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Terça-Feira 15.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Mundo

O fascismo nos jovens seguidores de Trump

Estudantes pró Trump ameaçam ancião indígena em cerimônia no cemitério de Arlington, para honrar os soldados nativos mortos com o uniforme dos Estados Unidos

Postado em 23 de Janeiro de 2019 - Giuseppe Sarcina - Corriere della Sera (Tradução - Moisés Sbardelotto)

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Um homem sozinho com seu tambor e seu protesto, cercado por um grupo de estudantes, com os bonés vermelhos trumpianos com a frase “Make America Great Again”. Na sexta-feira, 18 de janeiro, em Washington, começou o “fim de semana das marchas”: os antiabortistas “pro life” e, no dia seguinte, os ativistas da “Marcha das Mulheres”.

Não muito longe dos degraus do Lincoln Memorial, onde começa o Mall, a longa faixa de parque que chega ao Capitólio, encontrava-se um pequeno grupo de “nativos”, os descendentes dos índios norte-americanos para a “Marcha dos Povos Indígenas”.

Nathan Phillips é o líder. Ele mora em Ypsilanti, Michigan, tem 64 anos, é viúvo, tem uma filha. Ele é um dos “anciãos” da tribo dos Omaha; combateu no Vietnã; foi diretor da Aliança da Juventude Nativa e ainda é o guardião de um “cachimbo sagrado”, o instrumento ritual que conecta a realidade física e o mundo espiritual.

Todos os anos, Nathan é o organizador de uma cerimônia no cemitério de Arlington, para honrar os soldados nativos mortos com o uniforme dos Estados Unidos.

Mas, em certo ponto daquela sexta-feira à tarde, a história, as “sagradas tradições”, o orgulho de Nathan foram submergidos pelos gritos, pelas risadas de um grande grupo de estudantes da Covington Catholic High School, que chegaram à capital provenientes de Park Hills, no Kentucky, para participar da marcha “pro life”.

Há um vídeo, que imediatamente foi um dos mais clicados na web, que documenta a cena: os rapazes cercam os nativos. No início, eles batem palmas ritmicamente, parecem quase simpatizar com eles. Mas não é assim. Depois, gritam, zombam deles, riem. É a lógica do bando: há pelo menos uma centena.

Nas imagens, veem-se apenas homens que se apoiam mutuamente, fomentando uns aos outros. Talvez, em casa, no seu instituto na fronteira entre Kentucky e Ohio, eles podem até ser bons alunos. Agora, são apenas pequenos valentões, provocadores.

O enquadramento foca duas figuras: Nathan continua cantando um antigo hino, batendo em seu tambor. Um jovem para na frente dele e não se move. Fixa Nathan com um sorriso arrogante.

“A situação ficou feia. Eu estava em uma situação de perigo. Se eu tivesse dado mais um passo à frente, teria atingido aquele rapaz. Provavelmente era o que todo mundo estava esperando, para saltarem em cima de mim”, contou Nathan, depois, em entrevista à CNN e a outros canais.

“Senti medo não tanto por mim, mas por esses jovens, pelo seu futuro, pelo seu espírito, por aquilo que querem fazer deste país. O que eles estão fazendo não é tornar a América grande de novo, mas sim rasgando o nosso tecido conectivo.”

À noite, Laura Keener, porta-voz da escola católica de Covington, divulgou uma nota de desculpas: “Condenamos a ação dos nossos estudantes em relação a Nathan Phillips especificamente e contra os nativos norte-americanos em geral. Pedimos as nossas mais profundas desculpas ao Sr. Phillips. Esse tipo de comportamento se opõe aos ensinamentos da Igreja sobre a dignidade e o respeito pela pessoa. Haverá uma investigação sobre todo o caso, e tomaremos as medidas adequadas, incluindo a expulsão”.

O vídeo permitiria identificar diversos estudantes, que, de acordo com os planos estabelecidos pela escola, não deveriam estar lá, mas sim com o restante da manifestação antiaborto. A direção da Covington também estaria verificando as responsabilidades de pelo menos dois adultos que, naquele momento, estavam com o grupo. Ambos com o boné “Make America Great Again”.


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