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Domingo 21.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Poder

Só toco berimbau, diz ministro que chefiará Cultura sobre o que sabe do setor

Evangélicos cobram Bolsonaro por nomeação

Postado em 30 de Novembro de 2018 - Ranier Bragon (Folha de SP) e Rafael Neves (Congresso em Foco)

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Momentos depois de ser anunciado como titular da nova pasta da Cidadania, que abrigará os atuais Desenvolvimento Social, Esporte e Cultura, Osmar Terra (MDB) disse não conhecer nada sobre os dois últimos temas. "Só toco berimbau", afirmou, dando gargalhadas em seguida.

Em passagem pela Câmara, Terra, ex-ministro do Desenvolvimento Social do governo de Michel Temer, negou que tenha havido participação do seu partido na indicação, mas sim de frentes legislativas pouco articuladas e representativas, como a do Assistência Social e de defesa das Santas Casas.

Apesar do desconhecimento sobre grande parte das novas funções, defendeu auditoria na Lei Rouanet, hoje o principal instrumento federal de incentivo às artes."Olha, eu nem conheço", respondeu ao questionamento sobre quais seriam os principais problemas do Esporte e da Cultura, em sua opinião. 

"Ontem de noite que me falaram que ia ser assim, que ia ter essa estrutura. Eu to indo amanhã visitar o Esporte, conversar com o Sergio Sá [na verdade, ministro da Cultura], vou visitar a Cultura também, ter uma ideia, para eles me falarem... o Leandro lá [Leandro Cruz Fróes da Silva, ministro do Esporte], o Sérgio, ter uma ideia e ver de que maneira a gente pode integrar, mas acho que tem muita coisa que pode integrar com a área social", afirmou Terra.Diante da insistência sobre se tinha alguma experiência passada em Esporte ou Cultura, afirmou só tocar berimbau. "Cultura é um mundo, né? E um mundo problemático."

Apesar da reconhecida falta de conhecimento sobre o tema, a Lei Rouanet, em sua visão, deve passar por uma auditoria."Eu não tenho conhecimento ainda como está, mas pelo que acompanhei no noticiário tem que auditar a Lei Rouanet, saber como foi gasto esse dinheiro dela. Tem que se estabelecer, talvez, um limite, não pode dar 10 milhões para uma pessoa, 20 milhões para outra, não dar nada para a cultura popular. Tem que estabelecer cota, eu acho, de valores."

A lei foi um dos principais alvos na campanha. Aliados de Jair Bolsonaro afirmam que o instrumento foi capturado pela esquerda e é fruto de desvios

Reportagem do jornal Folha de SP mostrou no início do mês que eventual fim da lei poderia gerar um apagão na produção artística. As artes cênicas representam a maior fatia da Rouanet. 

No ano passado, ela teve 37,93% de todos os valores captados via lei (cerca de R$ 1,2 bilhão). Logo na sequência aparecem música (21,54%), artes visuais (13,49%) e patrimônio cultural (12,73%)."Acho que a auditoria vai mostrar isso [se houve desvio ou captura do instrumento pela esquerda], a gente tem que fazer essa auditoria, não tenho opinião formada sobre isso", disse Terra.

Em Esporte, o ministro disse que pretende fortalecer o programa Força do Esporte, que leva para centros olímpicos e áreas esportivas dos quarteis os jovens no turno contrário ao da escola.

"A gente usou isso no Rio, fizemos isso com escala grande no Rio, acho que a gente pode acrescentar a isso música, que os jovens possam apreendam a tocar instrumentos musicais."Terra também citou experiência da Islândia em redução do consumo de álcool e drogas por jovens, como atividades fora da escola, ocupando todo o dia. "E eu quero acrescentar a isso o ensino técnico, que é uma coisa que a gente tem que trabalhar com o Ministério da Educação."

Segundo o ministro, Bolsonaro pediu a ele apenas para avançar nos projetos do Desenvolvimento Social, "principalmente em resgatar a força de trabalho que está nos jovens do Bolsa Família".

Sobre Esporte e Cultura, não teria havido nenhum pedido do presidente eleito. "Eu vou fazer uma proposta e entregar pra ele", disse, sobre os dois temas.

Ele tem que se explicar

Um dos líderes da bancada evangélica no Congresso, o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), cobrou o presidente eleito pela confirmação de Osmar Terra para o futuro Ministério da Cidadania. Cavalcante não se opõe ao nome de Terra (que não integra a frente), mas afirma que foi Bolsonaro quem pediu uma indicação para a pasta à frente evangélica – que ofereceu três opções no último dia 27. O capitão da reserva, segundo Sóstenes, fechou com o emedebista sem consultá-los.

"Quem pediu foi o próprio presidente Jair Boslonaro. Então ele é quem tem que explicar como é que ele pede nome e decide por outro, quais foram os critérios que ele usou e decidiu sem comunicar ninguém. Aí é com ele", reclamou Sóstenes, que fez uma cobrança. "Para a gente [deputados], ele vai ter que explicar na hora dos votos [para projetos de interesse do governo no Congresso] no ano que vem", disse.

“A bancada entendeu mal o presidente. Ele quis ouvir, mas não abriu mão do direito de recusar os nomes. Não houve o compromisso de aceitar qualquer indicação”, disse um parlamentar com amplo trânsito no governo de transição.

Sóstenes diz que a bancada não deverá apontar nomes para nenhum dos ministérios que ainda não têm comando definido.

"Se dependesse de mim, não tinha nem indicado os de ontem [terça]", disse. Os evangélicos haviam sugerido os deputados Marco Feliciano (Podemos-SP), Ronaldo Nogueira (PTB-RS) e Gilberto Nascimento (PSC-SP). Os evangélicos deverão somar, ao lado das frentes agropecuária e da segurança - as chamadas bancadas ruralista e da bala -, cerca de 300 integrantes da Câmara na próxima legislatura.

Apesar do desentendimento, o nome de Osmar Terra não desagrada os evangélicos. "É um bom companheiro, não tem problema nenhum", diz Sóstenes.


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