Semana On

Segunda-Feira 20.nov.2017

Ano V - Nº 280

Gov Refis

Coluna Meia Pala Bas

Dois para frente, Quatro para trás

Um experimento social contra a meritocracia

Postado em 20 de Outubro de 2017 - Rodrigo Amém

Tem mais ou menos um ano que o jogo do privilégio bombou nas redes sociais. Talvez você não se lembre. Em todo caso, assista abaixo. É um vídeo sobre uma série de pessoas prestes a participar de uma corrida. Todos lado a lado na linha de partida, e o organizador promete uma nota de cem dólares ao primeiro que cruzar a reta final. Mas, antes da largada, ele avisa que fara uma série de declarações. Aqueles que se identificarem devem dar dois passos à frente:

"Dois passos à frente se seus pais ainda são casados".

"Dois passos à frente se você estudou numa escola particular".

"Dois passos à frente se você nunca teve que ajudar sua família a pagar as contas da casa"

"Dois passos à frente se você nunca se preocupou com a origem da sua próxima refeição."

As perguntas continuam e um padrão começa a emergir entre os competidores. Adivinha qual? Brancos e homens à frente. Latinos e negros para trás.

Ao final de cerca de 10 perguntas, o organizador pede que as pessoas da frente olhem para quem ficou lá atrás. Traduzo livremente, já que o vídeo é em inglês:

"Cada frase que eu disse não tem nada a ver com nada que vocês tenham feito. Não tem relação com as escolhas que vocês fizeram na vida ou as atitudes que tomaram. Todos sabemos que essas pessoas na frente têm mais chance de vencer. Isso significa que quem está atrás não pode correr? Não. Nós seríamos tolos em não reconhecer os que receberam mais oportunidades. Não queremos reconhecer que ganhamos uma vantagem de início. Mas a realidade é que ganhamos. Mas não há desculpa: eles ainda têm que correr. Vocês ainda têm que correr. Acho que seria muito tolo não utilizar essa oportunidade para se preocupar mais com a história das outras pessoas. Porque a realidade é que, se essa fosse uma corrida justa e todos estivessem lado a lado na linha de partida, eu garanto que algumas dessas pessoas iam deixar vocês comendo poeira. E só porque você tem toda essa vantagem é possível vencer essa corrida chamada vida. Essa é a vida, senhoras e senhores: nada que vocês fizeram resultou na vantagem em que vocês estão agora."

Confrontado pelas desigualdades sociais, o povo do meio sente medo e revolta. Revolta porque percebe que não enfrentam uma corrida justa contra os que já saíram na frente. Medo, porque aqueles que vêm de trás parecem estar pisando nos seus calcanhares. Sempre que pressionada, a galera do meio perde o foco e topa soluções extremas.

Existe uma versão brasileira do jogo (assista abaixo) que é feita em menor escala e foca mais no depoimento dos participantes. A versão gringa é mais contundente justamente porque nenhum dos corredores se pronuncia. Apenas suas expressões denunciam o mal estar da situação. Uma lágrima discreta de um rapaz que não deu um passo sequer. A cabeça loira abaixada que se recusa a olhar para tantos que deixou para trás.

O experimento visa justamente posicionar o cidadão no contexto da discriminação social. Mostrar que mesmo quem não discrimina se beneficia do sistema. Ou seja, que ela é um problema que afeta a todos e - portanto - seu combate é responsabilidade de todos.

Mas é muito tentador extrapolar as expressões dos participantes para o âmbito antropológico.

Na linha de frente, há o constrangimento. A percepção do próprio privilégio incomoda, mas não chega a causar remorso. Na linha de trás, um misto de tristeza e catarse. Não é prazeroso ver a própria (má) sorte exposta, mas há o alívio de ter as entranhas do sistema exibidas para que o mundo veja o que finge não saber que existe.

Mas o que mais me chama a atenção não é a reação de quem ficou nas pontas, mas quem está no meio. A expressão da galera do meio é de assustar.

O povo do meio não sente constrangimento ou tristeza. Sente frustração e revolta. E esses são sentimentos perigosos, porque levam à busca por bodes expiatórios. O povo do meio procura responsáveis. Quando os encontram na turma da frente, as oposições chegam ao poder. Quando são convencidos que os culpados estão na linha de partida, é a democracia que vai para a guilhotina.

Assim como quem está na frente, eles não percebem os passos que deram como vantagem, necessariamente. Mas se ressentem daqueles que estão à sua frente. Confrontado as desigualdades sociais, o povo do meio sente medo e revolta. Revolta porque percebe que não enfrentam uma corrida justa contra os que já saíram na frente. Medo, porque aqueles que vêm de trás parecem estar pisando nos seus calcanhares.

Sempre que pressionada, a galera do meio perde o foco e topa soluções extremas. Como a noiva que passa uma semana à base de chá para caber do vestido de casamento e desmaia na cerimônia. "Precisamos fazer alguma coisa", grita o povo do meio. "Qualquer coisa", é o subtexto.

Historicamente, o povo do meio já endossou ideais nefastos em troca de dois passinhos para frente, mesmo correndo o risco de dar quatro passos para trás no futuro. O povo do meio está sempre mais preocupado com o agora.  E tudo leva a crer que estamos prontos para avançar de novo.

Em tempo: Comunico aos amigos leitores que aproveito meus passinhos à frente para tirar merecidas férias. Se tudo correr bem (para todos nós), retorno em duas semanas. Até lá.  


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Colunista

Rodrigo Amém

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