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Domingo 11.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna Crônicas de Theresa

É preciso antes assumir a tristeza para depois reclamar a esperança

Negacionismo: Por que tantas pessoa,s supostamente inteligentes, com bom senso e esclarecidos, estão amarrados às correntes da ignorância?

Postado em 31 de Março de 2021 - Theresa Hilcar

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Ao iniciar a fase das crônicas on-line, no início da Pandemia, pensei fazer uma espécie de diário de quarentena.  Usar o espaço para costurar o tempo em palavras, refletir sobre as horas, as dores e o sofrimento de uma época sem igual.  E mesmo sabendo que muitos preferem ler coisas mais leves e divertidas, continuo com a minha jornada. Afinal, informar é meu dever de ofício.

Ou como escreve o escritor angolano, Valter Hugo Mae: "É preciso assumir a tristeza para reclamar a esperança". Não existe outra saída que não seja escrever sobre o que vivemos. Negá-lo, ou sublimá-lo não vai fazer com que os fatos desapareçam.

Portanto, diante do caos que acontece, é necessário falar da negação. Não fazer uma crítica pura simples, mas entender o que leva pessoas ignorarem o barulho e o cheiro das bombas caindo ao redor. Preciso compreender o que se passa na mente e no coração de alguém que rechaça a dor do próximo.

Não, não vou falar do comando em ação. Já existe um centenas e milhares de artigos e opiniões na mídia, feitos por competentes colegas de ofício. Vou me ater ao que mais me preocupa: as pessoas que continuam apoiando a ignorância em sua forma absoluta.

A fonte, da qual os supostos 30% dos negacionistas bebem é um maná dos Deuses. Não há como substituir o leite – mesmo envenenado – que sai das tetas do poder mitificado. Isto explica porque tantas pessoas – amigos e amigas – supostamente inteligentes, com bom senso e esclarecidos, estão amarrados às correntes da ignorância.

E a ignorância, de acordo com o Budismo tibetano, não é exatamente a estupidez, mas uma espécie de cegueira. É trabalhar numa única direção, reagir apenas às suas próprias projeções, em vez de ver o que é, o que está lá.

Parece inacreditável que não vejam os fatos e acreditem em histórias inventadas, teorias da conspiração e outras maluquices. Para os negacionistas de plantão todos estão mancomunados com o que chamam de comunismo, algo que nem sabem o que significa. Evidentemente falta leitura e conhecimento a esta horda que, é bom ressaltar, também é histérica e raivosa. Sim, a violência, verbal ou até mesmo física, é um traço comum entre eles.

Nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp são frequentes as postagens que exaltam a eficácia de medicamento para piolho. O tal remédio, totalmente inócuo de acordo com cientistas, seria um antagonista da vacina, comprovadamente eficaz ao combate do vírus. Às vezes chego a pensar que estão sofrendo efeitos colaterais da propaganda maciça. Só pode.

Diante de tantas iniquidades e desinformação, mentiras compartilhadas e ódio destilado, fui procurar um pouco de inspiração no livro do monge francês, Matthieu Ricard – "Felicidade". De acordo com o monge, a ignorância imperativa é um estado em que somos incapazes de reconhecer a verdadeira natureza das coisas e a lei causa e efeito que governa a felicidade e o sofrimento.

Em suas palavras "a maldade, a ilusão, o desprezo e a arrogância não são meios de chegar a verdadeira felicidade, mas mesmo aqueles que são cruéis, atormentados, obcecados, hipócritas ou vaidosos estão, à sua maneira buscando a felicidade". Pois é, o que todos eles querem no fundo é apenas ser feliz. Quem diria?

A grande questão é que, neste caso, a procura está sendo feita por caminhos tortos, cegos e extremados. A felicidade está sendo construída de forma egocêntrica. E quando a felicidade egoísta é o único objetivo de vida, a vida logo fica sem objetivo. Um ditado tibetano diz que buscar a felicidade fora de nós mesmos é como esperar pela luz do sol em uma caverna que dá para o norte.

Tudo isto sem falar que a ideia de felicidade ocidental é ter, possuir, ser. Neste sentido, os negacionistas se apresentam como o espelho de quem acredita ser o dono de um País inteiro. Ou seria dono do mundo? Até a suposta espontaneidade é hipervalorizada. Seus seguidores sequer desconfiam que estão presos a uma armadilha de um círculo sem fim.

E não há perspectiva de mudança. Mudar de opinião, abrir para o diálogo e o conhecimento, admitir o erra, são coisas impensáveis. Como no livro de Saramago (ou o filme, tanto faz) "Ensaio sobre a cegueira", em algum momento os cegos terão que experimentar a própria loucura e suas miseráveis consequências.

Temos uma longa história de injustiças e hipocrisia neste País. Fomos forjados à custa do trabalho escravo e outras atrocidades, cometidas em prol de um suposto bem comum. Um engano que persiste até hoje. 

Mas nem toda ignorância do mundo justifica o coro dos que se deleitam e compartilham da pulsão de morte. Mortes evitáveis em sua maioria. Mortes causadas por um Epidemia real, visível, tangível em números dramáticos que já ultrapassam a triste marca de 300 mil perdas. São famílias inteiras destruídas, parentes e amigos desolados e impotentes.

Negar os fatos, a ciência, as imagens desumanas, zombar e duvidar dos números, ignorar depoimentos de pessoas devastadas diante da omissão, não é apenas ignorância, é a mais pura crueldade. Que Deus, Jesus, Moisés, Allan Kardeck, Buda, todos os anjos e santos nos ajudem a resistir a este massacre.  Agora, mais que nunca, precisamos reclamar a esperança. Que venha em forma de bom senso e de vacina.


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Colunista

Theresa Hilcar

Theresa Hilcar

Mineira de Lagoa da Prata, é jornalista.


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