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Ano VII - Nº 343

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Em um ano, número de praias ruins ou péssimas cresce 20% no Brasil

Levantamento da Folha aponta também que as consideradas boas tiveram queda

Postado em 20 de Dezembro de 2018 - Júlia Barbon, Estelita Hass Carazzai, Marcelo Toledo, João Valadares e João Pedro Pitombo – Folha de SP

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A solução que o estudante Thiago Silva, 21, encontrou para quando engole água pegando jacaré no mar do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro, é simples: “Não penso muito sobre”, diz ele, brincando.

Nas pontas da praia, dois canais rasgam a areia e desembocam no mar trazendo sujeira e esgoto lançado clandestinamente na rede pluvial. 

O resultado é que uma das praias mais procuradas do litoral carioca no verão, que começa oficialmente às 20h23, desta sexta-feira (21), teve seus três trechos cuja qualidade da água é monitorada piorarem ao longo deste ano.

O problema vai muito além do Rio. Cidades como Salvador, Recife e Florianópolis, entre outras fazem parte dessa lista. O número de praias com qualidade ruim ou péssima cresceu 20% entre 2017 e 2018.

Das 1.188 praias monitoradas no litoral brasileiro nesse período, 399 foram consideradas ruins ou péssimas —ou seja, impróprias durante mais de três meses do ano— em 2018. No ano passado, eram 332 praias nesta situação.

O número de praias consideradas boas —próprias em todas as medições feitas no ano— caiu de 502 para 425. Já as praias regulares, que estiveram próprias em até 75% das medições feitas no ano, eram 354 e agora são 364.

Ao todo, os dados de 2018 apontam que 36% das praias são boas, 31% regulares, 15% ruins e 18% péssimas.

A reportagem seguiu as normas federais para medir a qualidade. Uma praia é considerada própria se não tiver registrado mais de 1.000 coliformes fecais para cada 100 ml de água na semana de análise e nas quatro anteriores.

Para a classificação anual, foi adotado método da Cetesb (órgão ambiental de São Paulo), que identifica as praias entre ótima e péssima a partir dos levantamentos semanais.

Foram apurados dados das praias de 13 estados no período entre novembro de 2017 e outubro de 2018. Amapá, Pará, Piauí e Sergipe ficaram de fora porque não realizam medições da qualidade da água de suas praias em 2017 ou 2018.

Entre as praias consideradas ruins ou péssimas, destacam-se praias nas grandes cidades e praias que ficam junto à foz de rios onde desembocam esgoto e água da chuva.

Em Salvador, apenas as praias de Stella Maris, Flamengo e Aleluia, no norte da cidade, além da Ponta de Nossa Senhora, na Ilha dos Frades, foram consideradas próprias em todas as medições do ano.

Por outro lado, praias como a da Boca do Rio, onde acontece a principal festa de Réveillon da cidade, têm índices que chegam a 16 mil coliformes por 100 ml de água — 15 vezes mais que o limite para ser considerada própria.

O estado de Pernambuco foi um dos que mais piorou na qualidade das águas: em 2016 eram 12 praias com classificação boa, contra duas em 2017 e só uma em 2018: a praia de Tamandaré, litoral sul, no ponto em frente ao Hotel Marinas.

Recife foi a única capital que não teve nenhuma de suas praias com a água própria durante o ano. Uma das mais frequentadas, Boa Viagem foi classificada como regular em seus seis pontos de medição.

Em São Paulo, o litoral norte viu cair o total de praias boas entre 2017 e 2018. Ilhabela teve apenas 2 pontos bons neste ano, ante 7 do ano passado. Em Ubatuba, caíram de 22 para 16 e, em São Sebastião, de 20 para apenas 9.

Já na cidade do Rio de Janeiro, o número de praias consideradas boas cresceu de três para sete, incluindo a Prainha e trechos de Grumari, Recreio e Barra da Tijuca. Por outro lado, praias de grande movimento como o Leblon pioraram de qualidade —em 2018, foi considerada ruim em seus três pontos de medição.

Em Santa Catarina, cujo litoral é frequentado por milhares de turistas na alta temporada, a balneabilidade das praias também piorou em relação a 2017, caso da maior parte da praia de Canasvieiras.

Nela, o mau cheiro do rio do Braz já fez com que banhistas usassem máscaras na praia em plena temporada, em 2016. Desde então, o estado foi obrigado pela Justiça a despoluir o rio.

Uma estação de purificação de água foi instalada no local, assim como uma de tratamento de esgoto, e os níveis de coliformes fecais e de urina no rio diminuíram drasticamente.

O rompimento de uma barreira de areia pelos moradores, porém, em janeiro, voltou a espalhar a água do rio no mar, piorando a balneabilidade durante cinco semanas.

A barreira foi reerguida, mas ligações clandestinas de esgoto ainda são um problema.
Entre 2017 e 2018, cinco praias brasileiras saíram de uma classificação boa para péssima. Uma delas é  Barra de Camaragibe, litoral norte de AL, na foz do rio Camaragibe. As outras quatro ficam em cidades do estado do Rio de Janeiro: Retiro (Angra dos Reis), Paraty Mirim e Pontal (Paraty) e Lagoa de Itaúna (Saquarema).

A avaliação da balneabilidade pode ser afetada por uma série de variáveis, como a maré, a chuva e o clima, explica o geógrafo Daniel Hauer Queiroz Telles, professor do Centro de Estudos do Mar da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e parceiro do Observatório de Justiça e Conservação.

Um mesmo trecho de praia pode ser avaliado como próprio ou impróprio no mesmo dia, a depender das condições. “É um tabuleiro extremamente complexo.”

Mas, para ele, a tendência é que a balneabilidade do litoral brasileiro piore a longo prazo, já que falta planejamento e capacidade prognóstica, em especial nos municípios. “As cidades costeiras não param de crescer, mas sem prevenção e estrutura de saneamento. A força da especulação imobiliária não se preocupa com qualidade ambiental, e sim com belas maquetes e experiência turística”, diz.

Segundo ele, o país deixa de aproveitar recursos e potencial ao descuidar da qualidade das praias —e a conta começou a aparecer. “Atualmente, se você vai a algumas praias durante a temporada e toma um banho de mar, passa mal”,  afirma ele, que cita também o aumento do lixo marinho e a queda de recursos pesqueiros em alguns trechos do litoral.  


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