Semana On

Sexta-Feira 24.mai.2019

Ano VII - Nº 351

Coluna

O horror que nos cerca

O delírio totalitário que leva a crimes bárbaros de gênero

Postado em 24 de Janeiro de 2019 - Emerson Merhy

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Neste 21 de janeiro de 2019, em Campinas-São Paulo, um homem de 20 anos assassinou uma travesti, arrancou-lhe o coração e quando preso no dia 22 disse que a travesti era o demônio. Os policiais que o prenderam encontraram vários objetos roubados, inclusive 250 reais que a travesti portava.

Há uma imagem do assassino com um rosto que não mostra nada de arrependimento, ao contrário, um rosto carregado de euforia.

Euforia talvez seja o termo mais próximo, pois tudo indica que não tinha muito claro o que havia feito, julgando que cometeu um ato quase de purificação, ao limpar o mundo de um corpo demoníaco. Confessou que teve relações sexuais com a vítima, vangloriando-se que um corpo demoníaco como aquele merecia o que ele fez, o tórax aberto com um caco de vidro e o coração arrancado com as mãos, que levou para casa.

Ao ler a reportagem sobre esse bárbaro assassinato, de alguém que tinha pouco mais de 30 anos, fiquei pensando em várias coisas.

Uma delas, faz referência a constatação de que a esperança de vida das travestis no Brasil é de 33 anos, além da evidência que temos que o nosso país é o que mais assassina gays, travestis e lésbicas, além de mulheres e jovens negros.

Isso mexeu mais uma vez comigo. Não consigo e não admito que isso possa me levar a dizer: é mais um número, pois é tão comum. Como se o recorde de índices tão vergonhosos acostumassem nossos corações.

Há cada um ou uma que sofre essa violência “gratuita” me abalo, me entristeço e me indigno. Não aceito essa barbárie.

Além dessas ideias, outro pensamento me passou: foi sobre uma fala do filósofo Giles Deleuze na qual dizia que quem delira, não delira qualquer coisa, mas delira aquilo que pertence ao seu universo de existência. Dizia que em uma certa formação histórica os delírios se alimentam de signos que pertencem a essa formação.

Aí fui pensar exatamente o quanto o atual momento que vivemos no Brasil, e não estou falando só do atual momento do novo governo, mas do extenso momento onde identificamos a existência de um crescente da cultura da violência e do justiçamento, contra aqueles que não se enquadram no padrão da sociedade branca e elitizada brasileira, racista e machista.

Fiquei imaginando o quanto esse jovem de 20 anos estava possuído pelo demoníaco: ao contrário do que afirmava na hora da prisão, quando dizia que a travesti era o demônio. Sem dúvida, em um certo instante que se deixou levar pelo ódio e o preconceito, mesmo sendo um jovem negro, acabou possuído pelos piores signos que são geradores de grandes violências no Brasil.

O fato de ser um ladrão não acobertou que o assassinato seguiu um ritual de um processo delirante. Delirou com o que é de mais comum no Brasil de hoje, preconceito, prepotência pessoal e a auto-outorga de julgador sobre o modo de viver do outro, dando-se o direito de se constituir como juiz e carrasco.

Seu estado de euforia na hora da prisão passou a noção do quanto essa possessão lhe permitia fazer, sem culpa e até a produção de uma glória.

De ladrãzinho a criminoso dos mais perversos e violentos, tornou-se praticante de uma ritualística que várias religiões brasileiras têm em sua constituição imaginária.

Que horror esse mundo que está aqui e agora, produzindo humanos desse tipo.

Unamo-nos na defesa do direito a se viver em paz e diferença.

Continuo profundamente indignado, inclusive com o vazio de conteúdo que a imprensa trata essa questão tão séria, simplesmente catalogando o acontecimento em uma dimensão espetacular no caderno de notícias policiais.

Impossível continuarmos silenciosos perante isso tudo. Está mais que tardia a luta pelo fim da violência de gênero, para o conjunto da sociedade brasileira.


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