Semana On

Segunda-Feira 18.mar.2019

Ano VII - Nº 342

Coluna

Forte emoção, grande surpresa e medo

Quem é que nunca sentiu isso?

Postado em 20 de Fevereiro de 2019 - Emerson Merhy

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Nas nossas várias experiências na vida, todes já estiveram em situações de forte emoção. Desde muito pequenines nós passamos por vários momentos nos quais a emoção nos toma conta. O coração vem à boca, o corpo vibra, a cabeça parece deixar de pensar. Somos puros sentintes (obrigado Kat por isso).

Essa forte emoção será uma constante em nossas vidas e por muitas diferentes situações. A sentiremos quando conhecemos alguém que nos palpita o corpo, quando tomamos um susto incrível, totalmente inesperado, quando temos que vencer obstáculos que são muito significativos para nós, quando … quando …

Com essas muitas vivências vamos experimentando modos de poder controlar o que virá nessas situações, que efeitos terão nossas formas de agir nelas. Vamos aprendendo que a pior coisa é ser tomado de um impulso, que não nos permite parar e pensar sobre o que está acontecendo ali e ir fazendo coisas que, em regra, nos produz sérios arrependimentos.

Dependendo do tamanho do efeito, passamos a lamentar profundamente não ter parado um pouco para pensar, antes de agir.

Poderíamos dizer que essas mesmas situações são vividas quando grandes surpresas ocorrem em nossas vidas.

Ser atingido por um acontecimento completamente inesperado, em regra, produz muito susto e tendemos a tentar nos proteger dos efeitos problemáticos que certas surpresas podem nos causar.

Estar andando em uma rua e, de repente, um carro sobe no passeio e quase nos atinge, gera além de uma forte emoção, bem como um misto de raiva e de alívio. Raiva pelo “outro” quase ter te matado e alívio por ter sido capaz de sair do risco, ou de ter tido a sorte de não ser atingido.

Mas, na medida que a surpresa vai se dissipando, a gente para e consegue compreender melhor a situação do que houve. Pode até ser que o “outro” foi já um efeito de outro tipo de surpresa e não conseguiu se controlar direito.

Quando alguém que já foi assaltado a mão armada relata sua experiência, muito disso está ali tudo junto.

Você fica imóvel, surpreendido, tomado por uma forte emoção, mas ao refletir sobre o que está em jogo, rapidamente toma uma atitude de procurar manejar a situação para ficar vivo. Entrega o que o outro quer, não cria resistência inútil, se despoja dos bens materiais e valoriza a vida como bem maior. Procura criar uma situação de encontro que nos permita barganhar algo, procurando comunicarmos com o outro, tentando diminuir os danos o mais possível.

Não se antecipa como se aquilo fosse uma situação de violência extrema. Tentamos manejar o risco, desse modo, mesmo, quando estamos com muito medo.

Procuramos não morrer dele e nem matar por ele. Tentamos negociar com a gente mesma as muitas possibilidades de se construir saídas, ali, no ato.

Além disso, parece-nos que manejar essas situações de forte emoção, grande surpresa e medo pode ser aprendida por alguém que vive situações de trabalho bem disponíveis as mesmas, como seria o caso de trabalhadores da segurança, policiais dos mais variados tipos.

Ou seja, esses trabalhadores deveriam ser preparados a dar conta dessas situações, que compõem corriqueiramente seus cotidianos de trabalho, sem se posicionarem de um lugar paranoico e nem de uma posição de preconceito em relação ao “outro”, aliás mais de alguns “outros” do que de outros “outros”, como diariamente acontece no nosso país, onde ser negro agrega um valor paranoico no policial, diferente do de um branco.

A nossa experiência cotidiana com o trabalho na segurança não tem sido muito diferente pelo país afora. Policiais violentos que concebem seu trabalho a partir do exercício soberano sobre a vida do outro. Proferindo sentenças de culpabilização do agir do outro sem a maior cerimônia e baseadas nos critérios os mais inconsistentes.

E o pior dessa história toda é que atualmente há uma ideia consensual nos altos escalões governamentais que ditam as regras de funcionamento desse lugar, a segurança, de que esses modos de agir, paranoico e preconceituoso, deva adquirir estado legal.

Essa é a noção por trás de uma nova regra que o governo atual está querendo impor: o policial que matar em serviço sempre terá razão se essa for forte emoção, grande surpresa e medo.


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