Semana On

Quarta-Feira 21.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Poder

O Mourão vai ser presidente da República

Um drink com o mentor do vice de Bolsonaro

Postado em 21 de Dezembro de 2018 - Amanda Audi – The Intercept_Brasil

Na festa em que Mourão foi oficializado como vice de Bolsonaro, o general Assis (terceiro da esquerda para a direita) aparece no palco ao lado de Bolsonaro, Bebianno e Fidélix. Na festa em que Mourão foi oficializado como vice de Bolsonaro, o general Assis (terceiro da esquerda para a direita) aparece no palco ao lado de Bolsonaro, Bebianno e Fidélix.

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Noivas costumam atrasar em casamentos. Mas a noiva do PRTB, o general Hamilton Mourão, não é assim. Ele chegou pontualmente às 20h, o horário marcado no convite, para o jantar em comemoração aos 25 anos do partido – ao qual se filiou em março deste ano e se tornou a principal aposta ao se eleger vice-presidente ao lado de Jair Bolsonaro.

Tal qual uma noiva, o vice-presidente eleito foi conduzido mesa a mesa para saudar os convidados ao lado de dois companheiros orgulhosos: Levy Fidélix, o presidente do PRTB, e Alvaro Dias, senador do Podemos derrotado na corrida presidencial deste ano.

No ápice da noite, o general foi levado ao palco montado no centro da Casa Petra, luxuoso salão de festas de Moema, bairro de classe média alta em São Paulo. Estava em frente a uma tela com sua foto, uma bandeira do Brasil e a frase “Meus heróis NÃO morreram de overdose”, referência à música que, sem a negativa, se tornou famosa na voz de Cazuza. Discursou por sete minutos. Neste tempo, foi fotografado, filmado e ovacionado por deputados e senadores eleitos, militares, empresários e ruralistas, todos ávidos para se aproximar e tirar uma selfie.

No discurso, ele agradeceu por ter sido acolhido na “família do PRTB” e falou sobre a necessidade de aprovar reformas da previdência e tributária, “senão em 2022 o governo fecha”. Encerrou com uma frase de efeito: “Vai ser difícil. Mas, aos melhores, as missões mais difíceis”. Aplausos. O casamento foi selado.

Nenhum dos cerca de 200 convidados do jantar tinha dúvidas de que estava perto do próximo presidente do Brasil. E esta pessoa era Mourão. Bolsonaro mal foi citado durante toda a festa.

Em uma mesa ao lado do palco estava sentado o general Paulo Assis, ex-comandante de Mourão no Exército em duas ocasiões e amigo de longa data. Bebericando latinhas de Heineken, o militar da reserva acenava com orgulho todas as vezes em que era mencionado nos discursos. Estava sendo celebrado por ser o responsável por duas façanhas: levar Mourão para a política, filiando-o ao PRTB; e fazer a ponte para que ele se tornasse vice de Bolsonaro.

Venerado pelos convidados da festa, Mourão prestou reverência apenas a Assis e Fidélix, em sinal de lealdade. Com Assis, comportou-se com o respeito e a intimidade de um filho com o pai.

Fui levada até Assis, seu mentor, por Fidélix – ambos são amigos de longa data. Eu havia perguntado como foi a negociação para que Mourão, disputado por vários partidos, escolhesse a sua legenda, pequena e pouco expressiva – nas eleições deste ano não conseguiu eleger nenhum deputado, nem mesmo o criador do partido. “O culpado é aquele senhor ali”, me disse Fidélix, o característico bigode preto tremendo de orgulho.

General Assis demonstrou animação para contar a história. Ao longo da conversa, ia me mostrando fotos e mensagens no celular, de modo a provar o que dizia. Eram imagens dele e de Mourão servindo juntos. “Veja, que jovem”, me apontava o rosto de um Mourão aos 30 e poucos anos, de óculos de sol, em meio a um grupo de militares. Em outra, os dois estavam lado a lado na selva amazônica. As fotos haviam sido enviadas a ele pelo próprio vice-presidente por WhatsApp.

Quando perguntei o que esperava de Mourão no governo, a resposta veio firme: “o Mourão vai ser presidente da República”. Em 2022 ou antes – caso “algo” aconteça com Bolsonaro. “Tudo pode acontecer. Ele é o vice, é o único que foi eleito. Os ministros todos podem sair, ele não. Vai ficar até o último dia”, vaticinou.

Assis ocupa posição de destaque na equipe de transição do governo, que vem se reunindo em Brasília, para tomar pé da situação atual e planejar os próximos quatro anos. Foi indicado da cota pessoal de Mourão, assim como Fidélix. Ele se considera “conselheiro” do vice-presidente. “Quando ele me perguntar ‘qual será a sua posição [no novo governo]?’, eu vou falar que sou conselheiro”.

Aos gritos – pois estávamos ao lado da banda country que animava o jantar –, o ex-comandante me contou que Bolsonaro sondou Mourão para ser o seu vice há dois anos, na época em que o militar passou à reserva e se tornou conhecido por suas falas corrosivas contra o PT e semi-intervencionistas.

A frase que ficou mais famosa era sobre uma possível intervenção do Exército na política brasileira: “Ou as instituições solucionam o problema político pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”. Isso ocorreu em 2017, quando o presidente Michel Temer estava às voltas com denúncias no Congresso. Mourão foi chamado a se explicar e, cinco meses depois, passou à reserva.

Mourão se mostrou interessado, mas o convite acabou ficando em banho-maria. Em abril deste ano, Fidélix procurou Assis para que convencesse Mourão a se lançar presidente pelo PRTB. Disse que iria abrir mão da própria candidatura porque acreditava na força do general.

Em uma reunião a três, Mourão negou o convite porque já havia se comprometido com Bolsonaro. Foi convencido por Assis a seguir um caminho alternativo: se filiaria ao PRTB para ficar na chamada ‘regra três’. Estavam contando que a candidatura de Bolsonaro não iria decolar, ou ele seria impedido de concorrer, e então Mourão poderia assumir o espaço deixado por ele.

“Falei [pra Mourão]: ‘eu acho que o Bolsonaro não vai se eleger, por causa do caso da Maria do Rosário e tal’ [o presidente eleito responde a dois processos no Supremo Tribunal Federal por ter dito à deputada gaúcha que que não a estupraria porque ela “não merecia”]. Falei pra ele: ‘Mourão, dispute a presidência se o Bolsonaro não concorrer. Porque não é bom ter dois candidatos a presidente militares. Se o Bolsonaro cair, nós apoiamos você’”, disse Assis. No dia seguinte, ele e Mourão se filiaram juntos ao PRTB.

O 5º na fila

Pouco tempo depois, Assis encontrou Bolsonaro em um aeroporto. Ele também foi comandante do presidente eleito durante um curto período de tempo. Perguntou a ele se o convite a Mourão ainda estava de pé. “Ah, não, chefe, eu não posso abrir mão de 45 milhões de evangélicos, que é o Magno Malta”, Bolsonaro teria respondido a ele, citando o senador pelo Espírito Santo, íntimo de líderes evangélicos como Silas Malafaia. Informou que iria chamar Mourão para ser ministro da Defesa.

Malta, que chegou a ser chamado por Mourão de ‘elefante branco na sala’, acabou não aceitando o convite para ser vice. Também minguaram as tratativas com o general Augusto Heleno, com a advogada responsável pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, Janaína Paschoal, e com o “príncipe” Luiz Philippe de Orleans e Bragança, parte do que restou da família real no Brasil. O nome de Mourão foi tirado novamente da cartola na véspera da convenção do PSL, em que a chapa de Bolsonaro deveria ser oficializada. Mas ainda havia resistência dentro do PSL.

“O PSL não queria o Mourão”, disse Assis. “O Mourão é estrela.” Perguntei três vezes o que ele queria dizer com isso, mas ele se esquivou: “Ah, não importa”. Depois mudou de assunto.

Ainda de acordo com ele, Bolsonaro teve que ameaçar renunciar à candidatura caso seu partido não aceitasse o general como vice. Acabou dando certo no último momento para o registro da chapa.

“O Mourão me ligou 7h da manhã no dia da convenção. ‘Chefe, acabei de ser convidado para ser o vice do Bolsonaro. E não consigo falar com o Levy’. Eu falei: ‘se o Bolsonaro ou o [Gustavo] Bebianno não falarem com ele, não vai fechar’”, contou. Mesmo como civil, o dever de hierarquia militar mandava que a negociação fosse feita com o presidente do partido. Sem isso, Mourão estaria desrespeitando a autoridade.

Bolsonaro estava desde cedo tentando formalizar o acordo com Fidélix, mas o celular dele estava desligado. Conseguiu localizá-lo no telefone da esposa. Isso aconteceu pouco antes do início da convenção, às 9h do dia 5 de agosto. Na festa, Assis aparece no palco ao lado de Mourão, Bolsonaro, Bebianno e Fidélix.

Em seu discurso durante a festa de sexta passada, o vice-presidente eleito também falou sobre a costura do acordo com o PRTB. “Meu amigo Paulo Assis, meu comandante, me apresentou o Levy. E aí estabelecemos um pacto. Muito bem, Levy, eu entro no seu partido. Seu partido é de retidão, de honestidade. O Levy diz: ‘é limpo’. E a nossa única visão é que caso o Bolsonaro necessitasse do nosso apoio, nós estaríamos juntos”.

Durante todo o tempo em que conversamos, ficou claro que Assis não confia na capacidade de Bolsonaro de resistir até o último dia de governo. Quanto mais disputar a reeleição em 2022. Ele diz que o seu pensamento reproduz o da classe militar, que apoia Bolsonaro, mas com reservas, por causa de seu temperamento belicoso.

Punição em caso de corrupção

Ao chegar ao jantar, Mourão participou de uma reunião com lideranças por cerca de 20 minutos. Depois não teve mais sossego. Não conseguiu sentar-se à mesa e nem comer os aperitivos que estavam sendo servidos (ceviche de peixe branco, tapioca com mel e canudinho de carpaccio).

Consegui conversar com ele por alguns minutos, de pé, no meio do salão. Perguntei quais seriam seus primeiros atos como presidente, já que irá ocupar o lugar de Bolsonaro ainda em janeiro, quando o presidente deverá se ausentar para fazer uma cirurgia. “Vou manter as ordens em vigor. Nada mais do que isso. Não vou fazer nada de minha iniciativa. Vou manter aquilo que ele tiver determinado”, disse, em tom respeitoso.

Também lhe perguntei se ele defende punição caso algum integrante do governo esteja envolvido em escândalos de corrupção. “O presidente já disse isso, que defende a punição. E eu também já disse”, respondeu. Perguntei se isso valia mesmo se os envolvidos fossem o filho do presidente, ou o próprio, como vem se anunciando o caso do motorista Fabrício Queiroz – a convenção aconteceu oito dias depois de uma reportagem do jornal o Estado de S.Paulo ter revelado que o ex-funcionário de Flávio Bolsonaro fez movimentações suspeitas de R$ 1,2 milhão, em um ano, e depositou parte para a primeira-dama Michele Bolsonaro. “O presidente já disse isso”, repetiu.

Mourão disse ainda não saber quem do círculo pessoal do presidente deseja vê-lo morto, como foi dito por Carlos Bolsonaro. “Sinceramente, não sei. Tem que perguntar pro filho dele”, irritou-se. Logo foi puxado para tirar fotos com apoiadores. Foi embora da festa cedo, sem comer nem beber. Nem mesmo chope, que gosta de tomar em momentos festivos.

Dias de glória para o PRTB

A ambição dos perretebistas se tornou palpável. Fidélix afirma que, pela primeira vez, ele e sua equipe estão sendo ouvidos pelos integrantes do novo governo. Acredita que desta vez suas ideias sairão do papel. Uma delas, a mais famosa, é a do aerotrem. O trem-bala que vai ligar várias capitais do país é o mote de campanha de Fidélix desde que formalizou o PRTB, em 1994. “Eu não vou te dar uma frase para você colocar na manchete, mas estamos discutindo mobilidade urbana, sim.”

Com a boa popularidade de Mourão, o presidente do partido estima que conseguirá a adesão de pelo menos mais 10 deputados eleitos. Com isso, acredita que irá superar as limitações da cláusula de barreira, norma que restringe a atuação de partidos que não atingiram um índice mínimo dos votos nacionais, e com isso voltar a ter acesso a recursos do fundo partidário e de tempo de propaganda na TV –  até novembro o partido arrecadou R$ 4.192.229,20, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral.

No fundo, este era o real motivo do evento: paparicar Mourão para atrair possíveis pretendentes à legenda. Ao lado do vice-presidente eleito no palco do salão de festas, Fidélix mal continha as lágrimas de emoção.

No jantar dos 25 anos do partido, um vídeo mostrou a trajetória da sigla: do começo apoiando Jânio Quadros, ainda como Movimento Trabalhista Renovador, à participação na campanha de Fernando Collor, da qual Fidélix foi assessor. Jânio e Collor são os grandes ídolos do político.

Mesmo contente com o presente de sucessos inesperados, O PRTB olha para o futuro: seu novo trunfo é um recauchutado Alvaro Dias. O senador deve formalizar a adesão ao partido – o 9º de sua carreira – em breve. Ele foi apresentado no evento como “a voz do partido no Senado” e recebeu o boas-vindas de parte dos convidados.

No que depender de Dias, será um embarque silencioso. Durante a campanha, ele atacou Jair Bolsonaro duramente. Foi flagrado em um vídeo chamando o adversário de “bandido”. Quando me aproximei para falar sobre os novos ares, ele se negou a me receber. “Não estou falando com ninguém desde a eleição e não vou falar até fevereiro. O silêncio fala mais alto. O silêncio é retumbante.”


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