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Quarta-Feira 24.out.2018

Ano VII - Nº 325

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Coluna True Colors

Uma vida que reflete a história do HIV, da bissexualidade e da identidade queer

Nova biografia do líder do Queen entremeia a trajetória de Freddie Mercury com a evolução da epidemia do HIV

Postado em 08 de Fevereiro de 2018 - Marcio Caparica - Traduzido do artigo de Diane Anderson-Minshall para a revista HIV Plus

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Deitado naquele que se tornaria seu leito de morte, o cantor recebia medicamentos que eram injetados em seu sistema circulatório por meio de um cateter Hickman implantado em seu pescoço. As drogas e um auxiliar dedicado esforçavam-se para conter suas dores e sua náusea, para que ele pudesse usufruir de seus elaborados jardins japoneses e de sua casa em Londres que havia montado com tanto apreço. Ele havia decidido parar de tomar AZT, e uma horda de paparazzi e vigias de celebridades faziam plantão do lado de fora de sua casa, todos tentando conseguir um relance do desvanecimento desse homem tão amado. Parecia que, mesmo na hora de sua morte, todos queriam um pedaço de Freddie Mercury.

Em Somebody to Love: The Life, Death, and Legacy of Freddie Mercury (“Alguém para amar: vida, morte e legado de Freddie Mercury”), os autores Matt Richards e Mark Langthorne oferecem a primeira biografia do célebre cantor e líder da banda Queen justaposta à história antropológica do HIV. Não é a história que a maioria das pessoas conhece, aquela que parte da teoria do chamado “Paciente Zero” em que um comissário de bordo sexualmente insaciável espalhou a doença para seus inúmeros amantes homens ao redor do globo. Até porque essa teoria já foi refutada nos últimos anos. Os autores de Somebody to Love preferem retornar ao ano 1908, o ano em que o vírus que se tornaria o HIV realizou o salto dos chimpanzés para seus caçadores humanos. Coincidentemente, esse foi o ano em que nasceu o pai de Freddie Mercury, um persa que imigrou do Irã para a Índia tentando escapar da perseguição realizada pelos muçulmanos.

“Freddie Mercury foi um dos primeiros astros do alto escalão a morrer por causa dessa doença, e sua história e a história da Aids estão, de certa forma, inextricavelmente ligadas”, afirma Langhorne. “Para nós era importante utilizar o formato da biografia para contar a história da doença, e quem seria melhor para um projeto como esse que Freddie Mercury?” Essa biografia é como nenhuma outra: paralela à história de como Mercury cresceu em um colégio interno na Índia, uma criança pársi insegura por ser dentuça e apaixonada pela música, correm as informações que a pesquisa científica contemporânea têm sobre a história do HIV.

O volume surpreenderá os leitores que esperam uma simples biografia de celebridade, repleta de fotos e escrita para fãs. Era exatamente essa a intenção, aponta Langthorne: “seus fãs dificilmente comprariam um livro sobre HIV e Aids, então resolvemos entremear as duas histórias, e assim construímos uma oportnidade de informar as pessoas que normalmente não se interessariam por essa doença terrível e a luta que as pessoas tiveram que enfrentar.”

Mercury teria hoje 70 anos, não tivesse morrido de pneumonia em decorrência da Aids em 1991. Mesmo 25 anos depois de sua morte, a biografia de Freddie Mercury continua relevante devido a sua obsessão com temas como orientação sexual e identidade pública, saúde e resiliência, estigma e força.

Mercury era um homem curioso, uma personalidade exuberante muito antes de tornar-se consciente de sua atração pelo mesmo sexo. Durante sua juventude o artista teve um relacionamento com uma mulher, Mary Austin, considerada por ele o amor de sua vida (mesmo durante um relacionamento duradouro com outro homem) e para quem ele deixou quase todo seu patrimônio e suas cinzas, para que fossem distribuídas em sigilo. Enquanto esteve junto de Austin, Mercury começou relacionar-se sexualmente com outros homens. Consta que quando Mercury contou para Austin que era bissexual, ela respondeu “Não, Freddie, você é gay”.

Os autores de Somebody to Love fazem o possível para descobrir por que Mercury amava outros homens, mas colocava Austin num patamar acima de todos os outros. A causa talvez fosse vergonha: a homofobia internalizada de Mercury refletia a crença geral da sociedade de que os relacionamentos gay não eram relacionamentos “de verdade”. Ao ler-se o livro, no entanto, é inevitável considerar se ele realmente não era bissexual, num mundo que até flerta com essa noção mas não compreendia – e ainda não comprende – a identidade bissexual, especialmente em homens. Num universo em que qualquer homem que faz sexo com homens automaticamente é rotulado como gay, não importa o quanto ele afirme seu amor por mulheres, será que Mercury realmente não sentia-se dividido entre esses dois lados de seu ser?

É uma questão que até os autores deixam em aberto: qual seria a identidade sexual de Mercury, estivesse ele vivo hoje?

“Gosto de pensar que hoje Freddie teria saído do armário”, pondera Langthorne. “O mundo mudou tanto. Ele era um astro das décadas de 1970 e 1980, duas décadas em que o nível de homofobia era tão grande que as pessoas nascidas depois de 1980 mal conseguem compreender. O Reino Unido e os Estados Unidos eram lugares especialmente assustadores para os gays, e o surgimento da Aids deu munição para os inquisidores religiosos e os moralistas de direita.”

A esperança de Langthorne é que o livro “esclareça os tempos tenebrosos que muitos tiveram que atravessar e durante os quais muitos morreram.”

Lanthorne é um fã do Queen de longa data, em parte porque uma das primeiras composições da banda (que na época chamava-se Smile) gravou uma de suas primeiras demos no banheiro do cinema de seu pai, o Regal, em Wadebridge, Inglaterra. Havia também a lenda de que a banda havia feito um show na prefeitura da cidadezinha onde Langthorne nasceu, algo que foi confirmado durante as pesquisas para o livro. O autor conta que viu o Queen tocar ao vivo no Wembley Stadium em 1996 durante a Magic Tour, a última com todos os membros originais, um espetáculo que para sempre permanece em sua memória.

Richards afirma que ele e Langthorne consideraram que o 25o. aniversário da morte de Mercury era o momento certo para se reavaliar a vida do músico. Somebody to Love é uma leitura comovente, cheia de informações novas desconhecidas até pelos fãs mais ardorosos. É o primeiro livro que observa de perto a luta de Mercury contra o HIV: sua luta para manter a doença em segredo (ele anunciou que tinha Aids apenas um dia antes de morrer), o despertar de sua sexualidade, seus relacionamentos, e a homofobia que seguiu-se a sua morte. O livro detalha a homofobia cultural e a maneira como ela afetou as decisões que Mercury tomou com relação a seu tratamento e sua figura pública, influenciando até sua decisão de não mais aparecer em público. Em sua última aparição ele encontrava-se emaciado, sem bigode, e vestindo um terno grande demais; sua única palavra foi “obrigado”. O livro chega a calcular qual teria sido o período em que Mercury viveu com HIV:

Foi durante a passagem de sua turnê pelos EUA que Freddie explorou seu desejo por sexo gay em Nova York, e em 25 de setembro, durante uma participação no programa Saturday Night Live, ele já exibia alguns sintomas associados com alguém que acabou de se infectar com HIV. Secretamente ele já havia se consultado com um médico naquela cidade algumas semanas antes por estar acometido de uma lesão branca em sua língua (provavelmente leucoplasia pilosa, um dos primeiros sintomas da infecção pelo HIV) e isso aponta que Freddie teria contraído o HIV entre 26 de julho e 13 de agosto de 1982, durante uma pausa da turnê em Nova York.

O texto às vezes é um tanto pobre e antiquado (alguns leitores vão fazer cara feia ao ler alguns termos), mas também é algumas análises interessantes capazes de entreter os estudantes da teoria queer por vários dias. É o caso da canção “Bohemian Rhapsody”, considerada por muitos a obra em que Mercury tenta sair do armário.

Langthorne e Richards não conseguiram fazer com que os outros membros do Queen comentassem mais uma vez sobre essa canção. “Freddie nunca confirmou que ‘Bohemian Rhapsody’ fosse sobre sua orientação sexual”, admite Langthorne. “E os outros membros do Queen que já falaram sobre esse assunto recusam-se a retomar essa discussão.”

No entanto várias análises da canção, afirma, “apontam para o caráter confessional e para o retrato de suas conjunturas emocionais durante aquele período. Na época de sua composição, Mercury já estava envolvido com David Minns, apesar de morar com Mary Austin.” Esse foi o primeiro relacionamento que Mercury teve com um homem; na época, ele e Austin já viviam juntos há sete anos. A musicista Sheila Whiteley (autora de Queering the Popular Pitch, “Deixando os sucessos populares mais queer”, em tradução livre) sugere que o verso “Mama I killed a man” seria sua confissão de que o Mercury heterossexual já era; e que “Mamma Mia let me go” poderia ser um pedido literal para que Mary Austin compreendesse que ele tinha que partir.

Esse hino operático do rock, com mais de seis minutos, já foi interpretado por artistas tão díspares como Elton John, Axl Rose e Panic! at the Disco, e entre os vários prêmios e indicações em listas das “maiores canções de todos os tempos”, foi incluída no Grammy Hall of Fame em 2004.

John Reid, empresário do Queen na época, falou com Richads e Langthorne pela primeira vez sobre o subtexto de “Bohemian Rhapsody”. “Várias análises da música já foram feitas, mas eu acredito na teoria de que essa foi a maneira que ele encontrou de sair do armário, apesar de nunca ter discutido isso diretamente com o Freddie”, confessa.

Langthorne afirma que Mercury considerava “Bohemian Rhapsody” sua maior realização. Seja ela ou não um testemunho autobiográfico de sua homossexualidade, a narrativa trágica descrita nos versos da música ganharia um significado ainda maior depois de sua morte.

Ao associar a história pessoal do cantor ao ambiente cultural e médico em que ele viveu e morreu, o livro é um lembrete do quanto já se evoluiu, de tudo que temos a perder, e – especialmente quando se trata do HIV, da compreensão da bissexualidade, e de homens que fazem sexo com homens – quanto ainda precisamos avançar.


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