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Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Poder

Aécio recebeu R$ 110 milhões em propina e comprou 12 partidos em 2014, diz delação da JBS

Tasso Jereissati diz que o senador mineiro já prejudicou muito o partido

Postado em 14 de Dezembro de 2018 - Rafael Neves (Congresso em Foco), Thais Arbex, Thais Bilenky e Daniel Carvalho (Folha de SP)

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Deflagrada pela Polícia Federal (PF) no último dia 11, a Operação Ross, que faz buscas em endereços de políticos em 8 estados e no Distrito Federal, tem como principal alvo o senador Aécio Neves (PSDB). As investigações partiram de um dos termos da delação do grupo J&F (controlador do frigorífico JBS), que teria feito pagamentos de R$ 110 milhões por interesse do tucano.

Segundo Ricardo Saud, ex-diretor do grupo, a JBS comprou apoio de 12 partidos para formar a coligação que apoiou Aécio nas eleições de 2014 (veja lista abaixo). Um dos partidos beneficiados, segundo a colaboração, foi o Solidariedade, que teria recebido R$ 15,27 milhões.

O presidente da legenda, Paulinho da Força (SDD-SP), também é investigado na operação de hoje. Aécio acabou derrotado no segundo turno em 2014 por Dilma Rousseff (PT), no segundo turno, por uma diferença de 3,5 milhões de votos.

A nova investida da Polícia Federal contra o senador mineiro Aécio Neves o submeteu a patamares elevados de pressão para que saia do PSDB. Ex-presidente do partido, o senador Tasso Jereissati (CE) se disse surpreso com as revelações da Operação Ross sobre uma suposta mesada de R$ 54 mil ao tucano paga pela JBS. “É estranho. Se for verdade, é muito sério”, disse Tasso. “Aécio já prejudicou muito o partido.” 

Em almoço da bancada do PSDB no Senado, no gabinete de Tasso, o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) também criticou Aécio. “Ele provocou o furacão e escapou da tempestade”, disse o paraibano, referindo-se à eleição do mineiro para a Câmara, a despeito do encolhimento geral do PSDB por conta do envolvimento em escândalos de corrupção.

Na Câmara, deputados tucanos defendem reservadamente a abertura de um processo de expulsão do mineiro, que na eleição de outubro se elegeu para uma vaga na Casa.

O Conselho de Ética do PSDB está instalado há cerca de dez dias com o deputado Samuel Moreira (SP) na presidência para analisar outros pedidos de expulsão como a do ex-governador paulista Alberto Goldman e do prefeito de São Paulo, Bruno Covas.

Caso chegue um pedido relativo a Aécio, o andamento seria célere, segundo tucanos que acompanham o conselho. A decisão final, de toda forma, seria da Executiva nacional. “Com fortes indícios, como tem, de envolvimento [com corrupção, Aécio] tem que sair. Se não sair, tem que ser expulso”, afirmou o deputado João Gualberto (PSDB-BA). 

“Se o partido quiser sobreviver e estar antenado com a sociedade, tem que ter essa coragem. Eu não tiro a importância de ninguém com o seu passado, mas o presente não é mais isso. Aécio passou do tempo de sair. Ele prejudicou muito o partido na eleição.”

Segundo Gualberto, sua opinião é compartilhada pela totalidade da bancada do PSDB na Câmara, à exceção dos deputados mineiros. “As pessoas não têm é coragem”, criticou.

No Senado, Aécio disse que a ação da PF, que cumpriu mandados de busca e apreensão em imóveis ligados ao tucano, foi desnecessária porque ele é o maior interessado em esclarecer os fatos apurados.

"A verdade é que não podemos mais aceitar que delações de criminosos confessos e suas versões se sobreponham aos fatos. O fato concreto é um só. Do que estamos tratando neste inquérito? De doações a campanha eleitoral, doações feitas em 2014 de forma legal, registradas na Justiça Eleitoral, aprovadas por esta mesma Justiça Eleitoral sem qualquer contrapartida", defendeu-se.

O senador, eleito deputado federal nas últimas eleições, disse que o empresário Joesley Batista tenta manter sua "incrível imunidade penal".

Tempos difíceis

Aécio foi à tribuna do Senado no dia 12 para, em seu último discurso, dizer que está vivendo dias duros. "Eu tenho vivido dias extremamente difíceis, vocês podem imaginar, mas eu não perco a minha fé, presidente", afirmou em um discurso de 20 minutos.

Aécio também fez um mea culpa ao comentar a gravação de conversa entre ele Joesley em que o senador pede R$ 2 milhões sob o pretexto de pagar advogados.

"Cometi um erro na minha vida pelo qual me penitencio todos os dias, de ter, já numa história armada por esse cidadão, para se ver livre dos inúmeros crimes que havia cometido, aceitei, por sugestão dele, participar de uma conversa em contrapartida à oferta de um apartamento da minha família que havia sido feita e —ele reconhece isso em seus depoimentos— ele se oferece para me ajudar a pagar os meus advogados da forma que ele achou mais adequada", disse o senador.

Desde então, Aécio mudou seu jeito de agir. Ficou mais discreto e começou uma campanha eleitoral quase que secreta. Não divulgava agendas e preferia eventos fechados, longe da imprensa.

"Quero reiterar a cada companheiro que aqui está que fiquem atentos porque o que se busca, na verdade, dando voz e credibilidade ao que diz o senhor Joesley, repito, cuja delação foi questionada pela PGR [Procuradoria-Geral da República] pelas suas mentiras e pelas suas omissões, nós estamos seguindo um caminho para absolver o culpado e condenar o inocente. E sei que este não é o papel da Justiça brasileira", afirmou.

Aécio disse estar presenciando "um verdadeiro teatro do absurdo" e que não poderia se despedir do Senado sem apresentar "uma manifestação clara, vigorosa, de indignação em relação a esses últimos acontecimentos" que o têm como protagonista.

Aécio disse que as doações que recebeu foram todas legais e que não é possível que se queira criminalizar o que era legal. Até 2014, havia permissão para doações empresariais.

"Lutarei pela minha honra, pela honra da minha família, porque eu me conheço, conheço a minha história e não vou deixar que aqueles que se beneficiaram, que ocuparam o Estado nacional em busca de seus benefícios próprios, de seu próprio enriquecimento pessoal, vençam essa batalha", disse o senador.


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