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Quarta-Feira 20.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Coluna

Horizontes limitados

O espírito consumidor do brasileiro

Postado em 05 de Dezembro de 2018 - Emerson Merhy

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Estive há algum tempo em uma roda de conversa com várias pessoas que viviam nas ruas de uma grande capital brasileira, na qual rolava um grande bate-papo sobre questões que lhes incomodavam. Maioria, homem, como é característico nesse tipo de agrupamento. Estima-se que 20% dos que vivem nas ruas são mulheres, em diferentes idades; como regra, negras, assim como os homens.

A conversa rolava solta, pois todes falavam. Como eu era a novidade naquela hora, váries me disseram o nome e o que faziam.

Houve histórias de vida, como sempre, muito ricas em termos da construção do viver antes e agora. Alguns vinham de momentos bem diferentes do agora, tinham emprego estável, gostavam do que faziam e, por uma razão ou outra, estavam vivendo nas ruas da cidade da qual traziam boas e más lembranças, como em qualquer vida, em qualquer lugar.

Chamou minha atenção a natureza da fala quando identificavam qualquer problema que passavam, em especial quando precisavam ser acolhidos por algum tipo de serviço por parte do poder público. Todes batiam na tecla: eram cidadãos(ãs) brasileiros(as) e, como tal, deveriam ser respeitados(as), ao mesmo tempo que entendiam que isso passava por serem servidos pelo poder público como consumidores cidadãos, de que esse poder deveria ofertar como se esse fosse mero produtor de bens públicos para um mercado das políticas sociais.

A realização da ideia de sujeitos plenos de direitos sociais, como direito à saúde, passava pela ocupação de um lugar em um tipo de mercado entre esses sujeitos e prestadores públicos de serviços.

Construção brasileira do que seria a produção efetiva de uma sociedade democrática a partir da Constituição de 1988, levando subjetivamente cada brasileiro a um lugar bem externo em relação a própria construção dos direitos sociais, esperando que alguém fizesse uma certa lei que lhe beneficiaria, implicando em uma baixa adesão da maior parte dos brasileiros(as) nas lutas por conquistas de novos direitos que lhe podiam fazer referência ou mesmo pela garantia da realização do que estava nas leis, de modo a serem efetivos os processos de produzir uma aliança íntima entre as maneiras de se construir as políticas sociais e a participação efetiva dos que a ela faziam referência.

Tentativa que vimos na nossa história recente quando se construiu o SUS com a criação de conselhos formados por cidadãos-usuários, cidadãos-trabalhadores de saúde, cidadãos-gestores e empresários da área da saúde. Essa ideia era que todos grupos sociais vinculados a um certo campo de políticas deveriam estar articulados tanto com as formulações necessárias, quanto com a construção dos modos de realizá-las, retirando-se do lugar de um mero espectador consumidor da política, a ser realizada pelos aparatos públicos.

***

Infelizmente, sabemos que os próprios grupos que estiveram envolvidos com essas construções bem interessantes acabaram por consagrar modos de construir e implementar as políticas exatamente no caminho oposto. Excluindo os reais interessados, que eram só consultados quando do interesse em legitimar certos caminhos adotados pelos responsáveis pelas políticas públicas e sociais no âmbito do aparato do estado, e transformando o cidadão pleno de direito em um verdadeiro e mero espectador e consumidor.

Na vida real, reforçou uma prática já muito consagrada na história brasileira de práticas clientelistas e tecnicistas, repetindo que a política do estado é para poucos e não é da competência da população brasileira em geral, que sempre se acostumou, no máximo, a ser um eleitor que mal sabe a política que seu candidato escolhido apregoa.

O pior é que depois haja queixa de que as(os) brasileiras(os) são mal acostumadas(os).

A produção de uma certa forma de ser ator político traz consequências para os momentos mais críticos de uma certa sociedade.

Enquanto fizemos o movimento de 2013, que se pautou por ideários de consumidores, vimos em outros países lutas nas ruas para se modificar o modus operandi do próprio estado como aparato. Vimos e vemos, em alguns deles, grupos na rua pedindo políticas públicas e sociais mais efetivas na inclusão dos cidadãos(ãs) na fabricação das leis, além de proporem para alterá-las na direção de ações nas raízes dos problemas: como taxar grandes fortunas, aumentar impostos para quem lucra mais e não para salários.

Adotar um território de cidadania como cidadão-consumidor tem gerado territórios identitários entre grupos de interesses os mais variados e até contraditórios, pois gente que paga alguns impostos em relação ao seu salário, como a imensa maioria da população brasileira, se vê identificada com gente muito rica que reclama dos impostos que não fazem cócegas em suas riquezas.

Essa identificação enganosa de bandeiras comuns, hoje no Brasil, tem produzido um horizonte de alto risco para a construção de uma sociedade que vive e se alimenta da sua pluralidade e tensões.

O pensamento binário encontra nesse mundo brasileiro um terreno bem fértil e como tal produz uma sociedade muito intolerante.


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