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Segunda-Feira 19.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Coluna True Colors

É sempre um paradoxo discutir a sexualidade do outro

Afinal, homens que se relacionam com travestis ou mulheres transexuais, são gays?

Postado em 08 de Agosto de 2019 - Bruna G. Benevides – Mediun

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É sempre um paradoxo discutir a sexualidade do outro. Porém, a possibilidade de reflexão a partir deste ponto, faz com que mitos sejam derrubados e que possamos avançar no entendimento do quanto a sexualidade também é um mecanismo de poder e controle de quem exerce/reinvidica uma sexualidade não cis-hetero.

O fato de um homem que se identifica enquanto heterossexual e se relaciona com travestis, faria necessariamente dele um “gay, bi ou pan”? Se admitirmos essa possibilidade, onde estaríamos colocando as mulheres transexuais e as travestis?

Se aceitamos que a Sexualidade é definida pelo gênero das pessoas com as quais nos relacionamos, e não necessariamente com os corpos, visto que defendemos que não é a biologia que define o gênero. Estaríamos rotulando a Sexualidade de outras pessoas pelas suas práticas sexuais genitalizadas, assim como fazem conosco e também estaremos reforçando que essa travesti seria um homem gay(sic). Novamente o velho ciclo da rotulação precipitada.

Sobre as práticas sexuais, é importante observarmos a partir das possibilidades corpóreas das pessoas com as quais nos relacionamos. Onde existem homens cis que normalmente procuram travestis para serem penetrados, pensando unicamente no seu próprio prazer em detrimento do dela. E me pergunto se este aspecto também não teria relação com o desejo da travesti, e de como ela se relaciona com seu corpo. Pois, se ela se permite sentir prazer penetrando um homem, isso não seria unicamente para satisfazer o homem, mas também o desejo dela própria.

Aliás, eu OUSO afirmar que foram as travestis e a fluidez de como reivindicamos e exercemos a nossa sexualidade, QUE EM GRANDE PARTE SÓ É POSSÍVEL POR CAUSA DE NOSSOS CORPOS E AS FUNCIONALIDADES QUE ELE TRAZ, que “ensinaram” os homens a terem prazer em dar o edý e de como admitir esta prática tem causado uma ruptura na (hetero)sexualidade, assim como diversos outros processos de reflexão que vão desde a repulsa a homens passivos que tem sua sexualidade contestada, até a idéia de que mulheres transexuais que deveria odiar seu órgão genital e torná-lo disfuncional, ou mesmo a possibilidade de negação total de uma passividade sexual no caso de travestis e mulheres transexuais.

Quando ouço as conversas das travestis mais velhas sobre suas práticas sexuais antes e depois do êxodo travesti para a europa — entre os anos 60 e 90, e de como eram obrigadas a esconder seus pênis, seus desejos e sua própria excitação porque os homens não poderiam ver ou tocar seus corpos(sic). Observamos uma mudança a tal ponto que agora podemos nos afirmar enquanto mulheres de pau que sentem prazer com seus corpos.

Em parte, isso se deu muito a partir de quando estas mesmas travestis retornam ao brasil, depois de um período de desconstrução de sua performance sexual no velho continente.

Percebo nitidamente uma mudança em relação a forma como os homens também passam a se relacionar conosco a partir deste período, onde as travestis, formadas em ‘’novas práticas sexuais’’ adquiridas em suas experiências fora do nosso contexto socio-cultural, impactam diretamente em como hoje encaramos a nossa própria sexualidade e das pessoas que se relacionam sexualmente conosco.

Existe uma discussão importante a respeito da genitalização da sexualidade que precisa ser pensada.

Um homem hetero Cis que procura uma travesti ou mulher transexual para se relacionar sexualmente, o faz muitas vezes porque ele próprio não nos lê como um homem. É comum ouvir de homens que saem com travestis dizerem que estão buscando mulheres com algo a mais e que não sentem nenhuma atração por homens. E aqui faço uma observação sobre o fato de que isso necessariamente não tem a ver com ele querer ou não ser o passivo da relação.

A heterossexualidade das pessoas trans é diferente da cis-centrada.

E passa exatamente por estes processos de afirmação daquelas pessoas que querem estar neste lugar, pois, se entendendo mulheres que se relacionam com homens, se reconhecem enquanto heterossexuais, e não podemos tirar isto delas a partir da forma que nós vemos/entendemos a heterossexualidade.

Eu enquanto travesti, que estou em relacionamento heterossexual, não estou necessariamente afirmando a heterossexualidade do meu marido. Na verdade eu a estou desconstruindo da forma com que ela foi imposta a ele — e a mim, também.

Concordo que precisamos discutir a cis-heterossexualidade compulsória e tóxica, para desconstruir a ideia de que homens não podem se relacionar livremente com travestis e mulheres transexuais pois seriam vistos como gays ou pior ainda, como algo não natural, fazendo com que os relacionamentos com pessoas TRANS fique limitado muitas vezes a casualidade.

Por fim, não estou dizendo que travestis e Mulheres transexuais devem se relacionar com homens para se afirmar enquanto mulheres na sociedade, mas que o processo de reconhecimento da sua sexualidade também é importante para que elas/nós, deixemos de ser vistas como homens.

Não existe uma sexualidade única, cristalizada. Assim como não existe uma única forma de ser travesti ou se relacionar com seu corpo. Existe a imposição de um padrão de (hetero)sexualidade, portanto um padrão de ser cis, hétero ou como se relacionar com seu corpo de acordo com o gênero que se identifica.

E é sobre isso que precisamos pensar.

Bruna G. Benevides - Militar, Feminista, nordestina, TransAtivista apreciadora de charutos, loira, cacheada.


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