Semana On

Quinta-Feira 17.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Brasil

Sim, seus filhos veem pornô (e é assim que isso os afeta)

Gratuitos e acessíveis 24 horas por dia, os conteúdos de sexo explícito que inundam a Internet se tornaram a educação sexual do século XXI na ausência de formação específica

Postado em 21 de Fevereiro de 2019 - Virginia Collera - El País

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— Se não é como no pornô, como é o sexo realmente?

A pornografia é uma invenção que tem quatro séculos. Sua indústria prosperou nos anos sessenta. Desde então, gerações de homens e, em menor medida, de mulheres, deram um jeito de saciar sua curiosidade com um informal mas eficiente sistema de compra e empréstimo de revistas, fitas de VHS ou inclusive de DVDs. A novidade, no século 21, é que já nem é necessário recorrer à engenhosidade: dispomos de pornografia ilimitada e gratuita na tela do nosso smartphone.

Os filmes pornô são ficção científica. Como Homem Aranha ou Guerra nas Estrelas. Existem atores e efeitos especiais. Não são reais. Estão me entendendo?

Os alunos do equivalente ao 1º ano do ensino médio (14-15 anos) de uma escola pública de Avilés aceitam, sem muita convicção, as explicações de Iván Rotella, que hoje ministra uma das três palestras de educação sexual do curso. Um menino loiro, de franja frondosa, rosto angelical e que ainda não cresceu, devolve um olhar de ceticismo zombeteiro. Quando o tema da pornografia surgiu, seus colegas o elegeram o especialista na matéria. Sim, ele reconhece, vê pornografia desde a escola primária e, sim, acha que o sexólogo está exagerando. Seu perfil se encaixa com as estatísticas que coincidem em apontar que a idade de início do consumo de conteúdos para adultos caiu e agora é em torno de 9 ou 10 anos. E não é coincidência que essa seja precisamente a época da primeira comunhão e os pais aceitam comprar o primeiro celular, o presente mais desejado: aos 10 anos, 26,25% das crianças têm um smartphone; aos 12, 75,1%; aos 14 anos, 91,2%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. E esse aparelho do qual nunca se separam é seu tesouro: um território vedado aos pais, com o qual estão conectados ao WhatsApp, Instagram e YouTube e, claro, também têm acesso a vídeos de sexo explícito. As meninas do equivalente ao 2º ano do ensino médio (15-6 anos) olham umas para as outras, olham fixamente para o chão ou balançam a cabeça energeticamente — “não, não, não” — quando perguntadas se consomem vídeos adultos. A primeira imagem pornográfica com a qual toparam acidentalmente? “O negro do WhatsApp!”. Por ouro lado, seus colegas não têm escrúpulos em vociferar que veem pornografia.

— Quando vemos? Eu, diariamente. — Não tanto. Depende. Quando dá vontade. — Alguns dias. — Antes de estudar e de dormir.

“O zunzunzum sobre o assunto começa no fim da escola primária, mas não se pode generalizar. Eu dou aulas no equivalente ao 3º e 4º anos (9-11 anos) do ensino fundamental e depende do grupo. Tive um grupo que, por causa de como se expressavam e das coisas de que falavam, viam pornografia sempre, mas o grupo do ano passado era intermediário, alguns alunos claramente viam, mas a maioria não, e neste ano meus alunos são autênticos bebês”, diz Loles del Campo, veterana professora de ciências em uma escola pública em Avilés.

Que a pornografia é a educação sexual do século 21 é uma ideia aceita por especialistas de todo o mundo. Mas foi um acidente. A indústria só perseguia mais e mais espectadores. Afã pedagógico? Nenhum. Mas que os vídeos que inundam a Internet são interpretados como valiosos manuais de instrução é um fato notado diariamente por Rotella, que lida com adolescentes há 12 anos em suas aulas de educação sexual em colégios e escolas, no Centro de Atendimento Sexual da Prefeitura de Avilés (CASA) — cidade pioneira na Espanha na aposta pela educação sexual — e em seu consultório de sexologia. “Antes eu não me preocupava com a pornografia, escrevi inúmeros artigos defendendo-a como divertimento erótico. Mas de cinco anos para cá meu discurso não é mais válido porque comecei a detectar que ela nunca é vista como uma ficção, mas como uma realidade. Nunca houve um acesso tão fácil ao conteúdo adulto, mas continua não havendo uma educação que proporcione senso crítico”, denuncia. “Muitas primeiras vezes dão errado, entre outras coisas devido às expectativas geradas pela pornografia. Estão tendo muitas decepções”. Em suas aulas de educação sexual com classes equivalentes ao 1º e 2º ano do ensino médio (16-17 anos) sempre adverte os alunos — que recebem seus avisos com risos nervosos e cara de desconcerto — que o orgasmo vaginal não existe para a maioria das meninas, apesar do que vemos nos filmes convencionais ou X; que o sexo anal não é para a primeira vez, que o tamanho não define o prazer ou que os vídeos pornô têm múltiplos cortes de edição. “Se não remediarmos isso, em 10 anos me dedicarei apenas à terapia e não vou dar conta da demanda. Já vêm à consulta garotos preocupados porque acreditam que têm ejaculação precoce, quando não têm, porque não duram 45 minutos no coito, ou meninas que se diagnosticam anorgásmicas, porque não têm orgasmos vaginais. Nós deixamos que aprendessem sobre sua sexualidade por meio da pornografia e quando levam isso às suas vidas de casal, os problemas começam. Estou cansado de ouvir a mesma queixa entre as garotas: ‘O que está acontecendo com os homens? Agora, quando tenho uma relação, acham que estão em um filme pornô e tudo é muito agressivo’. E eles, quando lhes pergunto, me respondem surpresos: ‘Ah, mas não é disso que as mulheres gostam?’”.

Rotella já trata em seu consultório da primeira geração de pornonativos, termo cunhado por Analía Iglesias e Martha Zein no livro Lo que Esconde el Agujero - El Porno en Tiempos Obscenos para denominar os millennials nascidos nos anos oitenta que cresceram ao mesmo tempo em que a Internet. E seus filhos, os neopornonativos, que brincam com tablets e smartphones desde bebês, representam a segunda geração. Não se lembram de sua vida sem o celular. E sexólogos como Rotella e sua mulher, Ana Fernández Alonso, presidenta da Associação Asturiana para a Educação Sexual (Astursex), têm isso cada vez mais em mente na hora de criar seus programas. A pornografia distorceu sua visão do sexo, e o inseparável telefone está redefinindo tudo o que acontece antes de chegar a ele: sua maneira de entender a sedução, a intimidade, as relações. “Cada vez vemos mais casos de casais que dão as senhas de seus telefones celulares e redes sociais como prova de amor e se aceitam mecanismos de controle de relações tóxicas. Ressurgiram mitos do amor romântico mal compreendido que acreditávamos superados”, lamenta Fernández Alonso. Quando pergunta se alguém conhece casos de relacionamentos assim nas salas de aula do equivalente ao 1º ano do ensino médio, vários alunos respondem timidamente que sim.

Por outro lado, se falamos de sexting, ou seja, o envio de mensagens e fotos tórridas, a resposta é majoritariamente afirmativa, pelo menos nos grupos do 1º ano do ensino médio. Meninos e meninas falam com total naturalidade e desinibição de uma prática que reconhecem como normal. “Fazemos sexting porque nos excita”, resume uma aluna com desembaraço.

— Nós, rapazes, mandamos fotos dos órgãos genitais, elas de bunda e peitos.

— Nós, garotas, geralmente vamos com garotos mais velhos e podem nos manipular. “Se você não me mandar uma foto, vou parar de falar com você...”, e finalmente você concorda e acaba onde não deve. Isso aconteceu comigo.

— Muitas vezes enviamos fotos para excitar e não vai mais longe.

— ... E às vezes de manhã você já está congelado e se arrepende. Aconteceu comigo

Pais desorientados

— “Filha, eu cheguei virgem ao casamento. E espero que você também”. Essa foi a única vez que falei de sexo com a minha mãe. O pouco que aprendi foi no ‘Vale’ e no ‘Superpop’.

Começam a gargalhar quando se lembram da vergonha que passaram quando seus filhos lhes perguntaram sobre sexo. Quando sua filha mais velha o pegou desprevenido e sua mãe e sua sogra tiveram que lhe dar uma mão. Quando teve que improvisar a resposta para a abrupta “mãe, o que é transar?”. Quando tiveram de correr para procurar na Internet do-que-lhes-estavam-falando para poder balbuciar uma explicação. Os pais e mães da AMPA [Associação de Mães e Pais de Alunos] da escola pública La Magdalena, em Avilés, não receberam nenhum tipo de educação sexual. Fazem parte das gerações e gerações de espanhóis que, como resume o sexólogo Iván Rotella, “se viraram”: em casa não se falava de sexo e cada um fazia o melhor que podia — filosofia que, aliás, continua vigente. Agora dão um suspiro de alívio porque seus filhos têm aulas e eles mesmos organizam periodicamente oficinas para se formarem. É a única maneira, concordam, de desempenhar seu papel também no campo da educação sexual. De evitar que a história se repita. “Suas palestras são tão importantes para as crianças quanto para nós. Minha filha, que tem 15 anos, nunca quer vir às atividades que organizamos na AMPA, mas se Iván [Rotella] vier, ela aparece. E isso é muito importante porque significa que lhes transmite conhecimentos que chegam a eles e lhes são úteis. E para nós, essas palestras nos permitem continuar a conversa em casa”, diz Noelia.

Os pais de adolescentes e pré-adolescentes estão muito preocupados com o tempo que os filhos passam — ou querem passar — grudados na tela, sem saber exatamente o que fazem na Internet e os conteúdos inadequados que podem acessar. “Nunca me ocorreu que minha filha estivesse vendo pornografia, mas isso não me preocupa excessivamente. Ela tem 17 anos e acho que a conduzi muito bem, mas a partir de agora acho que tenho de ir dando uma margem a ela. Quero que ela tenha a confiança de vir até mim e me perguntar o que precisar. É a única coisa que posso fazer: trabalhar nossa relação para que venha a mim em caso de dúvida”, diz Carmen.

“Vocês contaram o que fazem às suas filhas?”

Essa era a pergunta que muitos pais do seu entorno faziam de modo recorrente a Erika Lust e seu marido, Pablo Dobner. Ambos dirigem a Lust Films, uma produtora de filmes adultos que defende um pornô diferente: ético, feminista, diverso e de vocação artística. “Nós explicamos isso de uma maneira muito natural, porque somos pessoas abertas e não temos medo de falar sobre sexo. Mas achávamos que essa conversa não dizia respeito exclusivamente a nós por fazermos parte da indústria, mas a todos os pais. A única diferença era que jogávamos com a vantagem: a maioria não sabe como propor essa conversa, e nós sim”, diz Lust. Na verdade, a vantagem de Lust é dupla, pois ela é sueca e pode-se dizer que seu país é o que levou a educação sexual mais a sério. “No colégio, por volta dos 10 ou 11 anos, tínhamos aulas de biologia e reprodução, mas também o apoio de sexólogos e ginecologistas com quem conversávamos sobre relações sexuais, sentimentos, consentimento...”, explica. “Mas moro em Barcelona desde 1997 e minhas filhas estão crescendo aqui, e fico triste ao ver que ainda existe tanta resistência. Precisaríamos de um pequeno exército de educadores sexuais. E não se trata de pornificar nem de sexualizar os jovens, apenas dar a eles ferramentas para que entendam sua sexualidade”. Ela já fez sua parte: em 2017 lançou o projeto The Porn Conversation, um site — disponível apenas em inglês — com recursos destinados a pais e educadores.

Em uma popular palestra do TED em 2014, Lust já defendia que era hora de a pornografia mudar. Esse pornô mainstream “sexista e, muitas vezes, racista de donas de casa com tesão e babás desesperadas, de mulheres como objeto satisfazendo os desejos dos homens”. Desde o início de sua carreira, ela se propôs a dirigir o cinema X que ela queria ver, a explorar a beleza do sexo a partir de outra perspectiva. E sim, existe um pornô indie e pago que considera a diferença, mas o majoritário e gratuito, isto é, o que Lust define como “a principal fonte de conhecimento da maioria”, não mostra sinais de melhora. “Nos anos sessenta e setenta havia filmes reais com narrativa, personagens, história. Por outro lado, no pornô de hoje, vemos duas pessoas em um determinado lugar transando loucamente. Nada mais. Você não sabe quem elas são nem que desejo têm. Não há contexto. E os jovens tomam isso como real e entram em cena como se fossem porn stars. Muitas garotas me dizem que tentaram fazer choking [asfixia] nas primeiras vezes e não acho que essas práticas eróticas que experimentam com os limites sejam recomendadas para alguém com quase nenhuma experiência. Há uma tremenda distorção em sua mente”, denuncia.

Rapaz Tórrido Transa com Sua Madrasta, o vídeo mais assistido no Pornhub, o site de conteúdo adulto gratuito, profissional e amateur líder na Espanha, tem uma duração de 16 minutos. Quase o dobro do que os usuários espanhóis — 71% homens e os 29% restantes mulheres (elas assistem, principalmente, a vídeos de conteúdo lésbico) — investiram, em média, em cada visita: 9 minutos e 20 segundos, de acordo com os dados publicados anualmente por este site, que reúne 92 milhões de visitantes de todos os cantos do planeta diariamente. As categorias mais assistidas pelos espanhóis? Mulheres maduras, lésbicas, anal, MILF, (do acrônimo inglês mother I’d like to fuck, isto é, mãe que eu gostaria de foder) e trios.

Na opinião de Lust, a indústria não vai mudar ou só o fará para se adaptar às demandas de seus consumidores, por isso está nas mãos dos educadores — pais e profissionais — deixar de olhar para o outro lado e falar de pornografia de uma vez por todas. “Tentar restringir a tecnologia é inútil. Sei por experiência que os controles parentais não funcionam. Só funciona a comunicação, a informação e a conversa. E o pornô é uma conversa tão essencial quanto é a do fumo e do álcool quando chegam as primeiras saídas noturnas”, argumenta. “Damos a eles tecnologia sem instruções, e com 9, 10 ou 11 anos eles usam computadores sem supervisão e às vezes lhes aparecem ou procuram conteúdos que não são apropriados. Se você escrever “pau”, o Google não direcionará você para a Wikipedia, mas para um site pornô. Haverá crianças assustadas e que se sintam mal com o que viram, e outras que terão a curiosidade despertada.”

Precisamente, fornecer instruções a pais e filhos para que façam uso seguro e responsável da Rede é a missão de Cristina Gutiérrez, da Internet Segura For Kids (IS4K), uma iniciativa do Instituto Nacional de Segurança Cibernética (Incibe). Sem ter completado dois anos de existência, Gutiérrez diz que ainda há muito trabalho a ser feito. A boa notícia? “Estamos finalmente começando a entender que não podemos deixar os chamados nativos digitais sozinhos diante de smartphones, tablets ou computadores. É claro que eles sabem como usá-los, mas outra coisa é que eles o façam de forma correta. A tecnologia avança muito rapidamente e subimos nesse bonde sem parar para pensar, mas chegou a hora da reflexão.” A IS4K tem linhas de ajuda para crianças, pais e professores e mais de 600 voluntários que percorrem os colégios dando palestras e distribuindo até um Contrato Familiar para o Bom Uso do Celular — que pode ser baixado de seu site — que pais e filhos devem negociar, preencher e assinar. “Quase três de cada 10 consultas que nos chegam vêm de pais preocupados porque não sabem como colocar limites entre seus filhos e a tecnologia. Existem situações verdadeiramente descontroladas.”

Um exército de educadores sexuais

— “Existem poucas coisas mais importantes do que o sexo. Quando uma sociedade tem uma sexualidade bem integrada, o resultado é um enorme bem-estar social.”

Na pornografia existe um modelo de relação entre homens e mulheres desigual, mas é muito semelhante ao que aparece em outros filmes em que os atores estão vestidos

Nos anos trinta, a malograda Hildegart Rodríguez, secretária da Liga Espanhola para a Reforma Sexual sobre Bases Científicas e pioneira da liberação sexual, já criticava a pedagogia tradicional que fazia da sexualidade um tabu. Ela defendia a instrução desde a escola. E não estava sozinha. Com diferentes abordagens, a literatura médica daquela Espanha do início do século 20 já concordava que era imprescindível começar a ensinar educação sexual desde a infância. Fast foward oito décadas, e atualmente ainda não sabemos o que fazer com o assunto. Não faz parte do currículo escolar — embora a Lei de Saúde Sexual e Reprodutiva e Interrupção Voluntária da Gravidez de 2010 incluísse a recomendação de que estivesse presente em colégios e escolas — e, como afirma um relatório de 2017 da ONG Save The Children, onde se ensina, ou se limita a algumas aulas de conteúdo biologicista e centrado na prevenção de riscos para os estudantes de idades já avançadas, ou é uma atividade que depende da disponibilidade de recursos e/ou da vontade de professores, AMPA e prefeituras. Como é o caso dos conselhos municipais de Avilés ou Leganés. “Trata-se de um programa que começa na educação infantil e termina no fim do ensino médio, e se trabalha na maioria das pré-escolas, na maioria das escolas primárias e na maioria dos colégios de Leganés”, resume Carlos de la Cruz, sexólogo e responsável pelas áreas de Igualdade e Juventude do município madrilenho. “Estou otimista, existe consenso de que se deve fazer educação sexual, embora ainda não estejamos de acordo sobre como fazê-la. Na década de oitenta estávamos discutindo se deveria ser feita ou não, e isso já é um debate superado. Embora seja verdade que não está garantido que aqueles que saem da educação sexual obrigatória tiveram aulas de educação sexual, se deve garantir isso.”

A designação “sexual”, concordam os especialistas, é parte do problema não resolvido na Espanha. “A mente adulta imediatamente associa sexual com o coito, mas não é assim: é a educação dos sexos, do que significa ser homem e ser mulher, e aprender a nos entendermos, nos encontrarmos e nos relacionarmos da melhor maneira possível. Isso, quando é explicado às famílias, elas entendem, independentemente da ideologia. Não é tão difícil. Quando ouço que a educação sexual gera libertinagem, não sei do que estão falando. No ensino médio, dedico exatamente 10 minutos ao preservativo. Não falo sobre ele até não lhe dar um contexto. Na década de oitenta, slogans educativos em torno do preservativo eram imprescindíveis, mas 30 anos depois existem assuntos mais importantes”, reflete Rotella.

— O "sim", meninos e meninas, tem de ser explícito e mantido. Não vale isso de “Me disse que sim e então desmaiou”, “Me disse que sim e então estava bêbada”, “Me disse que sim e então teve uma queda de pressão”. O "sim" tem de ser mantido e continuado no tempo para que a pessoa esteja participando e desfrutando da mesma maneira da relação. Isso é fácil, certo?

Nos vários programas ministrados por Rotella, desenvolvidos pela Astursex, se fala aos estudantes do ensino médio sobre consentimento, contracepção, sexismo, homofobia. Aos alunos do equivalente ao 1º ano do ensino médio, sobre higiene íntima, diversidade sexual, sexting seguro. Os alunos das séries equivalentes ao 7º e 8º anos, adolescentes iminentes, são ajudados a não confundir os ciúmes e o controle com provas de amor, a identificar os perigos à espreita nas redes sociais, a refletir sobre o empoderamento e a solidariedade feminina. Aos alunos da pré-escola — de 3 a 6 anos — se leem contos clássicos para rever como são as histórias de amor que já conhecem e como se comportam os personagens femininos e os masculinos e inclusive propor finais alternativos.

Quando a educação sexual deve começar? Desde o princípio. Exatamente onde começa a educação sobe todo o resto, concordam os especialistas. Claro, em nenhum caso se deve esperar pela adolescência. A essa altura, já terão a lição aprendida — em muitos casos, repleta de mal-entendidos, mas aprendida — e será tarde demais. “Se tive uma educação sexual que vai além de como funcionam os coitos e o preservativo; se me foi ensinado a respeitar as parceiras, a ouvir e a entender que as relações eróticas e a satisfação têm a ver com dois desejos, quando veja pornografia e comprove que não reflete nada disso, pensarei: ‘Este não é o mundo real’ e aí os conflitos acabarão”, argumenta o sexólogo De la Cruz. “Na pornografia existe um modelo de relação entre homens e mulheres desigual, mas, cuidado, é muito parecido com o que aparece em outros filmes em que os atores estão vestidos, onde eles impõem seus critérios às parceiras, não as escutam... Se tivéssemos uma sociedade em que esses modelos fossem uma anedota, a pornografia não seria um problema”, conclui.

Em março de 2017, a Audiência de Cantábria condenou um homem a três anos e nove meses de prisão por abusar sexualmente de uma menor de idade durante cinco anos. A menina começou a suspeitar que seu vizinho lhe havia mentido quando estudou o sistema reprodutivo na escola. Então, aos 10 anos, ela entendeu que os beijos e toques genitais não eram normais nem apropriados entre adultos e crianças. Claro, não eram um jogo. “A educação sexual é uma ferramenta para empoderar as crianças. Este caso é paradigmático: se ela soubesse, teria agido antes. A formação, sempre adaptada para cada idade, serve não apenas para evitar que sejam vítimas de abuso sexual, mas também para que quando cresçam, tenham relações mais positivas, saudáveis e igualitárias”, diz Carmela del Moral, analista jurídica dos direitos da infância da ONG Save The Children. “Em todo caso, deveria ficar claro para nós que os menores terão educação sexual. Depende de nós que seja boa ou ruim.” Para Rotella, é hora de que a classe política, em particular, e a sociedade, em geral, levem a sério a educação sexual de uma vez por todas. “O sexo é o que somos desde o nascimento até a morte. Existem poucas coisas mais importantes. Quando uma sociedade tem bem integrado tudo o que tem a ver com a sexualidade, desfruta de um enorme bem-estar social. São sociedades menos violentas e que se respeitam muito mais. E aqui só temos de dar uma olhada ao nosso redor: estamos falhando.”


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