Semana On

Quarta-Feira 13.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Coluna

Seriam os governantes, só fantoches, meros intermediários?

Ou fantoches também são protagonistas-mediadores?

Postado em 06 de Fevereiro de 2019 - Emerson Merhy

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Em coluna anterior, “Seriam os atuais governantes, fantoches?”, apontei para a perda de importância que o presidente de uma Nação passou a ter nesse mundo neoliberal globalizado. O presidente pode estar internado, passando mal, que o seu governo parece independer dele. Alguns de seus ministros dão as cartas na certeza que ele as aceitará. Parece que obedecem ao mesmo script e, portanto, como fantoches respondem as linhas de comando que os governam.

Mas, como aponta Bruno Latour em seu livro: “Reagregando o Social”, ao falar sobre ação e atores sociais: mesmo os titereiros apontam que seus bonecos muitas vezes parece governá-los.

Taí, algo para se pensar.

Os fantoches, que parecem obedecer a scripts, sem suas atuações, muitas vezes bem originais, não dariam factibilidade aos processos que constituem e nem fabricariam o próprio neoliberalismo, que antes de ser uma estrutura a priori a comandar suas marionetes, depende dessas para se constituir como modos reais de existências de vidas neoliberais.

O neoliberalismo só se realiza na realização dos modos de viver, somos nós que o produzimos com nossas próprias vidas, como já tratei disso, em outra coluna: A garra de água e o bebedouro.

***

Por isso, parece-me também pertinente outra oferta daquele pensador que é a diferença entre ser intermediário ou mediador no mundo da vida dos coletivos, para pensarmos sobre a ação. Um intermediário funciona como um transmissor, algo que deixa passar por seu intermédio uma linha de força, de mando, para realizar o definido a priori por essa força; já, um mediador opera por si quando essa linha de força lhe afeta, produz por si novas mediações e efeitos não claramente prescritos.

***

Assim, não tanto faz se o governante e seu bloco político for um Fernando Henrique Cardoso, ou um Obama, ou um Trump, ou um Lula.

Fernando Henrique Cardoso não só como intermediário, mas como mediador, opera no modo de propor a privatização dos equipamentos públicos e nas maneiras de fazer negociações com outros mediadores, para construir o grande aprofundamento do Brasil em direção aos grandes projetos de neoliberalização.

Os efeitos desses modos próprios de operar e mediar criam efeitos que vemos hoje com horror. A Vale e os crimes da Samarco e Brumadinho não seriam possíveis sem um governante como ele, tem sua digital nisso, queira ou não.

Obama, mesmo sendo Nobel da Paz (triste ironia), foi um ampliador de uma guerra das mais cruéis no mundo atual, a guerra dos drones. O seu modo de governar abriu a possibilidade de assassinatos cleans, brancos, sem sangue nas mãos. Essa guerra não é uma grande marca do Trump, que dá a vida por um muro e pela humilhação de seus opositores, ao vivo.

O neoliberalismo precisa dessa plasticidade, pois não funciona como uma grande estrutura a se repetir, mas como um imaginário a se constituir em modos de viver que só se realizam se produzirem mais capital, infinitamente e exaustivamente.

O neoliberalismo é intersticial, qualquer modo de viver vale a pena, desde que seja uma vida-capital, pouco importando a sua forma de expressão.

***

Tudo isso não invalida sabermos que hoje o lugar do que era território nacional e sua importância na produção do capitalismo tenha mudado substancialmente, criando um mundo de governantes claramente alinhados no propósito de operar estratégias globalizantes, que façam uma nova divisão mundial entre os blocos regionais, de tal maneira que essas não sejam obstáculos à presença imperial dos interesses das grandes-corporações-para-além-das-nações. Isto é, se isso não for violado, tudo bem, mas se for há que se mobilizar fortes forças dessas grandes corporações e explorar seus poderes de fogo junto a boa parte dos governantes orquestrados com o mesmo imaginário neoliberal, para inibir a ameaça de existência desses blocos.

Lula, apesar de estar também na mesma lógica de mediador na construção de vidas neoliberais, ousou operar junto com outros espaços de maior autonomia, com certos arranjos entre-nações, para influenciar nas grandes regras gerais do modo do mercado neoliberal funcionar, para colocar o próprio Brasil como um grande operador desse jogo mundial.

Apesar de empresários e banqueiros nunca terem ganhado tanto, lá no frigir dos ovos ele ficava muito fora da caixinha no plano mundial ao se projetar como uma nova possível liderança, descentrada do eixo euro-americano.

Para esse eixo - basta a existência da tensão com Rússia e China - não é possível suportar um novo campo com os BRICS, que parece ter perdido força com o golpe que levou Lula para fora da política institucional. Acho que até a China gostou do golpe no Brasil.

Que pese essa tensão, não me parece que o caminho do Lulismo seja a forma de lutar contra o império neoliberal, dado no mundo. Não seria um Brasil neoliberal forte que iria mudar as condições do capitalismo globalizado.

Entretanto, não desconsidero, portanto, desimportante que a luta social por um mundo menos em guerra seja vital e, por isso, que haja uma agenda de enfrentamento dos detalhes de como, em cada país, os governantes operam as suas construções neoliberais. Deve-se esgarçar ao máximo as propostas instrumentais e manipulatórias que esses governantes têm gerado para problemas que não são de fato problemas, como eles dizem. Por exemplo, uma população desarmada nunca foi um problema, ao contrário é uma ótima solução para a diminuição da violência por arma de fogo.

Desse jeito, há que se lutar contra o muro trumpiano, há que se lutar contra a perversa reforma previdenciária proposta atualmente, bem como a proposta que autoriza a política a matar sempre que lhe parecer conveniente, há que se lutar contra a produção da miséria absoluta de um Macri, na Argentina. Há que se enfrentar todas políticas anti-imigrantes pelo mundo afora. Há que se lutar pelo imposto sobre grandes fortunas. E, por aí vai.

Entretanto, nenhuma delas é de fato componente de uma agenda realmente libertária e antineoliberal. Esse, me parece, ainda se dá e se dará pelo caminho das lutas societárias que tenham como eixo a defesa radical do direito à vida, cada vez mais qualificada, de qualquer vivente, humanos e não humanos, que demarca claramente sua oposição contra a necropolítica do neoliberalismo, defendendo a biopotência da biopolítica da produção de vidas livres nas suas diferenças.


Voltar


Comente sobre essa publicação...