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Terça-Feira 10.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Coluna Meia Pala Bas

A bombinha dos descarados

O projeto de governo existe, sim. E vai de vento em popa.

Postado em 27 de Novembro de 2019 - Rodrigo Amém

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Bobagem dizer que não existe um projeto para o país neste governo. Besteira isso de "anti-governo". Ah, temos um plano, sim. Muito consistente, pelo sinal. E, como todos os projetos bem pensados, pode ser reduzido em uma frase: tornar o Brasil mais rentável. Patrocinados por empresários brazucas e gringos, nossa direita pistoleira encampou um projeto de poder visando aumentar margens de lucro. 

E existem, basicamete, duas maneiras de fomentar o lucro: aumentar o faturamento e diminuir os custos. Para aumentar o faturamento, é preciso que o preço seja competitivo. Toda vez que o real se desvaloriza, ficamos mais atrativos no cenário mundial com nossas commodities primárias. A carne brasileira vende bem no mercado chinês quando o dólar beira os cinco reais. Aí, nossa produção vira, necessariamente, exportação. E o preço interno sobe por uma questão de demanda. 

Diminuir custos é um pouco mais complicado.  O Brasil é uma fazendinha de insumos primários. Vendemos sementes, carne, minério. O resto é comércio e serviço. Adivinha onde é que reside o grande custo dessas atividades? Mão de obra: parabéns! Aí, acabar com direitos trabalhistas e precarizar relações de trabalho é interessante. Se for fácil e barato contratar e demitir, o empresário pode gradativamente reduzir salários e enxugar a folha pagando menos para mais gente. Com mais mão de obra barata, produz-se mais, com o dólar barato, exporta-se mais. Lucro, gente. 

E vamos estabelecer uma importante distinção: quando falamos em aumento de lucro, estamos falando de empreiteiras, não de confeiteiras. De banqueiros, não de bancários. O lucro que é objetivo primordial desse governo não passa nem perto da classe média que se ilude empreendedora. 

Essa ilusão tem um nome: trickle down economics. Não é nova (aliás, a última novidade adotada por Paulo Guedes foi a calculadora digital). Reagan foi um grande defensor dessa teoria nos EUA, Delfin Neto, uma espécie de Guedes 1.0 da ditadura, falava em "crescer o bolo antes de dividí-lo". Assim, aumenta a quantidade de dinheiro no mercado e, como consequência, todos os problemas da sociedade desaparecem: quem é trabalhador vai ter emprego. Quem é doente vai ter dinheiro para comprar seu próprio remédio, já que é trabalhador. Se não for trabalhador, é por opção própria. Aí, pau nele. Quem mandou não trabalhar? Não existem políticas para acabar com desigualdade social porque desigualdade social não é um problema. Na pior das hipóteses, é uma questão de responsabilidade individual. Na melhor, é parte da solução, já que miséria produz trabalhadores mais baratos e acessíveis. 

O papel designado para a classe média neste projeto, tão fundamental para a eleição deste governo, é o mesmo reservado para as demais classes da base da pirâmide: mão de obra. Mais especializada, mas mão de obra, ainda assim. Dono da vendinha da esquinha, iludido com o próprio protagonismo econômico, mas mão de obra precarizada pelas grandes empresas do ramo de alimentos e bebidas. Permanece apenas a ilusão de ser dono do próprio negócio. Pergunte ao dono do açougue do seu bairro. Mas corra, antes que ele feche as portas de vez e vire entregador de iFood com bicicleta do Itaú, esse guerreiro.

Para o brasileiro, o poder de compra no carnê, por exemplo, dá uma falsa sensação de ascenção social. Se dá pra ostentar um iPhone novo na balada, que importa se será pago em 24 vezes? É assim que nos confundimos sobre nossa posição na pirâmide social brasileira. Alguém já disse que a inclusão social petista foi no consumo, não na cidadania. De fato.

Em todos os lugares onde estas estratégias foram empregadas, seguiu-se um período de protestos motivados pela ebolição social. Foi assim no Chile, na Argentina e até mesmo em partes dos EUA, ainda que a realidade da terra do Tio Sam seja distorcida o bastante para evitar comparações com nossa realidade tropicana. 

O fato é: não vai demorar até os "sócios" do patronato descobrirem que ficaram do lado de fora da festa. Que vão continuar dirigindo o Uber e que os passeios em Miami são agora uma lembrança distante. Não vai demorar até os liberais da classe média descobrirem a distância que se abriu entre eles e seus "sócios". Que já não podem mais adquirir produtos Apple e que carne, combustíveis e impostos vão ter um peso inédito no orçamento subitamete arrochado. Aí os paneleiros que se orgulham de terem "tirado o PT" vão voltar às ruas. 

Por isso há um terceiro fator importante no projeto do governo, vamos chamá-lo de "políticas de contenção social". E é por isso que Bolsonaro tem sido tão insistente na aprovação dos excludentes de ilicitude para as forças de "contenção social", dando carta branca para que PMs e outros fardados matem quando julgarem conveniente. E é por isso que o Delfim 2.0 fica cogitando a volta do AI5 junto com o Primeiro Chapeiro. 

O terceiro pé do programa de aumento de lucros corporativos do Governo Federal consiste na repressão armada da oposição. Bolsonaro sonha em repetir na Candelária e na Sé as cenas do Eldorado dos Carajás em 96. 

Se perguntadas, claro, nossas autoridades negam o plano vil, covardemente. "Protestos são parte da democracia. Não pode é ter baderna", dizem, os descadaros. Como se não soubessem que a diferença entre protesto e baderna é uma bombinha de festa junina sorrateiramente detonada no lado certo da multidão.


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Rodrigo Amém

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