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Segunda-Feira 12.abr.2021

Ano IX - Nº 438

Coluna Crônicas de Theresa

Quebra de confiança

Ninguém comentava nada no colégio. Poucas pessoas sabiam que o mestre andava assustando alunas na minha classe

Postado em 10 de Março de 2021 - Theresa Hilcar

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Ninguém comentava nada no colégio. Poucas pessoas sabiam que o mestre andava assustando alunas na minha classe. Três amigas me contaram, mas pediram segredo. Não queriam que a coisa se espalhasse e chegasse aos ouvidos dos pais. Eram meninas de famílias tradicionais da cidade, e o medo do escândalo – e da vergonha – era maior que o pavor de frequentar as aulas.  

Aos 12 anos de idade, por alguma razão, a gente acredita que a culpa é sempre nossa. O jeito era manter tudo debaixo do tapete. Mesmo pressentindo que aquilo iria continuar. Na sala de aula, a cabeça girava em perguntas: quem será a próxima? Quem senta na frente, ou quem fica na última fila? Seria a menina do canto, sempre quieta, ou aquela que conversa a aula inteira? Eu sabia que minha hora chegaria.

O receio era proporcional ao desapontamento. A desilusão, igual ao pavor de ser a próxima vítima. Difícil aceitar que o professor, nosso Sidney Potier do filme “Ao Mestre, com Carinho”, sucesso na época, era o mesmo homem que agora nos deixava em pânico. Aonde foi parar o homem que ensinava a História do Brasil de um jeito tão encantador que nos fazia adorar a matéria? Patrício não era um ator de Hollywood, mas ganhou uma legião de fãs.  

Sua esposa, professora de Moral e Cívica, uma loura de dentes grandes e ligeiramente tortos, era doce e meiga. Como não tinham filhos, dedicavam o tempo aos alunos e ao colégio.  

Mas em pouco tempo nosso amigo tornou-se inimigo. Passou de mestre para algoz. Durante o recreio, a gente se reunia num canto do pátio, para conversar sobre o assunto. Cada dia era um novo detalhe, uma descoberta. Foi assim que descobrimos o método: toda sexta-feira, quando sua aula encerrava o dia e o colégio ficava vazio, ele vinha com a mesma história.  

Assim que os alunos começavam a sair, ele mandava alguém ficar na sala. Sempre com a desculpa do dever de casa mal feito. Depois trancava a porta e virava o monstro. Ele não falava nada. Elas choravam baixinho, enquanto suas saias eram amarfanhadas e as camisas do uniforme desabotoadas.

Eu tremia só em pensar que minha vez chegaria. Seguindo o padrão, ele dispensou a turma e pediu que eu ficasse.  

Argumentei alguma coisa, mas ele foi ríspido e curto. Fica. Meu coração disparou, minha boca ficou seca e eu senti um pavor tão grande que, sem pensar, gritei por socorro. E ainda consegui pegar a chave em cima da mesa, abrir a porta e sair correndo. No corredor, ele gritava: se não voltar agora, vou lhe dar zero. Mas eu não me importei. E continuei correndo pelo prédio vazio até chegar ao portão.

Minhas amigas estavam lá à minha espera. Ao saber o que eu tinha feito, entraram em pânico. E agora? A minha coragem havia comprometido o segredo. A mãe, desquitada e corajosa, apoiou minha decisão.  

No dia seguinte, enfrentei o mal-estar na sala do diretor do colégio e, mais tarde, o olhar surpreso e desconsolado da esposa. Não me lembro da conversa. Só dos gestos cuidadosos da minha mãe, da conversa emocionada e de uma frase: “Eu não sabia”.  

Depois veio a demissão, a mudança da cidade e ninguém mais tocou no assunto. Eles eram meus vizinhos. E aquela casa ficou assombrada por um bom tempo.


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Colunista

Theresa Hilcar

Theresa Hilcar

Mineira de Lagoa da Prata, é jornalista.


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