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Sábado 04.abr.2020

Ano VIII - Nº 387

Coluna Meia Pala Bas

Os livros proibidos de um país doente

Rondônia queria banir livros, mas em segredo

Postado em 06 de Fevereiro de 2020 - Rodrigo Amém

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Rondônia é um desses estados que o Brasil costuma esquecer. A maior parte dos brasileiros passa a vida sem sequer pensar em Rondônia. Infelizmente, o mesmo pode ser dito do poder público. Na visão dos políticos de Brasília é, na melhor das hipóteses, um confiável curral eleitoral, distante o bastante da mídia e dos grandes centros para sustentar o abandono politicamente produtivo. Um lugar para se trocar voto por asfalto, ponte, dentadura. Guardadas as devidas proporções (e o agronegócio), Rondônia não é muito diferente de Mato Grosso do Sul, aos olhos de Brasília. São regiões do Brasil que ainda praticam o saudoso coronelismo raiz. 

O problema é que o abandono criado pelos políticos que só visitam suas bases de quatro em quatro anos é uma ferida aberta. Em Rondônia, quem botou ovos nessa ferida foi o neopentecostalismo. E a serpente que nasceu foi uma proto-extrema direita que governa a região como um futuro distópico, longe dos olhos e do interesse do resto do país. Isso, pelo menos, até a semana passada.

Acontece que a Secretaria de Educação do estado foi pega de calças na mão. Alguém vasou um documento contendo uma lista de 43 livros clássicos de autores brasileiros e internacionais que deveriam ser imediatamente recolhidos por apresentar "conteúdos inadequados às crianças e adolescentes". Entre os escritores "subversivos", temos Machado de Assis e Edgard Alan Poe.

Uma lista de livros censurados pelo governo, seja qual forem os títulos, já é escândalo suficiente. Mas a resposta da Secretaria de Educação foi assombrosa. 

Ao portal de notícias G1, o secretário Suamy Vivecananda Lacerda de Abreu confirmou a existência do documento. "[O departamento técnico] Fez uma checagem que não é conclusiva, porque a conclusão vai encerrar quando eles [técnicos] me apresentarem alguma coisa, e, pelo que eu estou vendo, já não querem mais apresentar. Mas, assim, são clássicos da literatura. 'Macunaíma' é filme e o escambau, entendeu? Não seria a Seduc de Rondônia que iria se invocar com um livro desse".

Em uma nota à imprensa, a secretaria afirmou ainda que "serão tomadas todas as medidas necessárias para investigar o vazamento das informações internas equivocadamente documentadas. 

Existe um subtexto nessas duas respostas que precisam ser observadas com mais atenção. 

Na fala do senhor Suamy, a lista "não é conclusiva". Foi só uma "checagem". E Macunaíma, que virou "filme e o escambau", não deveria provocar "invocações" na Seduc de Rondônia. O que os panos quentes do secretário não esclarecem é: por que existe uma "checagem" de livros? Não fossem os livros citados clássicos da literatura, que destino teriam? Não tivesse sido adaptado ao "escambau", Macunaíma seria retirado das escolas?

O secretário apresenta o inacreditável argumento de defesa de que a lista era um "esboço". Que o problema era não estar finalizada, e não sua existência. Que pegamos a obra em formação e não concluída, como um rascunho de um quadro ou um primeiro tratamento de um roteiro cinematográfico. O problema foi que não tivemos a serenidade de esperar a obra concluída.

O segundo ponto de defesa apresentado na nota oficial mostra a outra face assustadora do embróglio. A Seduc promete que serão tomadas "todas as medidas necessárias para investigar o vazamento de informações internas". Está claro aqui que, para o governo de Rondônia, o problema não é a confecção de uma lista de livros proibidos, mas o fato de que a mesma se tornou pública. O problema está na exposição da censura, não na própria. A nota deixa subentendido que, da próxima vez, tomarão mais cuidado com a lista que, inclusive, foi posta em sigilo após a divulgação. 

A justificativa geral para a censura é a de sempre: denúncias "anônimas" de que os livros conteriam palavrões. Logo, seriam "impróprios para crianças e adolescentes". Porque, numa lista de coisas nocivas às crianças de Rondônia, palavrão deve ser o maior problema, claro. Mas não cabe aqui discutir um argumento pró-forma. Cabe, sim, chamar a atenção para um governo constrangido pelas próprias práticas antidemocráticas, mas não o suficiente para abdicar delas. E, sobretudo, cabe discutir o abandono governamental que infectou uma parcela do país que o próprio Brasil achava insignificante, até encontrar sua democracia como um todo em avançado estágio de septicemia.


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Rodrigo Amém

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