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Sábado 04.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Entrevista

Entrevista: Tai Loschi - subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania

A subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania, Tai Loschi, fala das políticas de enfrentamento à violência.

Postado em 08 de Janeiro de 2014 - Victor Barone

A subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania, Tai Loschi, fala das políticas de enfrentamento à violência. A subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania, Tai Loschi, fala das políticas de enfrentamento à violência. Fotos: Erônemo Barros
A subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania, Tai Loschi, fala das políticas de enfrentamento à violência. A subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania, Tai Loschi, fala das políticas de enfrentamento à violência. A subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania, Tai Loschi, fala das políticas de enfrentamento à violência. A subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania, Tai Loschi, fala das políticas de enfrentamento à violência.

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No primeiro fim de semana de 2014 dois crimes chocaram os campo-grandenses. Uma mulher foi assinada quando voltava do trabalho, supostamente pelo seu ex-marido, e uma jovem teve o rosto desfigurado, provavelmente após ser agredida pelo namorado. Somente nos primeiros cinco dias do ano foram registrados 63 casos de violência doméstica no Mato Grosso do Sul envolvendo crimes de injúria, ameaça, lesão corporal e vias de fato. O Estado está na quinta posição do ranking nacional de assassinato de mulheres, segundo o Mapa de Violência de 2012 do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos. Para falar das políticas públicas implementadas para combater este cenário caótico entrevistamos a subsecretaria de Estado da Mulher e da Promoção da Cidadania, Tai Loschi.

 

Por Victor Barone

Os índices de violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul são alarmantes. É hora de implementar ações mais duras para mitigar estes números?

Em 2013 o Centro de Atendimento à Mulher em Situação de Violência “Cuña Mbarete” realizou 4.310 atendimentos entre recepção de casos, assistência social, defensoria, atendimento psicológico e de socorro imediato. Em 2013 foram 3.955 ações. Entre 2002 e novembro de 2012, a Casa Abrigo para Mulheres em Risco de Vida recebeu 290 mulheres e 517 crianças. Em 2012 Mato Grosso do Sul figurou em 5º lugar no ranking nacional de registros de casos de violência contra a mulher do Ligue 180, apresentando uma taxa de 473.90 casos por 100 mil habitantes do sexo feminino. No ano passado o Estado ficou na 9º colocação, com uma taxa de 380,10 casos. Entre as capitais, Campo Grande figurou na primeira colocação do Ligue 180 com taxa de 584,73 por 100 mil habitantes. Para se ter uma ideia da proporção de casos no Estado, apenas entre janeiro e outubro de 2013 foram registrados 12.236 Boletins de Ocorrência de violência contra a mulher no Mato Grosso do Sul. A violência contra a mulher existe há séculos e estes números tem base no fortalecimento da rede de combate à violência contra a mulher, cuja credibilidade tem levado as mulheres a denunciarem as agressões. Ao saberem que a rede existe e que os serviços de acolhimento, atendimento e acompanhamento são satisfatórios, as mulheres passaram a nos procurar. Estes números mostram que o trabalho do Governo do Estado para incentivar as denúncias e acolher as vítimas de violência contra a mulher tem dado resultado.

No que consiste este trabalho?

Temos um compromisso de atender estas mulheres. É dever do Estado e da sociedade. Trabalhamos em aliança com a Secretaria de Política para Mulheres da Presidência da República, junto com a ministra Eleonora Menicucci. Este trabalho é compromisso do governador André Puccinelli, não apenas uma política de governo, mas uma política publica cujo resultado é o Plano Estadual de Política para as Mulheres construído em todo o Mato Grosso do Sul através de eixos temáticos amplamente debatidos, entre eles a violência. Temos uma rede de enfrentamento formada pelo poder público, segurança pública, a saúde, os 12 Centros de Referência e de Atendimento à Mulher, as 12 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher e as duas Casas Abrigo (em Campo Grande e em Dourados). A mulher não gasta um tostão, mas ela tem que ter a conscientização da necessidade de buscar ajuda.

O uso excessivo de drogas, álcool, o ciúme doentio, o sentimento de posse, o machismo, as dificuldades financeiras, tudo isso leva a violência e a agressão.

Quais as principais causas da violência contra a mulher?

O uso excessivo de drogas, álcool, o ciúme doentio, o sentimento de posse, o machismo, as dificuldades financeiras, tudo isso leva a violência e a agressão. Há uma questão cultural que a gente não transforma da noite para o dia. Temos feito reuniões, conselhos, palestras, capacitações, qualificação profissional em escolas, nos conselhos profissionais, com indígenas etc. A gente orienta que na primeira discussão feia, ou sinal de violência ela já busque ajuda. As estatísticas mostram que somente depois da quinta surra é que a mulher busca ajuda.

A divulgação desta rede de proteção tem sido suficiente?

Quanto mais melhor. Temos divulgação a nível nacional da Lei Maria da Penha, ampla campanha no dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, temos os 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres, entre novembro e dezembro, a campanha do laço branco, combate a AIDS. Trabalhamos dentro das diretrizes do Plano Estadual de Política para as Mulheres. Nosso papel na violência de gênero é fazer a transversalidade para outras politicas. Estou constantemente articulada com a saúde, educação e assistência, trabalhando em conjunto.

Na última segunda-feira (6) a senhora recebeu a visita da nova presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana de Mato Grosso do Sul (CEDHU-MS), Alexandra Maria Favaro. Que parcerias foram apontadas?

A violência de gênero é trabalhada com a transversalidade das politicas. Os direitos humanos, o direito de ir e vir são muito importantes neste contexto. Alexandra Favaro assumiu agora a presidência do CEDHU-MS e veio pedir ajuda no sentido de traçarmos planos de ação em conjunto para que possamos otimizar as ações. Temos que sonhar com objetividade para que as denúncias que chegam até o Conselho sejam apuradas, avaliadas e resolvidas. Há muita discriminação de gênero, étnica e racial em nosso Estado.

Em dezembro a vice-governadora Simone Tebet recebeu a ministra da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres da Presidência da República, Eleonora Menicucci, para a assinatura do termo de adesão ao programa “Mulher: Viver sem Violência”. Entre as ações está a implantação de duas unidades móveis de atendimento à mulher. Quando elas entram em funcionamento?

Recebemos duas unidades móveis que vão levar assistência jurídica, médica, psicológica e social para mulheres de áreas rurais, indígenas e quilombolas. Hoje temos 22 comunidades quilombolas, 78 aldeias indígenas e mais de 204 assentamentos no Estado, fora os acampamentos. Estes são os grandes alvos destas unidades moveis. O cronograma de atividades está sendo elaborado e queremos entrar em ação ainda em fevereiro. Os dois ônibus contam com duas salas de atendimento e levarão uma equipe multidisciplinar com médico, psicólogo, delegado, advogado e defensor público aos municípios, oferecendo todos os serviços relacionados ao enfrentamento da violência contra as mulheres em um mesmo espaço físico.

Outro item do programa é a instalação, em Campo Grande, da Casa da Mulher Brasileira. A ideia é oferecer todos os serviços de atendimento à mulher vítima de violência em um só local?

Sim. Vai contar com uma ampla estrutura para o atendimento às mulheres vítimas de violência. O investimento em Mato Grosso do Sul será de R$ 3,4 milhões e a casa será edificada em um terreno de 12 mil m², em um terreno pertencente à União. O empreendimento será uma referência de segurança e justiça e concentrará serviços como defensoria pública, alojamento temporário para mulheres (para até 3 dias), vara especializada ou juizado especial, ministério público, atendimento psicossocial, acesso ao microcrédito, acesso ao trabalho, acesso à qualificação profissional, central de transporte com veículos que facilitem o deslocamento destas mulheres quando necessário, espaço de convivência e brinquedoteca.

Oportunizar trabalho para estas mulheres é um fator importante para retirá-las de uma situação de dependência?

Sem duvidas. Uma qualificação é vital. A violência é um ciclo. O companheiro agride, ela fica oprimida, aí ele vira um doce de mel, volta a agredir. Ela fica submissa. Ele diz “Você não vai trabalhar, não vai dar conta, não vai largar de mim, eu mato você, mato as crianças”, etc. Esta qualificação profissional, muitas vezes, oportuniza o fortalecimento necessário para que a mulher quebre este ciclo e tome decisões para uma vida de paz e sem violência.

Há uma demanda para um plantão 24 horas no atendimento à mulher vítima de violência em Campo Grande.

Sim. É muito importante. Mas, enquanto não tem a delegacia funcionando 24h, orientamos a sociedade. Qualquer delegacia de plantão em Mato Grosso do Sul está apta para atender estes casos.

Mas estas delegacias estão, de fato, preparadas? Há muitas reclamações. Não há como preparar os policiais para atender este tipo de caso sem expor as vítimas a situações vexatórias?

Capacitação. Temos feito. A Polícia militar preparou um fórum ano passado para tratar deste tema. Capacitar policiais para que eles sejam células de informação para os demais membros da corporação, para mostrar como acolher estas mulheres. Vale lembrar que o Ligue 180 é também um disque denúncia em que a mulher pode denunciar o mau atendimento.

A classe alta tem vergonha. Por isso o número de denúncias de mulheres das classes A e B é muito menor.

Como conscientizar a mulher a denunciar seu agressor?

A classe alta tem vergonha. Por isso o número de denúncias de mulheres das classes A e B é muito menor. As mulheres das classes mais baixas, a partir da informação e de pessoas que já receberam o acolhimento da rede, têm buscado mais a nossa ajuda, ainda que com a alma fragilizada. Elas têm medo de tudo, do dia de amanhã, do companheiro. O ciclo da violência deixa esta mulher muito fragilizada. Por isso, investimos nas palestras e capacitações, para fazê-las refletir e levar ao seu conhecimento que a gente precisa combater este ciclo desde a infância. Mostramos que a mulher não esta só, que o Estado está a seu lado.

Após o atendimento inicial, ou mesmo após os três meses de acolhimento nas Casas Abrigo, que acompanhamento é feito dos casos?

Quando elas saem, nós perguntamos se elas querem este acompanhamento. Muitas não querem. E aí a gente tem que respeitar. Ainda assim fazemos telefonemas. As que querem o acompanhamento são assistidas por meio de reuniões, orientações e dinâmicas de grupo. Algumas, depois de tudo, retornam aos seus companheiros agressores.

Como está o relacionamento entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Campo Grande no que tange às políticas de combate à violência contra a mulher?

Não é das melhores. Campo Grande tinha uma Coordenadoria Municipal de Políticas para as Mulheres, que coordenei. Na atual gestão ela foi para uma salinha na Secretaria de Assistência Social. Estamos encontrando dificuldades para trabalhar em conjunto. Recentemente entregamos um caminhão de equipamentos, entre computadores etc. Não há estrutura física nem para acondicionar este material, que dirá para atender. A Prefeitura de Campo Grande criou em agosto a Secretaria Municipal de Política para as Mulheres. Não saiu do papel. Entendemos que isso é prioridade.


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