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Terça-Feira 21.jan.2020

Ano VIII - Nº 376

Coluna Meia Pala Bas

5 motivos para invadirmos a Argentina

Ou: "finalmente, um plano econômico para alavancar o Brasil"

Postado em 11 de Dezembro de 2019 - Rodrigo Amém

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Os cidadãos de bem comemoram o PIBínimo do governo Bolsonaro como se nem se lembrassem do número três vezes maior durante o governo da Dilma. Há razões para isso, e quase todas tem a ver com o desejo de... digamos... "alternância de poder". Tanto queriam a tal alternância que levaram pro tapetão e elegeram um meme à presidência. O problema é que, uma vez no governo, tem que governar. Bolsonaro nunca governou coisa nenhuma. Ironia máxima do destino, ele que se diz inimigo aguerrido da esquerda, das ideologias de gênero e identidade e do politicamente correto, tem como única experiência política o exercício da lacração. Bolsonaro foi eleito por "mandar a real" dos reacionários. 

Não se votou num projeto de governo, até porque ele não existia, na prática. Ninguém estava preocupado com isso. Nem o Bolsonaro, nem o seu eleitor, nem os homens de bem que arquitetaram sua candidatura. 

O reacionarismo lacrador que foi comprado no Brasil pelos bolsonaristas, nos EUA pelos trumpistas e no Reino Unido pelos brexistas vem com um defeito de fábrica: funciona à base de medo. Sem o medo do invasor, do degenerado, do bandido, do adversário, não se consolida como ideologia. 

Bolsonaro precisa de um inimigo, de preferência externo. E ele meio que sabe disso. "Sabe" instintivamente, quero dizer. Não ousaria insinuar que Jair tenha qualquer tipo de visão estratégica a médio e longo prazos. Não há evidências que suportem essa hipótese.

Em alguns meses, a ausência de resultados das políticas neoliberais vintage do Guedes vai começar a pesar sobre a presidência, sem que se possa fazer nada a respeito. O neoliberalismo está prestes a cair na próxima crise mundial e vai puxar o Brasil pro fundo com força. Bolsonaro precisa de um bode expiatório. Ele precisa de uma guerra.

É, para variar, mais um modelo caduco importado dos republicanos americanos. Toda vez que um conservador gringo se vê em maus lençóis, invade um país e atiça o ufanismo local. Nosso Jair sonha com o posto de general supremo num conflito armamentista. Sonha com um terno cheio de penduricalhos brilhantes, como os que usou para uma audiência de 15 minutos no Japão. Juntando a fome com a vontade de comer, um conflito armado pode mudar o foco da opinião pública e trazer outros benefícios.

A escolha do adversário é importante. Como a primeira opção do presidente, a Venezuela, fracassou quando Tio Putin avisou que Bolsonaro não se fizesse de besta e nosso presidente, com a covardia que lhe é costumeira, desconversou, precisamos de um novo alvo. Eu sugiro que ataquemos à Argentina:

1 - Invadir a Argentina já traz uma vantagem cultural. Brasileiro já não gosta de argentino por esporte, literalmente. Tem a animosidade futebolística, tem um complexo de inferioridade fruto da postura "européia" dos hermanos. O fato é que não precisamos de desculpa para esbofetear argentinos, a começar pelo Maradona. 

2 - A Argentina está quebrada: vitimada pelas reformas guedianas do Macri, a situação econômica do vizinho está tão grave que trouxe a Cristina Kirchner de volta ao poder. A verdade é que as forças armadas deles são hoje uma sombra esquálida daquela que enfrentou a Inglaterra nas Malvinas. E perderam. E, convenhamos, agredir alguém menor e mais fraco é a cara do Bolsonaro. Taí a Greta que não me deixa mentir.

3 - A própria Cristina Kirchner é um outro bom motivo, já que posiciona o maior comprador de produtos brasileiros na America do Sul nas mãos de terríveis comunistas. Fica mais fácil criar a narrativa fake news de libertação dos hermanos oprimidos e de proteção da fronteira do Rio Grande do Sul. 

4 - Guerra é um excelente plano econômico, se você é um psicopata. Não dá pra falar em economia norte-americana sem mencionar a venda de armamento e a reconstrução da Europa devastada pela própria guerra. Sobre as poças de sangue de gente inocente, gente deplorável encontra várias oportunidades de lucro. Seja na venda de insumos de homicídio em larga escala, seja em acordos de reconstrução dos territórios arrasados. A PIB brasileiro pode crescer em níveis de governo Lula se o Bolsonaro topar bombardear os portenhos esquerdistas. 

5 - A guerra é a derradeira solução para a desigualdade social, desde que a Igreja Católica mandava miseráveis e crianças lutar nas Cruzadas. Lá no Tio Sam, muito miserável encontra no exército uma rota de fuga da miséria. O exército dos EUA promete custear os estudos universitários dos voluntários nos conflitos no Oriente Médio. Os poucos que retornam sem cicatrizes físicas e psicológicas conseguem estudar. Já os aleijados, traumatizados e mortos... bem, a vida é um grande cassino, não é?

Dizem que a ironia é muito onerosa ao cérebro mediano. Logo, sinto-me obrigado a declarar explicitamente que estou sendo irônico na recomendação. Mas franco no diagnóstico e pessimista sobre o futuro. Confesso também que, neste cenário hipotético, não seria a primeira vez em que eu torceria pela Argentina.


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Rodrigo Amém

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