Semana On

Segunda-Feira 21.mai.2018

Ano VI - Nº 303

Prefeitura

Coluna Meia Pala Bas

O Carnaval dos outros

A Festa de Momo é útil até para quem a acha inútil

Postado em 09 de Fevereiro de 2018 - Rodrigo Amém

Todo ano esse bloco é infalível. E a cada carnaval, fica maior. Assustadores como os bate-bolas da Baixada Fluminense. Agitados como os pipocas de Salvador. Estridentes como as cuícas da X9.  É o bloco do Que Vergonha, do Deus nos Livre. O bloco dos que condenam a folia, o cordão dos Haters.

Eu pendurei meu saco de confete há alguns anos. Aproveito o feriado estendido para correr atrás das séries, filmes e games que me escaparam durante o ano. Mas a perseguição do cordão dos moralistas é inescapável e os argumentos são tão inovadores quanto as marchinhas do Cordão da Bola Preta.

Começa com o clássico: "É pura baixaria!" depois desanda para "se o Brasil cuidasse da saúde e da educação com o mesmo entusiasmo do Carnaval, isso seria primeiro mundo", "povo preguiçoso", "ninguém gosta de trabalhar nessa terra", etc.

Muita gente não lembra, mas foi justamente num surto anti-momo que Rachel Sheherazade despontou para o sucesso. O que indica duas coisas: 1 - existe um público para esse tipo de mimimi. 2 - Sílvio Santos não pode ver alguém ter faniquito na TV que já contrata.

É claro que o carnaval é um absurdo sem sentido. Claro que é um desperdício de tempo e energia, uma ofensa manipulatória e humilhante a um povo sofrido e explorado. Como toda festa religiosa. E, por tabela, toda religião.

Esse movimento, mais previsível do que alegoria de escola de samba de grupo de acesso, revelou alguns estandartes de ouro da hipocrisia da direita.

É claro que o carnaval é um absurdo sem sentido. Claro que é um desperdício de tempo e energia, uma ofensa manipulatória e humilhante a um povo sofrido e explorado. Como toda festa religiosa. E, por tabela, toda religião. Muito - senão tudo - da experiência humana possui valores subjetivos e é relevante apenas para seus praticantes. O que não é razoável é gastar uma fortuna em decoração natalina e, dois meses depois, criticar quem gasta uma fortuna com abadá. O ridículo é votar no vereador que prometeu um cargo de confiança pro seu filho e proclamar que todo mundo que está no bloquinho é alienado. Chato é dizer que o Brasil não vai pra frente porque tem muito feriado e não perder uma oportunidade de sonegar impostos na firma.

Os haters também se esquecem de um fator fundamental desta festa cristã. O carnaval é a celebração da falência humana, designada pelo próprio Criador, que nos fez imperfeitos. Que plantou a fraqueza de nossas almas diante das tentações da carne. É quando o Brasil reconhece a própria condição de imperfeição como filhos de Deus e como país. Condição que não nos é exclusiva (muito pelo contrário), mas que poucos povos assumem com tanta naturalidade. E esta disponibilidade do carnavalesco em ostentar seus pecados é extremamente útil para o hater, o moralista, o vetusto cidadão de bem.

Sem o folião, para quem o extremista apontará o dedo em reprovação? Para quem a carola olhará com desdém e superioridade? Diante de quem o aposentado da caserna vai bufar com desprezo?

O ódio, assim como o amor, libera endorfina, o hormônio responsável pela sensação de bem-estar. Criticando com raiva o prazer alheio, o conservador se locupleta em sua superioridade e refestela no seu vício (químico!) de intolerância.

O carnaval tem vantagens e benefícios para todo tipo de folião, sejam eles alegres ou rabugentos. Mesmo que seja o carnaval dos outros. Sheherazade que o diga.


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Rodrigo Amém

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