Semana On

Quinta-Feira 14.dez.2017

Ano V - Nº 283

Governo dengue

Coluna A Arte de ser Viajante

Belém conserva cenário que encantou escritor Mário de Andrade há 90 anos

Ilha de Marajó ainda é o paraíso dos diários do escritor

Postado em 03 de Outubro de 2017 - Redação Semana On

A mesma foz do Amazonas que impressionou o escritor Mário de Andrade (1893-1945) em sua visita de reconhecimento do Brasil, em 1927, encanta o turista que chega a Belém de barco hoje.

"A foz do Amazonas é uma dessas grandezas tão grandiosas que ultrapassam as percepções fisiológicas do homem", disse o modernista, em seu "O Turista Aprendiz", livro que resultou daquela viagem de 90 anos atrás.

O escritor chegou a Belém "antes da chuva", como observou em seu diário, "e o calor era tanto que vinha dos mercados um cheiro de carne seca". Instalou-se no Grande Hotel, hoje demolido, e naquela primeira noite foi assistir ao filme "Não Percas Tempo", num cinema localizado na mesma rua. "Um filme horrível", como registrou.

O curioso é que o cinema que recebeu o escritor, o Olympia, permanece em funcionamento e é o mais antigo do Brasil a ainda projetar filmes. Inaugurado em 1912, em julho deste ano exibiu o documentário "Do Outro Lado do Atlântico". Segundo o projecionista Gideão Araújo, hoje a casa não recebe mais que cem espectadores por sessão, e a sua maior bilheteria foi nos anos 1990 com "Titanic".

"Esse filme foi o responsável por manter o cinema aberto no momento de maior crise", lembrou Araújo. Sobre a passagem de Mário de Andrade pelo cinema, o funcionário não tinha conhecimento.

Já no mercado Ver-o-Peso, que deslumbrou o escritor, as lembranças anotadas pelo modernista podem ser constatadas até hoje. Construído para receber as mercadorias que os ribeirinhos traziam para abastecer a capital, o entreposto é o ponto mais efervescente da cidade.

Na parte coberta, montada em ferro pré-moldado trazido da Europa, funciona o mercado de peixes. Ali, nas primeiras horas do dia, homens trazem uma infinidade de douradas, filhotes, tambaquis e tucunarés. Xisto Brito, 78 anos, 63 deles vividos dentro do Ver-o-Peso, conta que antes havia ainda mais fartura de peixe. "Hoje recebo cerca de 300 quilos por dia e vendo rapidamente tudo", diz.

Ao lado, ficam os balcões dedicados às frutas. Açaí, cajá, cupuaçu e toda uma gama de espécies que deixaram o escritor perplexo. "Provamos tanta coisa, que embora fosse apenas provar, ficamos empanturrados", anotou.

ERVAS MILAGROSAS

Um pouco mais adiante, entretanto, está a parte mais curiosa do mercado: a que comercializa ervas, folhas e tudo que se pode imaginar de plantas medicinais amazônicas. A pessoa chega e diz a doença. Diabetes, hipertensão, gastrite. E logo surge uma espécie milagrosa. Algumas delas até para dores abstratas, como as do amor.

Quem explica é Sandra Maria Melo, 59, a "Tieta", filha de índia karipuna que trabalha ali há mais de 40 anos. "Temos a chora-nos-meus -pés, a agarradinho, a pega-e-não-me-larga, e a corre-atrás. Todas elas ervas próprias para o amor", diz.

Nas trilhas de Mário de Andrade por Belém não pode faltar uma visita ao Theatro da Paz, de 1878, inspirado no Scala, de Milão. Com a plateia dividida de acordo com as classes sociais, o térreo é dedicado aos abastados, e os andares superiores deixados para a plebe. Essa divisão ainda é mantida, com preços de ingresso que variam de acordo com a localização, e o camarote destinado ao imperador hoje é de uso exclusivo do governador do Estado.

E, por último, não se pode deixar de conhecer o Museu Goeldi, que guarda o maior acervo do mundo em espécies vegetais e animais da Amazônia, além de livros. "Biblioteca admiravelmente bem conservada pelo dr. Rodolfo de Siqueira Rodrigues, um desses heróis que não se sabe", observou o modernista.

Os encantos da cidade permanecem e dão ao viajante de hoje a mesma sensação que levou o escritor a dedicar uma cantiga a Belém, intitulada "Moda do Alegre Porto". Numa das estrofes, ele diz:
"Que porto alegre Belém do Pará! Vamos no mercado, tem mungunzá! Vamos na baía, tem barco veleiro! Vamos nas estradas que têm mangueiras! Vamos no terraço beber guaraná! Que alegre porto, Belém do Pará!"

REINO DO 'BREGA'

Belém tem em seus arredores uma infinidade de praias de rio, algumas pouco conhecidas dos turistas de fora. Uma delas, Chapéu Virado, na Ilha de Mosqueiro, já foi visitada pelo escritor Mário de Andrade em 1927.

Naquela viagem de descobrimento, ele anotou: "Banho de água doce em quase pleno mar. Enxames de ilhas, cardumes de ilhotas que vão e vêm, desaparecem."

Nos dias de hoje, o turista encontra em Chapéu Virado resquícios do tempo em que o balneário era frequentado por barões da borracha, que lá construíram, no século 19, chalés de veraneio. Muitas dessas casas podem ser vistas na rua principal.

Ainda está por lá também a pequena capela do Sagrado Coração de Jesus, construída em 1909 por um devoto, em pagamento de promessa. Mário de Andrade a fotografou e colocou na legenda: "Igrejó de Chapéu Virado".
A partir de 1950, o santuário tornou-se local de saída do Círio de Nossa Senhora do Ó.

Já no fim da praia, está o Hotel do Farol, transformado em hospedaria em 1930 pelo empresário Zacharias Mártyres, que lá tinha uma casa de veraneio. A construção lembra a de um navio, com cantos arredondados para quebrar a força do vento e propiciar a vista para a baía.

Na orla, além dos casarões, pode ser visto hoje um desajeitado prédio de apartamentos, que destoa dos encantos do balneário. Encantos registrados na caderneta de Mário de Andrade, que apreciou tudo, especialmente a vegetação e o banho de rio.

Na atualidade, reina por ali o "brega", ritmo tocado nas barraquinhas que ficam lotadas nos fins de semana com o povo que vem de Belém.

Ilha de Marajó

Os búfalos e os carapanãs já chamavam a atenção na ilha do Marajó, em 1927, quando lá esteve o escritor Mário de Andrade, em sua visita de "descobrimento do Brasil".

Mário saiu de Belém rumo a Marajó na manhã de 29 de julho, na lancha Ernestina, como anotou em seu diário. "Pelas oito, tomamos a barca Tucunaré, menorzinha, e entramos pela boca do rio Arari", escreveu. "Marchas e paradinhas. Santana. Cachoeira. Paraíso com seus búfalos".

Santana era o nome da única fazenda que havia por lá, cuja casa-sede foi fotografada e desenhada pelo modernista. Nela, Mário pernoitou com a cara "emporcalhada" de uma pomada inglesa, feita com citronela de java, para matar os mosquitos. "É um desespero", disse. "Bilhões, bilhões de carapanãs."

Nada disso, porém, tirou o encanto da viagem, sobretudo pela profusão de aves. "Não se descreve, não se pode imaginar", registrou Mário em sua caderneta. "São milhares de guarás encarnados, de colhereiras cor de rosa, de garças brancas, de tuiuiús, de mauaris. E a beleza de Marajó com sua passarada me derrubou no chão."

As aves permanecem e a viagem, hoje, tornou-se bem mais simples desde que a lancha Golfinho passou a ligar Belém a Marajó em apenas duas horas. A aventura maior fica por conta da estadia na ilha, que não dispõe de uma estrutura apropriada para o transporte interno.

A vila mais procurada pelos turistas é Soure, onde atraca a lancha. De lá, pega-se um táxi ou uma mototáxi para pousadas e passeios. Os preços são altos: a corrida de ida e volta para a praia do Pesqueiro, a mais visitada, sai por R$ 70 no táxi e R$ 30 na moto (sem capacete -o equipamento é completamente esquecido na ilha, desde que o governo do Pará aboliu a fiscalização).

Outra opção de praia é Barra Velha. Mais próxima do centro, ela tem uma pequena extensão de areia -no último inverno a maré invadiu quase toda a orla- espremida entre o rio e o manguezal.

No centrinho da vila funcionam apenas dois restaurantes, o Ilha Bela e o Patu-Anu, onde se pode saborear o filé marajoara, coberto com muçarela de búfala da região.

Marajó, como definiu Mário de Andrade, é outra espécie de paisagem amazônica. E é talvez ali o lugar onde se pode contemplar a natureza tal qual ela estava na visita do escritor 90 anos atrás. Ou muito próximo disso. Com ingazeiras que ainda cobrem as margens do rio e os campos imensos, "de um verde claro intenso", registradas em sua caderneta.

CARIRI

Na Amazônia, depende-se de barco para tudo e é assim que funciona a vida em Barcarena, cidade distante 20 quilômetros de Belém.

Até o transporte escolar funciona por meio de uma embarcação, que recolhe as crianças nas vilas ribeirinhas e as leva para a sala de aula.

De Barcarena parte o barco com destino à cidade de São Francisco, de onde o visitante pode pegar uma van e percorrer um pequeno trecho terrestre que leva até a praia de Caripi, visitada por Mário de Andrade em 1927.

Banhada pelo rio Pará, Caripi tem um pequeno e simpático píer e uma vegetação exuberante. Pequenas barracas oferecem conforto ao turista, com cerveja gelada e peixe frito na hora. Isso hoje.

Em 1927, o escritor fez a sua refeição a bordo do barco e só desceu para o banho de rio.

"Maravilhoso passeio ao Caripi. Que adianta dizer maravilhoso. Não dá a entender o que foi, não posso descrever. Almoço lá, banho."

Maria Mourão, 89, conhecida como Maroca, a primeira moradora de Caripi, conta que quando Mário de Andrade esteve por lá o povoado ainda não existia, só uma fazenda de mesmo nome.

"O dono era um francês e somente em 1931 meu marido ergueu a primeira casinha da vila, onde moro até os dias de hoje", afirma Maroca.

A casa, em madeira de lei, tem uma sala e um quarto e foi erguida sobre uma estrutura que impede a entrada das águas na maré cheia.

Já os turistas chegaram apenas nos anos 1970.


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Colunista

Silvio Andrade

Silvio Andrade

Jornalista e editor do site Lugares.


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