Semana On

Quinta-Feira 27.jun.2019

Ano VII - Nº 356

Coluna True Colors

Por que falar em LGBTfobia e não homofobia

Usar o termo LGBTfobia é respeitar todas as opressões que as pessoas LGBT+ sofrem ao longo da vida e não reduzir todo um grupo social a apenas uma de suas letras

Postado em 05 de Junho de 2019 - Paloma Vasconcelos - Ponte

Ativista trans durante primeira Marcha Trans, realizada em junho de 2018. Foto: Paloma Vasconcelos - Ponte Jornalismo Ativista trans durante primeira Marcha Trans, realizada em junho de 2018. Foto: Paloma Vasconcelos - Ponte Jornalismo

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Nós não somos iguais. Na realidade somos bem plurais. Principalmente no que se diz respeito aos nossos direitos. A gente sabe que há um grande abismo entre pessoas heterocisnormativas (aquelas que se relacionam com o sexo oposto e estão tranquilas com o gênero de nascimento) e LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros). Mas, apesar da população LGBT+ ser um dos grupos vulneráveis no que se diz respeito aos direitos, não dá para colocar todas as letras da sigla na mesma caixinha.

Antes de a gente começar a conversar sobre isso, é importante reforçar algumas coisas. Sexualidade (que abarca as letras L, G e B) é diferente de identidade de gênero (essa destinada para letra T). Então, pessoas trans também podem ser lésbicas, gays e bissexuais, já que a identidade de gênero consiste na forma como aquela pessoa quer (e deve) ser vista pela sociedade. Uma mulher trans pode ser hétero, lésbica ou bissexual assim como um homem trans (ou transmasculino, um termo que parte do movimento vem usando por não concordar com a masculinidade tóxica tão presente na sociedade por meio do machismo e da misoginia) pode ser hétero, gay ou bissexual.

Vamos exemplificar para ficar mais fácil: contamos recentemente a história de Fabiana, uma mulher trans que se relaciona com outras mulheres (cis ou trans) e teve sua vida retrata em um documentário. Fabiana pode ser vítima de transfobia, por ser uma pessoa trans, ou de lesbofobia, por ser uma mulher lésbica.

Tem um termo que vem sendo muito usado, mas que é pouco entendido: intersecção. Nascido no universo acadêmico, a terminologia é muito usada por estudiosos dos movimentos negros e, nos últimos anos, passou a ser usadas por ativistas e militantes LGBT+. Intersecção significa entender que as opressões são diferentes entre si. Um exemplo: durante muito tempo, militantes negros, principalmente as mulheres, lutaram (e ainda lutam) para reivindicar que as demandas das mulheres negras são diferentes das demandas das mulheres brancas. Isso porque as mulheres negras além de lidar com o machismo também preciso enfrentar o racismo. Falar em intersecção não é medir quem sofre mais, apenas ter a consciência de que algumas lutas são mais duras do que as outras.

A mesma lógica serve para o movimento LGBT+. Os homens gays lidam diariamente com uma opressão: o preconceito motivado pela sexualidade, a homofobia, mas não podemos dizer que mulheres lésbicas sofrem homofobia uma vez que, além do preconceito da sexualidade, elas lidam todos os dias com o machismo. Por isso, o movimento de mulheres lésbicas vem reivindicando ao longo dos anos o uso do termo lesbofobia, que é a opressão exclusiva de mulheres lésbicas por causa do agravante do machismo.

É muito mais do que terminologia. Quer um exemplo? Em março desse ano, a Ponte trouxe o relato de uma jornalista que fez um livro contando como a saúde sexual de mulheres lésbicas e bissexuais é tratada por ginecologistas. Larissa Darc denuncia no livro “Vem cá: vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais” a precariedade que essas mulheres enfrentam e a ausência de proteção que as proteja durante o sexo. Do outro lado, sabemos que os homens gays (e os bissexuais), tem a camisinha como maior arma contra doenças sexualmente transmissíveis. Então, apesar de fazer parte do mesmo movimento, os direitos ainda não são os mesmos para homens que se relacionam com homens e mulheres que se relacionam com mulheres.

Também é preciso lembrar que pessoas bissexuais não sofrem homofobia, e sim bifobia. Independentemente se uma pessoa bissexual está se relacionando com alguém do mesmo sexo, a sua sexualidade continua sendo a mesma. Porque, cá entre nós, quem somos nós para colocar na régua se uma pessoa é mais ou menos bi por estar ou não com alguém do mesmo sexo, né? Mas é algo muito comum. Isso é um exemplo de caso de bifobia. Outra coisa que não cabe a nós, LGBT+ ou não, é medir de uma mulher bissexual sofre mais ou menos do que uma mulher lésbica ou se um homem bissexual sofre mais ou menos do que um homem gay.

Infelizmente a coisa piora quando falamos da última letra da sigla. Pessoas transexuais e travestis enfrentam outras opressões, ainda mais delicadas do que o restante do movimento. O direito à vida ainda é a maior demanda da população T, que, ano após ano, é a mais assassinada no Brasil. Isso sem contar que a vulnerabilidade social de transexuais e travestis, que ainda é muito maior do que as demais letras, uma vez que essa população tem pouco acesso a educação, ao ambiente de trabalho e tem mais dificuldade na vida afetiva. Pessoas trans ainda brigam para usar o banheiro que respeita sua identidade de gênero, para ter o nome social respeitado e por aí vai. Por isso, a opressão sofrida por pessoas trans é a transfobia. Na semana da visibilidade trans de 2018, a Ponte publicou o Especial Trans, que trouxe os 8 perfis do livro-reportagem “Transresistência: Histórias de pessoas trans no mercado formal de trabalho” que exemplifica bem essa diferenciação.

Não é à toa que mulheres lésbicas e bissexuais e pessoas T tem marchas separadas da famosa Parada LGBT, uma vez que não se sentem representadas nesse espaço que, embora seja muito importante para a luta LGBT+, ainda dialoga muito com a causa G. Todo sábado que antecede a Parada, há uma caminhada exclusiva para mulheres lésbicas e bissexuais (quando falamos na separação por sexualidade, não por identidade de gênero). Assim como também há marchas destinadas às pessoas trans: atualmente são duas, uma no começo do ano, no Dia da Visibilidade Trans, que é comemorado em 29 de janeiro, e outra no sexta-feira que antecede a Parada LGBT (ano passado teve a sua primeira edição).

Por isso, também é muito importante lembrar que outros fatores influenciam ainda mais a vida de LGBT+. Um LGBT+ negro, vai sofrer a LGBTfobia e o racismo (no caso de uma mulher negra ainda tem o machismo para somar na conta). E em todos os casos precisamos lembrar da opressão por classe social. LGBT+ da periferia sofrerão mais preconceitos do que LGBT+ que moram em regiões conhecidas como “nobres”. Segundo dossiê, divulgado pelo Alma Preta, 82% das pessoas trans assassinadas no Brasil são negras. Isso mostra bem como as intersecções são um fator diferencial na vida de um LGBT+ no Brasil.

Então, usar o termo LGBTfobia é respeitar todas as opressões que as pessoas LGBT+ sofrem ao longo da vida e não reduzir todo um grupo social a apenas uma de suas letras. As opressões como o machismo, o racismo e a LGBTfobia são estruturais e institucionais, por isso é bem importante apontar a intersecção delas. Esse é o melhor caminho para lutar contra cada uma delas.


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