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Quarta-Feira 19.set.2018

Ano VI - Nº 320

Prefeitura

Coluna Meia Pala Bas

Procura-se Canalha Honesto

Como a identidade está tomando o lugar dos fatos na democracia

Postado em 11 de Maio de 2018 - Rodrigo Amém

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Permita-me contar a história de dois homens. O primeiro se chama Don Blankenship. Até 2010, Don foi presidente de uma das maiores carvoarias dos EUA. Super conservador republicano, ele ficou famoso por desobedecer as regras de segurança impostas pelo governo americano. Até que, alguns meses antes da sua "aposentadoria", uma explosão em uma de suas minas matou 29 trabalhadores no estado de West Virginia. Investigações sobre as causas da tragédia colocaram Blankenship nos bancos dos réus. Ele foi condenado e passou um ano na cadeia. Ganhou liberdade em maio do ano passado. E é aí que a história dele fica interessante.

Saído da cana, Blankenship decidiu se vingar do sistema que o condenou. Como? Se lançou pré-candidato ao senado pelo partido republicano. Sua plataforma era combater os democratas E os republicanos. Ou seja, Don era oposição ao seu próprio partido. Prometeu acabar com a farra de Mitch McConnell, líder republicano no senado, a quem ele chama de "Cocaine Mitch". Imagina isso. Seria como se um candidato ao senado pelo PSDB chamasse o Aécio de... bom, deixa pra lá.

O caso é que Blankenship usou tudo na cartilha de Trump: fez comentários racistas, negou o aquecimento global, disse que foi condenado por um "tribunal do Obama", enfim. Tudo que um extremista de direita tem direito. Don chegou ao extremo de dizer que ele era "Mais Trump que o Trump".

O segundo homem desta história não tem nome. Quer dizer, tem. Mas vamos usar um nome fictício para uma pessoa real. John Smith é carvoeiro, assim como seu pai foi e seu avô também. Todos na sua família são, de alguma forma, parte da indústria do carvão em West Virginia. Todos são afetados quando um empresário ganancioso desrespeita normas de segurança no local de trabalho. Na explosão na mina de Blankenship, Smith perdeu três primos. No dia da votação para as prévias republicanas, ele estava na fila bem cedo. Um repórter de TV perguntou para quem ele daria seu voto. Ele disse: "Três membros da minha família morreram na explosão. Mas eu vou votar no Blankenship. Eu quero um canalha honesto. E esse é Blankenship".

As pesquisas apontaram que Don tinha um certo favoritismo entre os conservadores. Foi preciso Trump, nas vésperas da eleição, pedir encarecidamente aos seus eleitores que não apoiassem Blankenship para que ele não fosse eleito. Mas Don Blankenship deixou até Trump de peruca em pé por seguir à risca os mandamentos da direita atual. Quando confrontado com fatos, ignore os fatos, radicalize posições, jamais reavalie as próprias opiniões.

Esse é o cenário do moribundo diálogo democrático. Não apenas lá na terra do Tio Sam. Num mundo em que os fatos não têm valor, o debate perde o sentido. E aqueles que reclamavam por não serem ouvidos agora falam para si mesmos.  Votamos em alinhamentos ideológicos, em identidades sociais, em sistemas de crenças. Votamos em neuroses. E quando confrontados com a falta de consistência lógica de nossas escolhas, reafirmamos nossos equívocos e jamais pedimos desculpas. Estamos prontos para eleger o próximo "canalha honesto", este alusivo unicórnio burguês.


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Rodrigo Amém

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