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Segunda-Feira 17.jun.2019

Ano VII - Nº 355

Coluna Meia Pala Bas

Brasil, o país que fugiu do futuro

A igualdade social é inevitável: para o bem e para o mal

Postado em 19 de Dezembro de 2018 - Rodrigo Amém

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A corrida eleitoral presidencial para 2020 já começou nos Estados Unidos. O primeiro candidato oficialmente declarado é um cidadão chamado Andrew Yang. Ele não vai vencer. Principalmente porque tem muito pré-candidato democrata e ele é um ilustre jovem desconhecido. Mas Andrew sabe disso. Sua candidatura é uma plataforma para discutir um assunto central para o futuro da economia americana: renda mínima universal.

Renda mínima universal é um programa que garante um salário mensal a todo cidadão entre 18 e 65 anos, independente da sua situação empregatícia. Sim, senhor. É como o bolsa-família, mas individual e universal, para trabalhadores ou desempregados. No projeto de Yang, cada americano adulto ganhará mil dólares por mês para usar como quiser.

"Estamos à beira de uma enorme transição tecnológica e econômica e precisamos acelerar nossa sociedade e governo para lidar com os desafios de 2020. Milhares de empregos fabris já foram automatizados e estamos prestes a fazer o mesmo com trabalhadores do comércio, motoristas de caminhão, call centers, restaurantes fast food", afirma o candidato.  As empresas de tecnologia afirmam que estão "98% prontas para transporte de carga em veículos autônomos". Uma grande parte da população americana já enfrenta o fantasma de ser "inimpregável". Garantir renda a essas pessoas não é assistencialismo populista, não é esmola. É um novo paradigma social e econômico.

De acordo com um estudo do Roosevelt Institute, a renda mínima universal proposta por Yang levaria a um crescimento econômico na ordem de 2,5 trilhões de dólares anuais e criaria 4,5 milhões de novos postos de trabalho. Além disso, 12 mil dólares anuais são suficientes para levar um americano acima da linha da pobreza, o que significa tirar milhões de pessoas de programas assistenciais caros, ineficientes e proporcionar a estas pessoas a chance de participar ativamente da economia. Eu sei o que você está pensando, amigo "liberal". Da onde o governo vai tirar dinheiro para "sustentar tanto vagabundo"? Basicamente, uma mistura de imposto sobre automação de grandes empresas e a economia resultante da extinção de outros programas assistenciais menos eficientes, como os famosos "food stamps".

Nas palavras de Yang, "a renda mínima será o maior catalizador de empreendedorismo e criatividade que já tivemos, porque quando as pessoas deixam de se preocupar com sobrevivência, elas começam a pensar no futuro que querem viver, nos empreendimentos que querem começar e a mudança que querem ver no mundo."

O objetivo de Yange não é a Casa Branca, mas o debate sobre a questão da renda mínima, uma questão também defendida por outros democratas como Bernie Sanders e, acredite, até entre alguns republicados. É um debate sobre o futuro. É óbvio que existem aqueles que se opõem à ideia. Mas pelo menos estão dispostos a debatê-la. Estão pensando proativamente sobre o que acontecerá com essas pessoas e como será o jeitão dessa nova economia baseada em consumo e não em trabalho.

O Brasil escolheu, em novembro, a rota oposta. Se refugiar no passado ao invés de lidar com os desafios do futuro. Escolhemos um presidente conservador com um plano de governo que se resume a desestruturação estatal, disposto a jogar o bebê fora junto com a água da bacia.  Não há novas iniciativas, não há inovação. Há o desmanche, apenas.

Mas não fomos enganados. Escolhemos esse candidato porque ele "não ficava falando de pobres, minorias, coitadismo". A partir de janeiro teremos um Brasil que é, essencialmente a resposta do ressentimento de uma classe média que não se percebe beneficiada por uma sociedade menos desigual. Um Brasil como o de antigamente, onde pobre não viajava de avião e não tinha assistência do governo. Tinha esmola na igreja.

A sina do conservador é que o futuro chega, quer ele queira ou não. E os robôs e carros autônomos vão aprender a falar português e a desviar dos buracos das nossas rodovias. Farão isso porque são mais seguros, eficientes e baratos que o mais mal-pago dos trabalhadores brasileiros. Farão isso porque a mão invisível do mercado assim deseja. Primeiro nos call centers, depois nas lojas, nas estradas, nas escolas, nas empresas.

Por bem ou por mal, a igualdade econômica e social acontecerá: vai chegar o dia em que o profissional da classe média se verá ininpregável, assim como os "vagabundos que não querem trabalhar" que ele tanto criticava. Aí não vai ter general, capitão ou fanfarrão que dê jeito.

Em tempo: Vou me refugiar do verão em uma caverna escura de algum mundo de fantasia. Nos vemos em fevereiro. Boas festas e feliz ano velho.


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Rodrigo Amém

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