Semana On

Quinta-Feira 26.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna Ponte Aérea

Muito além do identitarismo

Raphael Tsavkko Garcia fala de pautas identitárias, eleições e religião

Postado em 18 de Novembro de 2020 - Raphael Tsavkko Garcia

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Me parece que pautas identitárias ganharam muito espaço nas capitais.

Mas acompanhei várias candidaturas e dá pra ver que muitas tem uma base na identidade (mulher negra, LGBT, etc), mas vai bastante além. O que é ótimo. Vai no encontro da minha crítica outro dia sobre identitarismo vazio e a necessidade de qualificar e politizar o debate (is.gd/08BaPu).

Mas acho interessante analisar o que levou a esse crescimento. Tenho algumas hipóteses. Por um lado é possível que pautas mais identitárias realmente estejam ganhando espaço e saindo da bolha das redes sociais para conquistar eleitores/pessoas reais - mesmo que ainda seja um fenômeno de força limitada.

Mas por outro, pode ser que a gente tenha observado um realinhamento da esquerda, com candidaturas mais tradicionais perdendo força e dando lugar a gente nova com um discurso mais afinado com a esquerda mais identitária. Em outras palavras, pode ser que tenha havido uma concentração de votos em candidaturas com pautas mais identitárias levando a um realinhamento dentro da própria esquerda e não exatamente um crescimento dessas pautas dentre a sociedade como um todo. E, claro, ambas as hipóteses passam por um "rejuvenescimento" da representação, novos discursos, novos atores.

Mas, enfim, hipóteses.

E uma nota, não estou usando "identitário" aqui de forma negativa. Meu problema com identitarismo é lacração, é a pauta vazia e que acaba em si mesma e tem muita gente boa eleita com pautas negras, LGBTs, de mulheres, etc. Não jogo tudo no mesmo saco de forma alguma.

É necessário separar o que é uma pauta identitária baseada numa leitura da realidade social que vme junto com apresentação de propostas e tentativa de diálogo com a sociedade do que é pura lacração vazia, caso das bolhas de rede social que só buscam criar atrito.

O PSOL em SP elegeu uma bancada com uma diversidade tremenda e me parece ótimo, desde que estejam dispostos a apostar pela superação de conflitos e não incitação a mais cancelamentos e acabem no identitarismo torpe. Por todo país alguns nomes me dão esperança, não são lacradores de rede social, mas ativistas que tem pautas reais pra melhorar a situação de negros, mulheres, LGBT's....

Aliás, o Boulos em São Paulo indica um caminho interessante. A campanha dele foi voltada pra inclusão, diálogo, para tentar convencer quem não é "iniciado" e deu muito certo. Ao invés de apelar para dividir e por uma suposta exclusividade da bondade e da preocupação com o mundo, Boulos foi conversar, entender, ouvir, etc... E muitos conhecem bem minhas críticas a ele, mas fiquei realmente surpreso com o tom da campanha e acho que é um caminho a ser seguido.

Resta ver agora o que vão propor e se terão força contra o evangelistão que segue forte. Eleições locais tendem a ter lógicas também locais, pautas mais relevantes para a cidade e região e de fato nessa eleição falou-se mais do local e menos do nacional, pode ter contribuído.

REPRESENTATIVIDADE?

"Representatividade" é um conceito absolutamente vazio sem que ele seja qualificado. A mera presença de determinado grupo não quer dizer nada - pode ser até negativo.

Tenho pavor de candidato que pede voto na base do identitarismo vazio. "Vote em mim porque sou mulher, vote em mim porque sou negro, vote em mim porque sou mãe, vote em mim porque sou LGBT" e daí em diante não quer dizer NADA.

Porque votar em alguém meramente por ter nascido de um determinado jeito ou ter decidido ter um filho? O que qualifica essa pessoa a ser eleita e representar a população além de mera identidade ou escolhas banais da vida?

E vale lembrar, não é só a esquerda que adota esse tipo de discurso vazio, a direita tem tempo aprendeu também a usar identitarismo torpe como forma de atrair votos (também com o "vote em mim porque sou pastor, etc"). De que adianta eleger ou comemorar a indicação para cargos de poder de uma Joice Hasselman, uma Damares, um Sérgio Camargo, etc apenas por serem mulheres ou negros?

O evangélico progressista comemora a eleição do Crivella? Talvez do Feliciano? Penso que não. Não sei vocês, mas eu quero ver propostas, ideias, projetos não "eu nasci X, logo devo ser eleito/a".

Em tempo, vale ler antes das eleições minha entrevista com o Pastor Levi, o Pastor Burjak e o Silas Fiorotti sobre o papel da religião nas eleições brasileiras e as responsabilidades do evangélico e do pastor progressista: https://is.gd/5gmtOk

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Bastante relacionado ao tópico, minha leitura do resultado das eleições e a transformação da esquerda: https://is.gd/wtOEZr

AMADORES FORA

O Brasil não é para amadores, o Rio de Janeiro então, nem se fala...

PS: Não é uma crítica, contra o Crivella não tem mesmo opção, mas é engraçado...

RELIGARE

Nas eleições brasileiras, como explicar o crescimento do fundamentalismo evangélico e qual o papel dos pastores progressistas?

"Desde quando a os europeus chegaram às terras nativas brasileiras, desde as Capitanias Hereditárias, a religião sempre teve destaque e ingerência nos palácios do Poder. Passando pelo Império e pela República, os poderosos e os religiosos sempre souberam cuidar da comunhão de interesses dos poderosos da política e da economia. Com a maioria dos pastores evangélicos a lógica é a mesma, ao seu modo, espiritual e teologicamente, eles acreditam que estar no poder e ao lado dos poderosos é a vontade de Deus."

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Raphael Tsavkko Garcia

Raphael Tsavkko Garcia

Raphael Tsavkko Garcia é jornalista e Doutor em Direitos Humanos.


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