Semana On

Quinta-Feira 21.mar.2019

Ano VII - Nº 342

Coluna

Uma dica para o Carrefour

Uma reflexão sobre crueldade, comércio e poder

Postado em 05 de Dezembro de 2018 - Rodrigo Amém

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Um funcionário da rede Carrefour matou a cachorrinha Fur à pauladas em Osasco, no início do mês. Tenho certeza que você ficou sabendo, amigo leitor. A repercussão foi grande. Muitas pessoas demonstraram pesar diante da tortura de um ser vivo inocente. Homenagens foram prestadas à pobre cadela e até uma campanha de boicote tomou conta das redes sociais.

Como é de praxe em empresas deste tamanho, o Carrefour se mostrou ineficiente ao lidar com as consequências da trágica ocorrência. É uma regra triste, mas multinacionais apresentam extrema dificuldade com dilemas locais. Muitas vezes, não há nem autonomia regional para uma resposta efetiva, é verdade. O gigante acaba só se movendo quando o problema adquire um vulto maior.

Neste caso em específico, a primeira resposta foi tirar o corpo fora alegando que o funcionário torturador era "terceirizado", como se a forma do contrato de trabalho eximisse a responsabilidade do supermercado. Depois, insinuaram que o cachorro tinha morrido em função do resgate, não da agressão. A desfaçatez da resposta só aumentou a revolta popular, até que alguém no alto da hierarquia da comunicação da empresa foi convocado para esboçar um posicionamento menos equivocado. Mas aí já era tarde. O dano à imagem, ainda que temporário, já estava feito.

Teve gente que reclamou da polêmica? Claro. Mas é por isso que preferimos os bichos, né? Ser humano é o único animal que faz questão de ser moralmente nocivo. Talvez por isso estejamos no topo da cadeia alimentar. Matamos porque achamos divertido. Criamos todo um modelo social de valores e crenças que justifica a violência por hedonismo. Nós, os humanos, superiores. O resto da natureza ao nosso dispor: escravos e objetos. Alguns animais que são para fazer carinho, outros são para consumo. Todos são comércio, propriedade. Matamos por turismo, vaidade, gula, lucro, tédio. Matamos porque podemos.

Acontece que uma parte considerável do modelo de negócio do Carrrefour consiste em explorar esse modelo social. A rede comercializa, todos os dias, milhares de quilos de animais coisificados para o nosso prazer. E mesmo entre aqueles que levarem adiante o boicote, haverá os que simplesmente trocarão de estabelecimento.

Não é preciso dizer que essas pessoas, atoladas na contradição do abuso animal, se irritam quando são alertadas para a problematização de seu posicionamento. Acham um absurdo serem responsabilizadas pela crueldade de outrem. Mais ou menos como o Carrefour se comportou diante do seu funcionário "terceirizado" e sádico.

Para quem consome alguns animais em detrimento a outros, a questão não parece ser a crueldade em si, mas o seu testemunho. O que é inaceitável não é tirar a vida de um animal por lucro. Mas tornar essa execução pública. Tivesse o "terceirizado" fechado a porta, tivesse ele evitado que os ganidos de dor da Fur chamassem a atenção dos clientes e seu rastro de sangue sujasse os corredores do estabelecimento, estaria tudo certo.

Faltou, ao Carrefour, a discrição dos abatedouros da JBS. Faltou um benchmarking de abuso. É fundamental separar mentalmente o "ser vivo" do "produto". A indústria da exploração animal é um exercício de realismo mágico onde carne não é morte, é proteína. Nosso querido Mato Grosso do Sul é fruto dessa dissociação lógica. São quatro cabeças de gado para cada habitante. Sem violência animal, nosso Estado provavelmente não existiria.

O que o consumidor (e o eleitor) médio quer é o bife no prato. A procedência é problema do fornecedor. E, para o bem do negócio, é melhor que todo sofrimento seja isolado e anônimo, para não estragar o apetite do freguês. E é por isso que nenhum boicote resiste a uma promoção do quilo da alcatra. Fica a dica, Carrefour.


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