomeou o genro para a Agência Nacional do Petróleo.

Mas nunca desde a redemocratização houve registro de parentes de um presidente exercendo tanta influência e ganhando tanta visibilidade em assuntos de governo. Nem mesmo os filhos de José Sarney, chefe de um clã político notório, desempenharam com tanta desenvoltura no governo do pai um papel tão barulhento como "01", "02", "03" – a forma como Bolsonaro se refere aos filhos: o senador Flávio, o vereador Carlos e o deputado Eduardo.

Oficialmente, nenhum dos filhos tem cargo na administração federal, mas isso não vem servindo de empecilho para que eles assumam protagonismo, seja na condução da diplomacia brasileira, da articulação política, da comunicação do governo ou da "fritura de ministros" como Bebianno. A preponderância da prole tem despertado inquietação entre aliados e membros do governo, entre eles a ala militar.  

Por enquanto, Jair Bolsonaro não demonstrou disposição para frear ou desautorizar os filhos de maneira sistemática. Pelo contrário. No caso da demissão de Bebianno, deixou claro que está disposto a agir em concerto com a ambição dos filhos.

Após Carlos ter chamado o agora ex-ministro e rival de mentiroso nas redes sociais, o presidente reforçou os ataques até que a situação se tornasse insustentável para Bebianno. Apenas em algumas ocasiões, Bolsonaro se limitou a dar reprimendas pontuais nos filhos, a quem se refere como "garotos".

Eduardo, o chanceler informal   

Em diferentes momentos desde a metade do ano passado, quando Bolsonaro se projetou como o favorito para vencer o pleito presidencial, os filhos se revezaram na eclosão de episódios que provocaram instabilidade para a candidatura e para o governo do pai.

Em outubro, na reta final da campanha, foi revelado um vídeo em que Eduardo, o "03", afirmava que seria fácil fechar o Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, bastava "um soldado e um cabo" para a tarefa, avaliando ainda que o fechamento não causaria comoção pública.      

Logo após a vitória do pai, Eduardo também passou a posar como uma espécie de chanceler informal do Planalto e promotor da extrema direita pelo mundo. Em novembro, durante viagem aos Estados Unidos, se encontrou com Jared Kushner, genro do presidente americano, e se deixou fotografar com um boné em que se lia "Trump 2020".

Ele também tem feito elogios a líderes internacionais como o húngaro Viktor Orbán, se encontrado com opositores venezuelanos e dialogado pelo Twitter com outros políticos de direita estrangeiros, como o italiano Matteo Salvini.

Vem também promovendo com entusiasmo propostas que ainda dividem setores do governo, como a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. Também foi o único parlamentar a acompanhar Bolsonaro no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

O próprio processo de escolha de Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty teve influência decisiva de Eduardo, e a nomeação foi encarada como um trunfo pessoal.

Já na política interna, Eduardo tentou influenciar a eleição do novo presidente da Câmara. Algo normal para um deputado federal, mas, em uma mensagem de Whatsapp que vazou para a imprensa, Eduardo disse que estava agindo em nome do pai. Em novembro, afirmou que o governo "talvez não consiga" votos para aprovar a reforma da Previdência, gerando apreensão entre investidores.

Flávio, o encrencado

Se Eduardo havia atingido a campanha com suas declarações sobre o STF, o primogênito do presidente, o senador Flávio, levou tensão para a equipe de transição e, desde janeiro, para o governo.

No início de dezembro, a imprensa revelou a partir de uma investigação do Ministério Público que um assessor de Flávio e amigo pessoal de Bolsonaro, o ex-policial militar Fabrício Queiroz, movimentou 1,2 milhão de reais de maneira suspeita enquanto o filho do presidente cumpria mandato como deputado estadual.

Parte desse dinheiro tinha como origem depósitos feitos por outros funcionários, levantando a suspeita de "rachadinha" ou "pedágio", a prática de entregar parte dos salários a um deputado. Em janeiro, foi a vez de a imprensa revelar que os valores teriam chegado a 7 milhões de reais entre 2015 e 2017. Acuado, Flávio decidiu recorrer ao STF para frear as investigações, apelando para o foro privilegiado, o que contraria o discurso moralista da família contrário à persistência da prerrogativa.

Flávio trouxe a crise para ainda mais perto do Planalto. Ainda em janeiro, uma operação da polícia contra milicianos do Rio de Janeiro mostrou que Flávio havia empregado a mãe e a mulher de um ex-PM suspeito de integrar um grupo de extermínio investigado pela morte da vereadora Marielle Franco. O episódio colocou em nova perspectiva discursos elogiosos e homenagens prestadas por Flávio a milicianos em seus tempos como deputado. Ele afirma que as denúncias são fruto de "perseguição política".

Diante dos escândalos, o pai adotou posturas contraditórias. Primeiro, disse que, se Flávio errou, "terá de pagar". Depois, afirmou: "Não é justo usar um garoto para me atingir".

Carlos, o "pit bull"

Nas últimas semanas, Carlos, o "02", passou a se destacar como o filho mais barulhento. Do trio, é o que mantém mais proximidade com o pai. Nos últimos dez anos, foi responsável pelas publicações de Bolsonaro nas redes sociais. Mesmo após a vitória, o atual vereador do Rio continuou a controlar a conta de Bolsonaro no Twitter, assumindo também um papel de porta-voz oculto do governo.

Em sua própria conta, Carlos também se notabiliza pelo tom virulento.Um levantamento do jornal O Globo em 500 mensagens de Carlos mostrou que mais de 70% do que ele escreve são ataques. O próprio Bolsonaro já chamou o filho de "pit bull", como forma de elogio.

Os atritos entre Carlos e Gustavo Bebianno começaram ainda durante as eleições de 2018, quando o ex-ministro e então presidente interino do PSL se tornou o homem-forte da então estrutura amadora da campanha de Bolsonaro.

A situação piorou na fase de transição. À época, Bebianno afirmou em entrevistas que Carlos estava sendo cotado para assumir a função de secretário de Comunicação. As falas foram encaradas por Carlos e seus irmãos como forma de "fritar" seu nome antes que fosse estudada a viabilidade da nomeação. Furioso, Carlos abandonou a equipe em novembro.

Após o episódio, ele comentou no Twitter que "caráter não se negocia". No mesmo mês, escreveu: "A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto", no que foi interpretado como um recado para Bebianno ou para o vice-presidente, Hamilton Mourão.

Bebianno também pressionou para que a comunicação do Planalto ficasse na sua pasta, a Secretaria-Geral da Presidência. Um esboço inicial das funções do ministério chegou a contemplar essa previsão, mas no final a comunicação ficou mesmo com o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos dos Santos Cruz. A mudança foi atribuída à influência de Carlos.

O prestígio do vereador com o pai ficou aparente na posse, quando "02" acompanhou o presidente e a primeira-dama no desfile em carro aberto. A imprensa brasileira também relatou que Carlos já participou de reuniões de governo e teve permissão para ficar com o celular durante um encontro de ministros, enquanto os titulares das pastas tiveram que entregar seus aparelhos na porta.

Segundo o jornal Estado de S. Paulo, Carlos também destacou um primo, Leonardo Rodrigues de Jesus, como seus "olhos e ouvidos" no Planalto. Mesmo sem cargo no palácio, Leonardo já registrou presença 58 vezes no prédio e circula livremente por ambientes restritos.

Quando Bebianno se viu envolvido em um escândalo de direcionamento de verbas do Fundo Partidário para candidaturas laranjas no PSL, Carlos deu o troco e chamou o ministro de mentiroso no Twitter, precipitando sua saída.

Nas redes, militantes de direita têm propagandeado a demissão como parte de uma espécie de faxina ética e que Bebianno seria um "traidor", desconsiderando a disputa de poder entre Carlos e Bebianno. Ignoram ainda que outro ministro, Marcelo Álvaro Antônio, do Turismo, também é suspeito de direcionar dinheiro para candidaturas laranjas.

Segundo a imprensa brasileira, vários membros do governo, em especial da ala militar, vêm pressionando Bolsonaro para que o filho deixe de controlar as redes sociais do pai e volte a cumprir seu mandato no Rio. O mesmo ocorre com vários parlamentares do PSL, que ficaram espantados com o novo padrão de "fritura" ministerial estabelecido por Carlos e pelo presidente.

Na semana passada, Hamilton Mourão afirmou que "os filhos são um problema de cada família". "Tenho certeza que o presidente, em momento aprazado e correto, vai botar ordem na rapaziada dele", disse o vice-presidente. Enquanto isso não ocorre, o país espera o próximo capítulo da novela familiar do governo.

Militares se queixam de filhos do presidente

O agravamento da crise política levou três expoentes da ala militar do governo ao encontro de Jair Bolsonaro para expressarem a queixa do setor sobre a influência dos filhos do presidente e sobre a inoperância da articulação com o Congresso.

Segundo relatos, os generais da reserva e ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Fernando Azevedo (Defesa) e Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo) pediram um freio de arrumação.

Descrições da conversa apontam o risco de perda de apoio entre a ala militar foi comentado. Outras, contudo, descartaram tom alarmista nesse sentido.

Os militares nunca aceitaram o que consideram intromissão dos filhos políticos do presidente em assuntos de Estado. Assim, a confusão do caso Bebianno foi uma oportunidade para levar a cobrança de afastamento dos filhos de forma mais incisiva, e não indiretamente, como antes.

Com efeito, os dois mais ativos, o vereador carioca pelo PSC Carlos e o deputado federal Eduardo (PSL-SP), têm sido comedidos no tom desde a eclosão da crise.

Numa nota lateral, os militares também não gostaram de ver o papel que foi reservado a um general da ativa, Otávio do Rêgo Barros, na crise. Porta-voz de Bolsonaro, ele teve de engolir a seco e dizer que os motivos para a demissão de um ministro de Estado eram decisão de "foro íntimo do nosso presidente".

O outro ponto nevrálgico do dia foi a derrota fragorosa do governo na Câmara, que derrubou decreto presidencial que ampliou o número de pessoas com direito a decretar sigilo de documentos.

Aqui, a desarticulação completa de uma base governista possibilitou, na visão da ala militar, o recado do Congresso: os parlamentares querem participar das discussões que importam, a começar pela da reforma previdenciária.

A preocupação dos fardados, que não formam um bloco monolítico mas têm interesses comuns, é que a reforma degringole ao encontrar uma Câmara sem comando.

Alguns deputados governistas vinham apostando que isso seria uma vantagem, facilitando o encaminhamento da agenda de Bolsonaro, mas a derrota de mesmo o fatiamento do pacote anticrime de Sergio Moro (Justiça) mostraram que a realidade é diferente.

No papel, Santos Cruz deveria trabalhar nessa articulação, mas o espaço no Planalto está ocupado pelo chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Com a queda de Bebianno e assunção de um general que era seu número dois, Floriano Peixoto, Onyx está isolado e sob pressão por resultados.

O fato de que o ministro não toca na mesma orquestra de seu correligionário Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, não ajuda Onyx.

Aqui é incerto qual seria o encaminhamento do caso pelos militares, dado que eles também temem ser responsabilizados por fracassos.

Tamanho da cadeira

Nesta sexta (22), o vice-presidente Antônio Hamilton Mourão (PRTB) disse que os filhos do presidente “vão entender o tamanho da cadeira de cada um” e que “vão se limitar a ela”. 

A declaração foi dada em entrevista por telefone à emissora Tua Rádio São Francisco, de Caxias do Sul. O vice-presidente viajou até a cidade, na serra gaúcha, para fazer a abertura da 32ª Festa da Uva, substituindo Bolsonaro. 

“Quando se quebra a confiança numa relação, ela não se renova mais. Isso não tem mais jeito. Obviamente houve uma falha de segurança do próprio presidente e também um ato que não foi leal por parte do ex-ministro Bebbiano ao divulgar parcelas dos áudios e conversas privadas entre os dois”, disse Mourão sobre o vazamento das conversas na imprensa. 

Além de Carlos, também seguem a carreira política Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), senador que protagonizou o escândalo do assessor que movimentou R$ 1,2 milhão em um ano e recebia depósitos de outros funcionários do gabinete, e Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ), deputado federal que costura relações do governo com figuras como Olavo de Carvalho, brasileiro que mora nos Estados Unidos e ministra cursos online com visão política de direita.


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