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Domingo 20.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Coluna Meia Pala Bas

O Muro dos Desesperados

Uma estrela de TV foi presa por fraude. E o Brasil com isso?

Postado em 11 de Setembro de 2019 - Rodrigo Amém

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Lembra da Felicity Huffman? Ela era uma das "Desperate Housewives", um seriado que fez tanto sucesso que até a Rede TV! tentou uma versão brasileira. No seriado, Huffman interpretava uma dona de casa que vivia "altas aventuras" na constante busca de reafirmação de seu status na alta roda suburbana do seu bairro de mansões. 

Pois é. Felicity foi condenada pela justiça e vai amargar um tempinho na cadeia. O crime? Ela subornou um funcionário de uma universidade chique para facilitar o ingresso da filhinha. 

Por que uma celebridade, cheia da grana, faria uma coisa dessas? A certeza de impunidade é um dos fatores, claro. Mas a motivação social é o ponto que eu quero levantar hoje. 

Para entender como é que uma estrela de TV foi parar na cadeia, precisamos falar de um mito: o ensino superior norte-americano. 

Lá não tem vestibular. Pelo menos não da forma que os brasileiros estão acostumados. Tem o SATs, que lembra vagamente o Enem. É mais um exame de raciocínio lógico, interpretação de texto e matemática. O aluno recebe uma pontuação que indica qual faculdade vai poder cursar. Isto é, se a família puder pagar, claro. 

Seja a universidade pública ou privada, tem que pagar. Quanto melhor a instituição, maior é a conta. O curioso é o parâmetro utilizado para determinar que escola é boa ou não.

Em 1983, a publicação "US news and World Report" começou a divulgar a lista de melhores universidades. Mais ou menos como um guia Michelin, mas para ensino superior. Os critérios? Reconhecimento do nome, tradição em qualidade, prestígio e riqueza. Juro.

Reconhecimento de nome: diz respeito à qualidade dos alunos, o que levou à distribuicão de bolsas aos jovens mais promissores (não necessariamente na área acadêmica. Foi assim que o esporte universitário virou big business).

Tradição em qualidade: apesar do termo, refere-se mais à notoriedade dos professores do que à qualidade das aulas ministradas, necessariamente. Por isso, instituições passaram a contratar os professores mais famosos, não necessariamente os melhores. (Oi, Jean Wyllys! Abraço pra você!) 

Prestígio: Através do sistema de fraternidade universitária, muitas instituições criaram um vínculo com as famílias mais ricas e influentes do país. Fazer parte destas fraternidades passou a significar acesso precoce ao poder. 

Riqueza: Quantas piscinas tem no campus? Os alojamentos parecem hotéis cinco estrelas? E a qualidade do wifi? Em pouco tempo, as universidades passaram a ser avaliadas pelos mesmos critérios do ClubMed. 

Tudo isso custa dinheiro, meus amigos. Quem paga muito dinheiro, mas muito mesmo, coloca seu filhinho em qualquer universidade. Para os nem tão ricos e pais de filhos nem tão inteligentes, é preciso burlar o sistema. Foi o caso de Felicity. 

Agora, quem fez faculdade sabe que entrar é a parte fácil. Difícil é concluir. Seria um péssimo investimento comprar uma vaga no ITA, por exemplo, para um aluno sem capacidade para conquistar o diploma. 

Nos EUA, terminar o curso é mais fácil do que ingressar em uma faculdade de grife. O que importa é o acesso a uma elite que alavanque a carreira. Na terra do Tio Sam, universidade não é instrumento de mobilidade social. É o muro que divide a classe média alta dos verdadeiros donos do país. 

Esse modelo explica o fascínio das nossas elites com o modelo universitário americano. Explica o desmonte de políticas de subvenção ao ensino superior e à pesquisa científica. O "contingenciamento". A proposta de cobrança de mensalidades em universidades públicas. Querem transformar o ensino superior em represa, como é lá nos States.

Quem pode pagar, estuda onde quiser. Quem não pode, vai ter que pular o muro, como uma dona de casa desesperada. 


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Rodrigo Amém

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