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Terça-Feira 13.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna Crônicas de Theresa

A crônica das pequenas coisas da vida

Quantas mudanças acontecem em um ano

Postado em 23 de Março de 2021 - Theresa Hilcar

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Quantas mudanças acontecem em um ano. Nesses doze meses totalmente atípicos, a maioria de nós esteve – e ainda está- lutando para sobreviver as 24 horas do dia. Física e emocionalmente. Quase não há espaço para pequenas nem grandes distrações. Literalmente.

Muita gente usou este tempo para aprender coisas novas, como por exemplo, cozinhar, pintar, fazer artesanato ou até poesias. Nas redes sociais, é impossível encontrar alguém que não tenha feito nada de mais, além de se manter vivo. 

No entanto, e por mais que a gente se distraia com a vida, todos foram de alguma forma forçados a fazer reflexões. E para quebrar o tom, aparentemente grave desta crônica, vou lembrar aqui a frase de espanto do mineirinho, diante do inusitado: “Doncôvim? Oncotô? Oncovô?”

Pois é, como meu conterrâneo tenho passado o tempo assim, sem saber direito se existe alguma saída para o caos. Para esta avalanche que caiu sobre todos nós. E convenhamos, a frase tão simplória é ao mesmo tempo profunda e verdadeira. 

Pois a vida, como já se sabe, também é feita de coisas absurdamente simples e boas. De pequenos momentos que quebram a rotina pandêmica e reflexiva, quando interrompemos as análises existenciais para dar lugar -  a um naco que seja - da vida que segue lá fora. 

Pode ser, por exemplo, a mensagem da amiga querida com um simples pedido. Um depoimento para corroborar a reportagem que irá homenageá-la. Concordei, claro! Não me custaria nada sair das minhas elucubrações para escrever um texto sobre seu talento, mais que reconhecido.

Imagine então a minha surpresa quando fico sabendo que não seriam palavras escritas, mas ditas em frente a uma câmera de TV. Impossível, pensei. Fui logo me desculpando e enfileirando os motivos: ir ao estúdio ou receber equipe de TV na minha casa, estão fora do meu roteiro no momento.

Contudo, e a despeito desta impossibilidade, tentei pensar em soluções.  Foi quando a produtora propôs que eu mesma, no conforto da minha casa vazia, fizesse um vídeo no celular. Confesso que fui conferir meu rosto no espelho, depois de um ano sem cuidados, e hesitei.

Como eu disse, muita coisa mudou neste último ano, inclusive as mundanas. Além da pele envelhecida e descuidada, descobri que o tempo também prejudicou meu arsenal de vaidades, digamos assim.

O secador de cabelos, inativo todo este tempo, simplesmente parou de funcionar. Os produtos de maquiagem, com exceção de um pó compacto, estavam todos vencidos. Os batons ressecados, o rímel endurecido, as sombras desbotadas e o delineador pedindo para ser substituído. A tarefa de fazer um vídeo, tornou-se ainda mais difícil

Foi neste instante que um anjo, desses que não tem nada de torto, me enviou um vídeo com a poesia de Cecília Meirelles sobre a idade madura. Melhor dizendo, sobre a beleza na velhice. Quem recita os versos é ninguém menos que a musa da ciência, Margareth Dalcomo.

Era a inspiração que faltava. Com uma pitada de coragem e um espelho de aumento pintei a cara com o que deu. Quem disse que não se aproveita as sobras? O cabelo se improvisa, um brinco enfeita e a luz certa ajuda. 

Olhei novamente no espelho e achei que estava bom. Dava para o gasto, como dizia minha avó – mineira, claro! No processo da produção caseira, redescobri minhas habilidades tão bem guardadas, quase esquecidas. Ainda consigo ficar de frente com uma tela e dizer algo que faça sentido. 

Certa vez uma senhora linda, do alto dos seus 80 anos de idade, me disse que toda vez que se sentia triste passava um batom vermelho nos lábios e tudo ficava melhor.  Á época, menina ainda, achei a frase “engraçadinha”, mas não dei importância. Agora compreendo. Infelizmente hoje nenhum batom do mundo, por mais poderoso que seja, irá trazer de volta a leveza de ser. 

Mas a bem da verdade, não posso negar que o batom, mesmo não sendo vermelho, me deu alguns instantes de algo raro e caro atualmente: alegria. Obrigada Dedé, pelo convite e obrigada Lilia, pelo poema em vídeo.  O dia voltou a ser triste, mas aqueles minutos de boca e olhos marcados salvaram sim, boa parte daquela horrível terça-feira.


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Colunista

Theresa Hilcar

Theresa Hilcar

Mineira de Lagoa da Prata, é jornalista.


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