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Quinta-Feira 22.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Poder

Ricardo Vélez, o carola que quer livrar as escolas brasileiras do comunismo

A história do dono da pasta de Educação

Postado em 01 de Fevereiro de 2019 - Fernando Cesarotti – VICE

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A educação brasileira apresenta uma série de problemas notórios, ligados principalmente à falta de infraestrutura adequada. Outra discussão relevante envolve os professores: os salários geralmente ruins, a formação nem sempre boa. Mas nada disso é tão importante para o futuro ministro da Educação, Ricardo Velez Rodríguez, quanto acabar com o “entulho marxista” que vem de “não poucos funcionários alojados no Ministério” que ele ocupará a partir de 2 de janeiro. Uma questão, evidentemente, de prioridades.

Velez tem longa trajetória como educador. Filósofo de formação, também cursou Teologia em um seminário de Bogotá, sua cidade natal, mas trocou a opção pelo sacerdócio pela vida secular, tornando-se professor universitário antes dos 25 anos. Casou-se com uma brasileira e passou boa parte da década de 1970 zanzando entre Brasil e Colômbia: fez seu mestrado em Filosofia na PUC-RJ e o doutorado na Universidade Gama Filho, também no Rio. Em 1979, decidiu fixar residência no Brasil por medo da violência que já tomava conta das metrópoles colombianas, no começo da guerra entre a polícia e os narcotraficantes como Pablo Escobar.

No país, Velez deu aula em diversas universidades diferentes e consolidou-se como um dos principais especialistas conservadores em educação, o que o colocou na linha direta de combate ao modelo mais progressista idealizado por Paulo Freire, o educador que se exilou na Europa durante a ditadura militar e que, apesar de referência principal, tem suas ideias muito pouco colocadas em prática na educação brasileira. Freire, por exemplo, sempre foi crítico do que chamava de “método bancário”, ou seja, o aluno visto apenas como um receptor de conteúdo pedagógico sem o menor tipo de reflexão. Hoje, basta dar uma olhada no Enem e nos principais vestibulares do país para ver que o método bancário triunfa sem dó.

Mas a ideia de que os alunos possam “pensar” gerou uma série de espantalhos que estão entre as palavras de ordem do novo ministro. Ele já se posicionou contra, por exemplo, à chamada “ideologia de gênero”, um termo que, para gente como Velez, significa “ensinar às crianças que não existe homem ou mulher”; na prática, o objetivo deles é vetar qualquer aula ou debate sobre sexualidade nas escolas, deixando claro que “falar de sexo cabe aos pais” – mesmo que mais de um terço dos casos de assédio e abuso sexual de crianças e adolescentes seja cometido por familiares da vítima.

Outro espantalho, esse bem mais complexo, é o Escola Sem Partido, projeto que foi arquivado na Câmara dos Deputados nesta semana. Os defensores do projeto juram que existe uma “doutrinação comunista” nas escolas, especialmente praticada pelos professores de disciplinas ligadas às Humanidades, como História, Geografia e Sociologia. A acusação, obviamente, ignora que as pesquisas eleitorais apontavam maioria expressiva em favor de Jair Bolsonaro entre os jovens, e basta visitar uma escola, qualquer uma, pública ou privada, para ver a dificuldade de um professor influenciar um jovem a fazer qualquer coisa, quanto mais a mudar suas crenças a respeito do mundo.

Mas o fato é que o Escola Sem Partido é uma das meninas dos olhos da bancada evangélica e dos parlamentares ligados ao MBL, o Movimento Brasil Livre, dois dos principais sustentáculos do governo Bolsonaro. Autointitulado “defensor das liberdades”, Velez, forjado na Igreja Católica, já disse não ser exatamente a favor do projeto – assim como seu guru e lobista para o cargo, o filósofo Olavo de Carvalho. Mas a discussão continua em assembleias e câmaras municipais pelo país, e deve ser retomada na próxima formação do Congresso.

O ministro hoje está mais preocupado em diminuir o poder do MEC, justamente para evitar o marxismo gramsciano entranhado no órgão. Ele prega a descentralização da gestão escolar, deixando com os municípios a missão de cuidar das escolas – o que hoje já acontece até o Ensino Fundamental, enquanto os Estados têm a responsabilidade pelo Ensino Médio. Nos últimos dias, deu novas entrevistas falando sobre a importância de qualificar os estudantes para o mercado de trabalho – ou seja, executar é mais importante que pensar, ainda mais num mercado de trabalho cada vez mais selvagem, como defende o próprio presidente eleito.

Enfrentar espantalhos é uma péssima ideia, principalmente diante de tantos problemas reais a enfrentar. A saber qual será o discernimento de Ricardo Velez ao escolher suas batalhas.

Nome: Ricardo Velez Rodríguez
Idade: 75
Ministério: Educação
Formação: Licenciatura em Filosofia, pela Universidade Javeriana de Bogotá (Colombia)
Partidos: nenhum


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