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Terça-Feira 18.dez.2018

Ano VII - Nº 332

Governo

Artigo da semana

Da eleição ao cotidiano

O assédio via WhatsApp e redes será arma política

Postado em 27 de Novembro de 2018   - Leonardo Sakamoto - Blog do Sakamoto

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O que acontecerá se o diálogo político for substituído por coação digital contínua no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas e Distrital? Qual será a reação se alguns deputados, senadores, governadores ou mesmo o futuro presidente acharem que podem jogar seus seguidores para ameaçar parlamentares da oposição ou assediarem de forma indevida os da sua própria base a cada nova proposta de seu interesse em trâmite no Congresso, usando WhatsApp e redes sociais? Aliás, não apenas seguidores, como também consultorias contratadas para disparar milhões de mensagens por dia. O que acontece se alguém decidir exercer seu mandato usando ataques digitais como se ainda estivesse em campanha?

Discute-se, neste momento, a tentativa de Jair Bolsonaro de criar uma base de apoio em cima de bancadas temáticas, como a ruralista, a do fundamentalismo religioso e a corporativa de agentes da segurança pública. Some-se a ela uma bancada das associações médicas e empresas de planos de saúde. É cedo, porém para afirmar que ele conseguirá ignorar a negociação com os partidos tradicionais e seus líderes e tratar diretamente com esses grupos de interesse. Ainda mais porque eles perderam nomes fortes, que sabiam operar no Congresso, especialmente a ruralista.

Convencer milhões de seguidores nas redes sociais a votarem em alguém é bem mais fácil do que fazer com que lideranças partidárias coloquem as pautas do governo na agenda de votações e entreguem votos necessários para aprová-las em assuntos que fogem aos interesses das bancadas temáticas. Esse público de 513 deputados e 81 senadores não se manipula tão facilmente.

E pressionar políticos via bullying de redes sociais pode ter o efeito contrário. Afinal, 2019 não é ano de eleição para que deputados e senadores se preocupem tanto assim com a imagem pública.

Isso sem contar que, quando a Reforma da Previdência começar a ser discutida, por exemplo, pode ser que ocorra o caminho inverso: muitos dos seguidores desses parlamentares eleitos com a ajuda das redes irão pressioná-los para que não apoiem mudanças que dificultem a aposentadoria de determinadas categorias profissionais e grupos sociais. Como esses políticos vão reagir a isso é outra incógnita.

A propaganda contínua teve um papel fundamental para manter o controle do partido nazista sobre a Alemanha após sua ascensão ao poder por via eleitoral. Oitenta anos depois, a máquina de manipulação do debate público montada por Donald Trump em sua administração ajuda no suporte ao governo por parte de seus eleitores, atuando para anular a influência de investigações e denúncias por parte da imprensa. Não somos nem a Alemanha da década de 1930, nem os Estados Unidos de hoje.

Mas uma coisa é a justa pressão e o desejável monitoramento por parte dos eleitores ou mandatos em que o eleitor é consultado a todo o momento por seu representante para a tomada de decisões e construção de políticas. Outra é usar o eleitor como massa de manobra, fomentando a violência digital como instrumento da política diária. Vai ser interessante ver como essa nova forma de política consegue ter sucesso e, ao mesmo tempo, resistir no teste da democracia.

Leonardo Sakamoto - Jornalista e cisntista social. Edita o Blog do Sakamoto no UOL


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