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Quarta-Feira 20.mar.2019

Ano VII - Nº 342

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Mato Grosso do Sul

PSDB não soube apresentar um discurso sintonizado com a população, diz Reinaldo

Reeleito, tucano defende que o partido vote a favor das reformas propostas pelo governo Bolsonaro

Postado em 16 de Janeiro de 2019 - Rodrigo Vargas – Folha de SP

Governador reeleito Reinaldo Azambuja e diplomado pelo TRE-Foto: Chico Ribeiro Governador reeleito Reinaldo Azambuja e diplomado pelo TRE-Foto: Chico Ribeiro

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Reeleito em Mato Grosso do Sul com 52,35% dos votos válidos, o tucano Reinaldo Azambuja, 55, superou forte turbulência para emplacar o segundo mandato como governador.

Em plena campanha, foi surpreendido pela Operação Vostok, da Polícia Federal, que vasculhou sua casa e gabinete em busca de evidências de um suposto esquema de propina em créditos tributários estaduais. Seu filho, Rodrigo de Souza e Silva, chegou a ser preso na ocasião.

O cenário nacional não ajudou: a candidatura do PSDB à presidência, encabeçada pelo ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, afundou de forma inédita após 24 anos de polarização com o PT.

Crítico da aliança tucana com Michel Temer, Azambuja defende que o partido vote a favor da pauta de reformas proposta pelo novo governo. "O Bolsonaro já deu o tom e nisso concordamos plenamente: menos Brasília e mais Brasil", disse.

 

Durante 24 anos, PT e PSDB foram hegemônicos nos papéis de situação e oposição no cenário político nacional. Por que este cenário se alterou tanto em 2018? 

A alternância de poder é natural das democracias no mundo todo. O Brasil teve de fato um longo período de uma disputa entre dois partidos. O Fernando Henrique ficou dois mandatos consecutivos. O Lula e a Dilma ficaram três mandatos e meio. Isso é muito tempo. Existia um cansaço da população nessa polarização. E entendo que nosso partido não soube apresentar um discurso sintonizado com aquilo que a população entendia como prioridade. E o eleitor resolveu mudar, indo mais para um eixo da extrema direita, que é o que o Bolsonaro representou.

Logo após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o sr. se posicionou contrário à participação tucana no governo de Michel Temer. Acredita que essa decisão também interferiu no desempenho do partido? 

Eu entendia que o PSDB deveria aprovar todas as reformas, por se tratarem de medidas importantes para o país, mas não deveria ocupar ministérios, ocupar cargos, até para manter a sua autonomia. Fui voto vencido. Acho que isso foi um grande erro. O presidente Temer começou o governo com vários atores que foram caindo um atrás do outro em razão de escândalos. Isso acabou nos misturando aos problemas e criou uma contaminação do nosso discurso para 2018.

Diante desse cenário, o que acredita que o partido precisa fazer? 

Autocrítica e reciclagem de lideranças. Se você analisar o PSDB dos últimos anos, verá que ele ficou vinculado ao eixo Minas Gerais-São Paulo, por conta daquela disputa entre Serra, Alckmin e Aécio. O partido e suas lideranças não olharam o Brasil. Sempre reclamamos das nossas votações no Nordeste, mas nunca falamos pro nordestino como uma política de partido. Nós nunca olhamos o eixo Norte-Centro Oeste. Então, é o momento de fortalecer o partido, falar com essas regiões das quais nos distanciamos e trazer novas lideranças, trazer novas cabeças para a executiva e sair desse eixo.

E em relação ao governo federal? O PSDB será oposição ou situação? 

Daremos apoio à pauta Brasil. Sem reforma da Previdência, sem desburocratização, sem reforma tributária, sem um novo pacto federativo, não tem saída, não vai ter milagre pro país avançar. O Bolsonaro já deu o tom e nisso concordamos plenamente: menos Brasília e mais Brasil. Então, temos a obrigação de apoiar a pauta das reformas e ajudar o governo, sem necessariamente ter cargo. E o presidente começa bem porque não loteou o governo para partidos.

Em Mato Grosso do Sul, estado de origem dos ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e Tereza Cristina (Agricultura), qual é a expectativa em relação ao novo governo federal? 

Os ministros são do Brasil, mas não deixam de ser de Mato Grosso do Sul e, portanto, têm um conhecimento maior com as lideranças e políticas públicas locais. Isso é algo obviamente positivo. O segundo ponto é que são duas pessoas da maior qualidade. Teresa Cristina conhece muito as áreas da agricultura, produção e pesca, pois foi durante oito anos secretária de Estado e desenvolveu um ótimo trabalho neste período por aqui. E Mandetta tem uma experiência enorme na área de saúde pública. Então são duas pessoas com qualificação técnica e que vão ter certamente um olhar para o Brasil, mas que a gente espera que tenham um olhar de carinho por Mato Grosso do Sul.

A transferência da demarcação de terras indígenas ao Ministério da Agricultura causou polêmica. Acha que é o caminho para enfrentar situações complexas como a dos guarani-caiová? 

A Funai estava muito politizada e acabou sendo um objeto de acirramento dos conflitos. Então quando você tira a responsabilidade pelas demarcações para a agricultura, não significa enfraquecer as demarcações. A gente precisa despolitizar essa questão e sentar à mesa para discutir. Fui eleito em 2014 e, como era muito ligado ao setor do agro, alguns diziam que faríamos uma política de abandono aos índios. Muito pelo contrário: eu criei uma subsecretaria de Assuntos Indígenas, coloquei todas as etnias ali dentro e passamos a discutir políticas públicas. Em quatro anos tivemos dois problemas apenas. No governo anterior, foram 102 invasões, guerras e brigas. O ponto principal é o Judiciário: precisamos da definição do marco temporal. Hoje existe uma lacuna jurídica.

A violência urbana foi um dos principais temas da campanha presidencial. Como um estado fronteiriço como Mato Grosso do Sul pode contribuir com este debate? 

O Brasil não vai resolver seu problema de segurança pública sem olhar para as fronteiras. O tráfico de drogas e armas é que tem irrigado o financeiramente o crime contra o cidadão de bem. Não se trata de fazer um muro como o do Trump, mas de blindar as fronteiras brasileiras com efetividade, em parceria com os estados e criando um núcleo de inteligência compartilhada entre as forças policiais e o Exército. E também manter uma relação diplomática muito forte com os países vizinhos. O Paraguai hoje é um dos maiores produtores de maconha do mundo. E a Bolívia é grande na produção de cocaína. Se ficarmos só nos morros do Rio de Janeiro, não vamos vencer essa guerra.

Em tempos de crise generalizada nas finanças estaduais, qual o principal desafio dos governadores? 

Precisamos entender que hoje o maior problema dos estados brasileiros é a folha de pagamento. Isso vale para todos. Então vamos ter que impor um olhar muito forte nessa direção. Não temos muita margem, porque a maioria dos servidores são efetivos. A margem está nos comissionados, em criar serviços públicos digitalizados e, com isso, diminuir estruturas governamentais. Tínhamos 15 secretarias. Baixei para 9. E, nestes quatro anos, economizamos três bilhões em diminuição de contratos e melhoria no perfil das compras governamentais.

Este processo foi concluído no primeiro mandato ou ainda vê espaço para mais cortes? 

A reforma administrativa foi feita. Encolhemos o estado e vamos continuar isso. Fiz um acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), um empréstimo de US$ 46 milhões para implementar políticas de modernização na folha de pagamento, nas compras, nas licitações, modernizar tudo. Se a gente for mais econômico nas compras e na folha, vai sobrar mais para fazer política pública.

Depois de consumir quase R$ 200 milhões, a obra do Aquário do Pantanal, em Campo Grande, segue inacabada. Existe alguma alternativa viável para sua conclusão? 

Eu acho que é possível e necessário concluir. O problema ali é jurídico. Existe uma denúncia judicializada e quem está sendo acusado de irregularidades tem que se defender. O que pedi para concluir a obra? Segurança jurídica de não ser responsabilizado pelo que ocorreu em gestões anteriores. Aquilo que está sob investigação, que está sendo aprofundado, que se investigue e puna.

No ano passado, a poucos dias das eleições, o senhor foi alvo da Operação Vostok, da Polícia Federal, que investiga um suposto pagamento de propina relacionada a créditos tributários estaduais. O que o senhor tem a dizer a respeito dessa investigação? 

Nós ficamos um ano e seis meses à disposição para sermos ouvidos. Nunca nos chamaram. Ouviram só o lado de um criminoso, que é o delator. E prenderam todo mundo, inclusive meu filho, para ouvir e liberar dias depois. Só agora estou tendo a oportunidade de me defender das acusações com documentos. Por exemplo: o Coaf encontrou, e encaminhou à Procuradoria como atividade suspeita, uma movimentação de R$ 27 milhões na minha conta ao longo de um ano. E movimentei mesmo. Dinheiro lícito, originado da minha atividade agropecuária. Eu comprovei agora, ao Ministério Público e ao delegado que conduz o inquérito, todas as entradas da minha conta. O que tem de suspeito nisso? Então é muito estranho: a 20 dias da eleição, você ter uma operação como essa. Mas a população entendeu e nos conduziu com segurança à reeleição.


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