Semana On

Terça-Feira 18.jun.2019

Ano VII - Nº 355

Coluna Meia Pala Bas

Ratinho para Presidente

Qual é o perfil do nosso candidato ideal?

Postado em 15 de Abril de 2019 - Rodrigo Amém

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Um dos mais de 20 democratas na corrida pela eleição presidencial americana é Pete Buttigieg. No show de horrores que é a nossa - e a deles também - política, falar do Prefeito Pete, como é chamado (já que ninguém consegue pronunciar seu sobrenome), é uma lufada de ar fresco num frigorífico sem refrigeração e lotado de carne podre.

Pete é prefeito da cidade de South Bend, no Estado da Indiana. É também um premiado acadêmico, formado na Universidade de Oxford. E em Harvard, onde foi presidente do Instituto de Políticas. Pete é poliglota, fluente em Árabe e mais uma meia dúzia idiomas. Certa vez, interessou-se por um livro que ainda não havia sido traduzido para o inglês. Aprendeu, então, norueguês para fazer sua leitura.

É também um veterano da guerra do Afeganistão, servindo por quase dois anos no conflito.

Eleito duas vezes consecutivas prefeito de South Bend (74% e 78% dos votos, respectivamente), foi escolhido como "Prefeito do Ano" pelo site FreshGov.com e classificado pelo jornal Washington Post "o prefeito mais interessante que você já ouviu falar". Entre as iniciativas de Pete, ele instaurou um bem-sucedido programa de inteligência policial para combater a violência de gangues e investiu mais de 50 milhões de dólares na revitalização do centro da cidade e criou o sistema de "ruas inteligentes" para promover o melhor fluxo de automóveis e pessoas.

Devoto seguidor da Igreja Episcopal, Pete é bastante versado nas escrituras e debate teologia e fé com a tranquilidade de quem domina (e acredita no) tema. Um dos seus discursos de campanha fala justamente sobre como os conservadores americanos sequestraram a religiosidade que, na teoria, deveria resultar em um rebanho "mais tolerante, mais compreensivo, mais consciente e mais decente".

Mencionei que o Prefeito Pete tem 37 anos? Pois é. Se eleito presidente, ele será o mais jovem ocupante da Casa Branca da História. Ele é a personificação de tudo que os americanos acham admirável em um candidato democrata. Ou seja, ele é qualificado, patriota, cristão. Tudo que Trump não é.

Mas tem um detalhe: O Prefeito Pete é gay e casado. Não que isso seja um problema para ele ou para seus eleitores em South Bend. Mas ninguém sabe ao certo como o resto da América reagirá a isso. No momento, na parte urbana do eleitorado, Pete está crescendo e aparecendo. Nos grandes centros, o fato de ele ser um homem branco parece ser mais problemático do que sua homossexualidade. Mas, da América profunda, não se deve esperar tal receptividade.

Seria histórico e surpreendente se os EUA elegessem o primeiro presidente assumidamente gay. É mais fácil que elejam um estelionatário. De novo.

Mas imagina aqui. Imagina que tivéssemos alguém com o perfil do Pete. Com experiência administrativa, currículo invejável, verdadeira experiência militar (não clube de bocha), culto, preparado.

Acha que o Brasil elegeria o Presidente Pete? Eu acho que não.

Acho que o machismo frágil brasileiro votaria no Bin Laden antes de votar no Pete. Acho que votaríamos no Kleber Bambam antes de votar no Pete. Porque é essa a escolha que fazemos todas as vezes. Sempre que escolhemos o cara que fala grosso, no lugar do ponderado. O brucutu, no lugar do estudado. O Brasil tem aversão ao intelectual, à sofisticação, à diplomacia. O sonho do brasileiro é um bronco de bom coração, generoso. Pra ajudar o pessoal, sabe? Mesmo que seja tudo pose. Mesmo que seja puro estelionato eleitoral. Mesmo conscientes de que estamos votando num engodo. Gostamos da ilusão do voto no "homem forte", que vai resolver tudo "no tapa".

O sonho do Brasil não é o Presidente Pete. É o Presidente Ratinho.


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Rodrigo Amém

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