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Domingo 05.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Coluna Meia Pala Bas

Bananinha treteira e os inimigos imaginários

Eduardo tentou defender o pai do único jeito que sabe: tretando

Postado em 20 de Março de 2020 - Rodrigo Amém

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Eduardo Bolsonaro, filho do presidente e herdeiro de curral eleitoral, provocou um incidente diplomático ao responsibilizar o governo chinês pela pandemia de Covid-19. Eduardo tem uma atuação política que oscila entre o nulo e o negativo, mas dessa vez pisou em calos poderosos. Os ruralistas, últimos czares da indústria brasileira, não gostaram nadinha da história. Especialmente porque a embaixada chinesa reclamou duramente, e o Ministro Ernesto Araújo tomou o partido do filho do presidente. Foi preciso o vice Mourão se intrometer e criar o divertido apelido de "Eduardo Bananinha" para colocar o filhote em seu devido lugar: o ridículo. 

Mas o que foi que levou Bananinha a comprar uma briga com o maior parceiro comercial do Brasil no momento em que o país caminha para a uma recessão histórica e o pai calhou de estar no leme desse nosso Titanic? Em uma palavra: instinto.

Não teve plano. Não teve e-mail do Trump dando ordem. Até porque Donald pensa muito menos no Brasil do que os Bolsonaros gostariam. O que aconteceu foi uma reação instintiva, talhada pelo hábito. Ao ver o pai acuado, perdido, perdendo apoio e ouvindo paneladas, Eduardo fez o que foi treinado a fazer durante toda a vida: procurou um inimigo para responsabilizar.

A família Bolsonaro, em específico, e a direita chorume que encabeça, de forma geral, não têm uma tradição de propostas e ideias. Sua ideologia, se é que podemos chamar disso, consiste em denunciar adversários, reais ou imaginários. A Luciana Gimenez não convidava o Jair em seu programa para discutir projetos para educação, saúde e economia. Ele era presença frequente em programas de auditório porque atacar pessoas furiosamente não deixa de ser uma forma de conflito dramatúrgico. É entretenimento. Quem assiste Big Brother sabe que edição "sem treta" não tem graça. A carreira política dos Bolsonaro é "treteira".

O problema é que, quando se é governo, é preciso criar soluções. E isso não é a praia do clã. Pressionados, inventam inimigos. Por um tempo, foi a esquerda, depois o STF, o Congresso, a democracia como um todo. O presidente foi lá esfregar vírus na cara dos apoiadores porque precisava ligitimar novos "inimigos". Mas o Coronavírus não responde a postagens no twitter. Não dá pra "tretar" com o Covid-19. A pandemia não liga pros seus xingamentos. De mãos atadas, Jair se viu rendido. Aí o filhão chamou o foco para si, oferecendo um inimigo novinho em folha: a China. 

Se, por um lado, podemos acusar Eduardo Bolsonaro de muitas coisas, mas não de originalidade. Não inventou a acusação contra a China. Isso, assim como o foco de infestação dentro do governo Bolsonaro, a ideia veio da América do Norte. 

Os think(?) tanks conservadores estão fervilhando em tempos de pandemia. As respostas da direita, até o momento, têm variado entre o egocêntrico e o irresponsável. Muita preocupação com bolsa de valores, PIB e outros indicadores econômicos. Pouca iniciativa de preparação e proteção da saúde pública. "Pode morrer, mas não pode quebrar", parece ser o slogan do partido Republicano. O resultado será trágico, especialmente em governos que tratam bem-estar social como produto, não direito. Não que os teóricos conservadores temam a morte de inocentes. Nunca foi o caso. Mas sim um revés da opinião pública sobre o "capitalismo extremo" que vinha desmantelando redes de assistência social ao redor do mundo com sucesso até a semana passada. 

Aos sobreviventes da pandemia, um sistema público de saúde e a presença regulatória do governo nos mercados podem deixar de ser "coisa de comunista" para se tornarem demandas legítimas. E a galera liberal prefere começar outra guerra fria a abrir mão dessa fatia dos lucros. 

Do lado de cá, as mentes febris (infectadas ou não) do Planalto continuam a procura de novos inimigos. Bananinha pode estar combalido, mas segue pronto para entrar no ringue imaginário, onde a única solução possível é o golpe baixo.


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