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Ano VI - Nº 320

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Aqui há dragões

A longa história de amor entre a humanidade e fake news

Postado em 12 de Setembro de 2018 - Rodrigo Amém

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Quase todo veículo de comunicação dedica parte de seu conteúdo exclusivamente à checagem de fatos. Essas seções têm nomes pitorescos como "É ou não é?" ou "Real ou Fake" e se especializam em conferir a veracidade dos fatos compartilhados nas mídias sociais ou nos discursos de candidatos a cargos públicos. É a imprensa tentando combater as "fake news", um fenômeno que é geralmente associado à internet, hackers russos e trolls. Algo tão contemporâneo e pós-moderno quanto universos cinemáticos e bitcoin, cremos.

Só que essa noção de que fake news é, bem, fake news.

Fake news é mais antigo que a internet, a TV, o rádio, a imprensa, a escrita. Na verdade, não se trata de um "bug" do sistema social. Fake news É o sistema. Tem gente que acredita que o progresso da humanidade é fruto do iluminismo, da razão, do conhecimento científico. É mentira. Quer dizer, as mentiras que contamos são o verdadeiro óleo da engrenagem da história.

Quando um cartógrafo medieval escreva "Hic sunt dracones" (Aqui há dragões) em uma parte do oceano em seu mapa para assustar a "concorrência" é fake news. Quando um governo se estabelece porque deus escolheu uma família para governar, é fake news. Quando os EUA escolhem um banquete para representar a interação de colonizadores com povos indígenas, como do Dia de Ação de Graças, é fake news.

O mundo como conhecemos, as identidades culturais de cada povo, suas religiões. Tudo é fake. Menos a sua, amigo leitor. A sua religião é a verdadeira. Mas, num mundo com milhares (literalmente) de deuses e cultos, você há de convir que 99% disso tudo tem que ser fake news. E que pessoas morrem por causa disso. Mas pergunte a um sacerdote qualquer o que aconteceria se as pessoas abraçassem essa verdade. "Seria o caos, um verdadeiro inferno na terra", diria o clérigo. Mais do que ser seu ganha-pão, ele crê que a mitologia é a única coisa que impede a sociedade de implodir em convulsão social, todo mundo matando e roubando e desejando a mulher do próximo. Ainda bem que a religião dele está aí para prevenir isso tudo.

E isso nos traz ao ponto central: por que acreditamos em mentiras? E por que continuamos acreditando nelas, mesmo depois da editoria do jornalzinho revelar que "é boato"? A resposta é meio óbvia, mas vamos lá.

Acreditamos porque queremos acreditar. Queremos a mentira boa, a que nos conforta, a que garante que nós estamos certos. E também demonstra que há alguém errado do outro lado. Nesse sentido, fake news é o agregado fino que dá liga ao nosso grupo social. É a farinha do nosso pirão de intolerância. Consumir fake news faz a vida mais fácil para quem não gosta de tomar decisões difíceis.

Mas, acima de tudo, acreditamos e compartilhamos fake news porque nossa espécie não tem qualquer interesse na verdade. Essa obsessão pela verdade é o conceito relativamente recente. Para o povo, verdade não põe a mesa e não conforta em noites frias. Verdade é fetiche de filósofo. Nós, meus amigos, queremos controle sobre a sociedade, o governo, as decisões dos outros. E é isso que fake news nos proporciona, no atacado: uma narrativa que justifique nossa sede de poder. A gente mente para fazer valer nossa visão de mundo. Mesmo que ela seja baseada numa mentira confortável que alguém nos contou na infância. Fake news, meu amigo, é o que faz o mundo girar.


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