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Terça-Feira 18.jun.2019

Ano VII - Nº 355

Artigo da semana

Para mim ele sempre vai ser o seu Lourival

Que a masculinidade de Lourival nos ajude a compreender e a respeitar as múltiplas experiências de gênero

Postado em 15 de Fevereiro de 2019 - Gabriel Luis Pereira Nolasco

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“Para mim ele sempre vai ser o seu Lourival”. A fala que abre este texto é da ex cuidadora de Lourival Bezerra de Sá, e foi extraída de uma das inúmeras matérias veiculadas sobre o caso, que ganhou notoriedade após reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, no último dia 3.

A notícia em si, não merece mais uma vez ser trazida à tona ou espetacularizada como vem sendo feita, especialmente, no tocante às questões identitárias de gênero, quanto ao não reconhecimento da identidade masculina de Lourival.

Ao invés de resgatar as narrativas em torno da história do senhor Lourival, apresentarei a ideia difundida pela socióloga, Berenice Bento, em “As tecnologias que fazem os gêneros”, artigo publicado durante o VII Congresso Iberamericano de Ciência, Tecnologia e Gênero, no ano de 2010 em Curitiba, que nos ajuda a pensar como as normas de inteligibilidade de gênero, a rede complexa de significados e símbolos que constituem corpos masculinos e femininos traduzidos em homens com pênis e mulheres com vagina, são proliferadas como verdades universal e natural.

Durante sua exposição, a socióloga problematiza a seguinte estória:

Observe uma mulher grávida. Conforme os meses passam, aumentam a ansiedade sobre o sexo da criança. Quando o sexo da criança é revelado, o que era uma abstração, passa a ter concretude. O feto, já não é feto, é um menino ou menina. Essa revelação evoca um conjunto de expectativas e suposições em torno de um corpo que ainda é uma promessa. (BENTO, 2010, p. 2)

[...] Quando a criança nasce encontrará uma complexa rede de desejos e expectativas para o seu futuro, levando-se em consideração para proteje-lá o fato de ser um/a menino/menina, ou seja, ser um corpo que tem um/a pênis/vagina. Essas expectativas são estruturadas numa complexa rede de pressuposições sobre comportamentos, gostos, subjetividades que acabam por antecipar o efeito que se supunha causa (BENTO, 2010, p. 02).

Os dois relatos expõem as condições das nossas existências, e marcam como devemos nos posicionar diante da “verdade” do sexo. E ao mesmo tempo, de como a materialidade das nossas vidas só ganham sentido mediante o anúncio do sexo. No caso de Lourival, ao nascer com vagina, passa a ter a sua existência marcada por expectativas e suposições de um corpo pautado, exclusivamente, por artefatos e tecnologias do universo feminino. O que por sua vez corrobora com as normas de inteligibilidades de gênero, isto é, com os pressupostos instituídos pela lógica dos gêneros inteligíveis que apresentada o seguinte raciocínio: se tem vagina, logo será mulher e do gênero feminino, se tem pênis será homem e deverá experienciar os prazeres e sentidos do universo masculino. Qualquer outro caminho seguido fugirá as normas de gênero e será considerado “anormal”, “patológico”, e/ou “abjeto”.

Além disso, as relações sexuais e afetivas serão vivenciadas a partir da heterossexualidade, como única manifestação “normal” e “universal”. Tal lógica reitera, o que a filósofa Judith Butler (2003) chamou de matriz de inteligibilidade (sexo = gênero = desejo), que universaliza os corpos-sexuados e institui uma única forma de performatizar o gênero e a experiência sexual. Refutando qualquer outra forma ou possibilidade de existência, como no caso de Lourival.

Lourival, foi alguém anatomicamente marcado pela existência de uma vagina. O que refere-se unicamente a sua designação biológica. Daí, inferir que ele é uma mulher, é um erro. Ninguém é homem ou mulher baseado em uma designação anatômica, haja vista os recentes casos de intersexualidade (sobre isso, sugiro a leitura de Paula Machado Sandrine, “O sexo dos anjos”). O que reforça tal entendimento de que nascer com pênis é igual a ser homem e com vagina é igual a ser mulher, é a matriz de inteligibilidade que excluem qualquer possibilidade de existência dos corpos sexuados considerados dissidentes, os corpos em trânsitos presentes nas experiências de gêneros não binários e/ou trans (transexualidades e travestilidades) como o de Lourival. Um homem com vagina.

Reconhecer a existência de Lourival, a partir da sua identidade de gênero é reconhecer as múltiplas experiências e trânsitos de gêneros, é reconhecer a existências de pessoas travestis e transexuais, é reconhecer a dignidade e os direitos humanos de sujeitos dissidentes. É reconhecer que tanto o sexo quanto o gênero são construções históricas e sociais, que as experiências humanas não se resumem ao sexo designado no nascimento, pelo contrário, homens com vagina e mulheres com pênis, são realidades próximas e tão legítimas quanto homens com pênis e mulheres com vagina.

Pressuposições em torno das idealizações dos gêneros só reforçam e normatizam as experiências dos corpos sexuados. Há os lidos como corpos inteligíveis,“normal”, que seguem uma matriz heteronormativa/legítima, versus os corpos dissidentes: “patológico”, (que não seguem a lógica do sexo = gênero = desejo). Universalizam como patologia e/ou abjeção as experiências que fogem a esta regra instituída, como o caso de Lourival e de tantas outras pessoas trans que não enumerei aqui.

Que a masculinidade de Lourival nos ajude a compreender e a respeitar as múltiplas experiências de gênero, que auxilie na luta pela despatologização do gênero como diagnóstico. Que a sua vivência nos permita compreender e reconhecer às diferenças. Descanse em paz, Lourival Bezerra de Sá! 

Gabriel Luis Pereira Nolasco - Psicólogo. Mestre em Psicologia pela UFMS. Trabalha no Instituto Brasileiro de Inovações Pró-Sociedade Saudável Centro Oeste -IBISS CO


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