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Terça-Feira 18.dez.2018

Ano VII - Nº 332

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Brasil

Estudo aponta perfil e hábitos digitais de leitores de fact-checking

Maior parte dos interessados em notícias verificadas está habituada à leitura crítica, é graduada, tem especialização ou mestrado

Postado em 29 de Novembro de 2018   - Congresso em Foco

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Uma pesquisa acadêmica recém-concluída aponta o perfil e os hábitos digitais dos leitores de fact-checking no Brasil. De acordo com o estudo, a maior parte dos interessados em notícias verificadas está habituada à leitura crítica, é graduada, tem especialização ou mestrado. Também tem posicionamento ideológico definido: 39% dos entrevistados se dizem de esquerda e 30%, de centro-esquerda. Outros 8% se identificam como de direita e 6, como de centro.

Segundo o levantamento, a maior parte desse público vive nas regiões Sudeste e Sul do Brasil e tem renda salarial aproximada que varia entre dois (R$ 1.908) e dez salários mínimos (R$ 9.540). Conhece mais a Agência Lupa (60,5%), no entanto, confia mais nos dados da Agência Pública (64%). A televisão (41%) e o rádio (34,4%) são os meios de acesso às notícias mais utilizados pela maioria deles para se manter informado sobre o que acontece no país. O smartphone é o dispositivo mais utilizado para ler e buscar informações na internet (98,4%).

Mais da metade dos entrevistados disse não pagar para ler notícias no meio digital (65,9%) e 70% não têm interesse em financiar, doar recursos ou apoiar um projeto no meio digital. Os participantes da pesquisa também revelam sentir uma motivação maior em “curtir” (46%) e “compartilhar” (40,3%) nas redes sociais (Facebook e Twitter) uma notícia verificada. Apenas 28% informaram enviar ou compartilhar uma checagem pelo WhatsApp ou pelo Messenger. Por e-mail, esse percentual cai para 2%.

Os dados levantados fazem parte do estudo que deu origem ao trabalho de conclusão de curso Fact-checking - o conhecimento do leitor e o consumo de notícias verificadas, da estudante do curso de jornalismo Denise Becker, da Universidade Positivo, de Curitiba. A pesquisa coincidiu com o período em que as notícias falsas (as fake news) tiveram um protagonismo inédito nas eleições brasileiras.

Depois de definir uma amostragem com base em dados socioeconômicos de leitores no país, Denise ouviu 324 pessoas de todas as regiões do Brasil entre julho e agosto. A amostra levou em conta indicadores como escolaridade, cor/raça, posicionamento político, renda, idade e hábitos de consumo.

Desafios

O estudo indica algumas saídas para uma maior efetividade na checagem de notícias. Textos com muitos hiperlinks e dados podem representar uma barreira aos leitores devido ao baixo índice de leitura das pessoas no país. Segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil e o IBGE, de 2016, 44% dos brasileiros não leem e 30% nunca compraram um livro.

De acordo com Denise, o YouTube, a televisão e o WhatsApp podem ser utilizados de maneira intensiva para aproximar o público do jornalismo de checagem. “Um fact-checking mais humanizado, em que o jornalista se mostre mais às pessoas, inclusive divulgando outros trabalhos que já realizou e quais foram suas contribuições para melhorar a qualidade do debate público, quais leis foram alteradas, crimes solucionados, denúncias acolhidas e como o seu trabalho mudou realidades”, sugere a estudante de jornalismo.

Apesar de já haver alguns estudos sobre a checagem de notícias no Brasil, as pesquisas têm se detido em aspectos mais particulares, como a metodologia do fact-checking e seus processos. Existe pouco estudo dedicado a entender quais razões levam as pessoas a consumirem notícias verificadas, pondera a estudante. “Nossa pesquisa buscou contribuir para a compreensão sobre como e por que as pessoas consomem notícias verificadas”, explica Denise.

Fake news

O fact-checking virou um antídoto à desinformação, às chamadas fake news (notícias falsas). A atividade se dá no ambiente digital, com ênfase em temas políticos, na verificação de discursos que já tenham sido proferidos e no confronto com base em dados oficiais, pesquisas e consultas a especialistas, classificando-se por meio de etiquetas a veracidade ou a falsidade da notícia.

O trabalho, orientado pelos professores e jornalistas Rosiane Correia de Freitas e Hendryo André, analisou os sites É ou Não É (editoria substituída para Fato ou Fake no G1), É Isso Mesmo? (blog O Globo), Prova Real (NSC Comunicação), Aos Fatos, Agência Pública e Agência Lupa.

“Nos últimos dez anos se tornou muito fácil propagar qualquer tipo de conteúdo na internet. Os algoritmos sabem o que viraliza e já foi comprovado que posts com conteúdos emocionais, os mais populares, aqueles que dão vontade de compartilhar, os polêmicos, os radicais, são o tipo de conteúdo que podem ser revertidos em lucro”, observa Denise.

Incompreensão

Para ela, o enfrentamento às fake news exige das pessoas a compreensão sobre o que é o jornalismo e o que faz um jornalista. “Outras profissões são muito mais claras sobre o seu papel. A propagação de mentiras sempre existiu, a propaganda política sempre existiu e as pessoas seguem acreditando naquilo que vai ao encontro de suas crenças existentes desde a infância”, diz. “Envolvem questões cognitivas, pois o cérebro humano tem a necessidade de receber informações confirmatórias que se harmonizem às opiniões e crenças existentes do indivíduo”, acrescenta.

Na avaliação de Denise Becker, também é preciso investir em educação e na responsabilização das empresas de tecnologia para coibir o avanço das notícias falsas. “A solução para o contexto da desinformação é uma ação conjunta, educativa, de Justiça e de responsabilização das empresas de tecnologia e não apenas do jornalismo. Entender e investigar a internet é mais importante do que mostrar ‘verdades e mentiras’. A sociedade precisa compreender este novo ecossistema e suas engrenagens.”


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