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Segunda-Feira 16.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Mundo

Corrupção, xenofobia e racismo são vergonha da política afirma o Papa

Francisco: é insustentável acusar os migrantes de todos os males

Postado em 19 de Dezembro de 2018 - Andrés Beltramo Álvarez - Vatican Insider

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O Papa não tem dúvidas: a corrupção, a xenofobia e o racismo são “uma vergonha para a política” e “colocam em risco a paz social”. São os vícios de uma atividade que deveria ser, na realidade, o mais alto estado da caridade. Mas, muitos daqueles que a exercem, caem no enriquecimento ilegal, na tendência de se perpetuar no poder, na apropriação indevida dos bens públicos e no aproveitamento das pessoas. Uma denúncia contida na mensagem de Francisco para o próximo Dia Mundial da Paz, cujo conteúdo foi divulgado nesta semana, mas que a Igreja católica celebrará no dia 1º de janeiro.

O documento, difundido em oito idiomas, leva como título “A boa política está a serviço da paz”. Em um de seus fragmentos, o Pontífice se referiu aos vícios dessa atividade humana, entre os quais incluiu também a negação do direito, o descumprimento das normas comunitárias, a justificação do poder mediante a força ou com o pretexto arbitrário da razão de Estado, a rejeição ao cuidado da Terra e a exploração ilimitada dos recursos naturais por um lucro imediato.

“Sabemos bem que a busca de poder a qualquer preço leva ao abuso e à injustiça. A política é um veículo fundamental para edificar a cidadania e a atividade do homem, mas quando aqueles que se dedicam a ela não a vivem como um serviço à comunidade humana, pode se converter em um instrumento de opressão, marginalização e inclusive de destruição”, destacou.

“Quando o exercício do poder político aponta unicamente a proteger os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro está em risco e os jovens podem se sentir tentados pela desconfiança, porque se veem condenados a ficar à margem da sociedade, sem a possibilidade de participar de um projeto para o futuro”, acrescentou.

Ao mesmo tempo, o Papa se disse convencido de que a boa política é aquela a serviço da paz, aquela que respeita e promove os direitos fundamentais de todos, criando assim entre as gerações presentes e futuras um vínculo de confiança e gratidão. Ao mesmo tempo, afirma que esta atividade, realizada no respeito fundamental à vida, liberdade e dignidade das pessoas, pode se tornar uma “forma eminente da caridade”.

Mais adiante, constatou que, na atualidade, vive-se um generalizado clima de desconfiança que deita raízes no medo do outro ou do estranho, na ansiedade de perder benefícios pessoais e, “lamentavelmente”, se manifesta também em nível político, através de atitudes de fechamento ou nacionalismos que colocam em dúvida a fraternidade que o mundo globalizado tanto necessita. “Hoje, mais que nunca, nossas sociedades precisam de ‘artesãos da paz’, que possam ser autênticos mensageiros e testemunhas de Deus pai que quer o bem e a felicidade da família humana”, acrescentou.

Para recordar como deveriam ser os políticos, o Papa citou as “bem-aventuranças” que o cardeal vietnamita François-Xavier Nguyen Van Thuan, falecido em 2002, dedicou a essa categoria de pessoas. Assim escreveu: Bem-aventurado o político que tem uma alta consideração e uma profunda consciência de seu papel, aquele “cuja pessoa reflete credibilidade”, o que “trabalha pelo bem comum e não por seu próprio interesse”, que “permanece fielmente coerente”, o que “está comprometido em realizar uma mudança radical, o que “sabe escutar” e “não tem medo”.

“Cem anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, e com a recordação dos jovens caídos durante aqueles combates e as populações civis devastadas, conhecemos melhor que nunca o terrível ensinamento das guerras fraticidas, ou seja, que a paz jamais pode se reduzir ao simples equilíbrio da força e o medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-o ao estado de objeto e lhe negar a dignidade. É a razão pela qual reafirmamos que o aumento da intimidação, assim como a proliferação incontrolada das armas são contrários à moral e à busca de uma verdadeira concórdia”, apontou.

“O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras em busca de uma terra de paz. Não são aceitáveis os discursos políticos que tendem a culpar os migrantes por todos os males e a privar os pobres da esperança. Ao contrário, cabe sublinhar que a paz se baseia no respeito a cada pessoa, independentemente de sua história, no respeito ao direito e o bem comum, à criação que nos foi confiada e à riqueza moral transmitida pelas gerações passadas”, precisou.

Depois, dirigiu um pensamento especial às crianças que vivem em zonas de conflito, e a todos aqueles que se esforçam para que suas vidas e seus direitos sejam protegidos. Denunciou que, no mundo, uma em cada seis crianças sofre por causa da violência da guerra e de suas consequências, e inclusive é recrutada para se tornar soldado ou refém de grupos armados. Por isso, afirmou que a ação de todos os que se comprometem na defesa da dignidade e o respeito das crianças é sumamente preciosa para o futuro da humanidade.

Além disso, constatou que a paz é fruto de um grande projeto político que se funda na responsabilidade recíproca e na interdependência dos seres humanos, mas é também um desafio que exige ser acolhido dia após dia, é uma conversão do coração e da alma.

Para conseguir essa conversão, seguiu, é necessário alcançar a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência. “A paz com o outro”: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre e o que sofre; atrevendo-se ao encontro e escutando a mensagem que leva consigo. Assim como “a paz com a criação”, uma responsabilidade que corresponde a cada um dos habitantes do mundo, cidadãos e artífices do futuro.


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