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Quinta-Feira 26.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna Crônicas de Theresa

Universo infantil

Para compensar os meses separada dos netos, entrei com tudo na fase das canções e dos desenhos infantis

Postado em 18 de Novembro de 2020 - Theresa Hilcar

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Para compensar os longos meses separada dos netos, entrei com tudo na fase das canções e dos desenhos infantis. Acordo todos os dias com versos de “Pintinho amarelinho” e “Babyshark”, entre outras tantas que grudam na minha cabeça feito chicletes. 

No recente papel de avó, como três netos em idades entre 2 anos e meio, 1 ano e cinco meses, mais um bebê de 8 meses, sinto necessidade reciclar conhecimentos sobre o assunto. 

Numa pesquisa superficial descobri que muita coisa mudou, algumas ficaram mais práticas outras mais complexas. No entanto, muitas narrativas seguem iguais, independentemente das mudanças de comportamento e do mundo. 

Algumas delas me deixam um tanto inquieta. Como vegetariana que sou há décadas, tenho dificuldade em aceitar a contradição por trás dos lindos desenhos com animais da fazenda. 

A criançada se diverte com a vaquinha, o boi, a galinha, o coelho e o porquinho, só para citar alguns. Aprendem a imitar o som de cada um deles, além de dançar e cantar as musiquinhas. Mal sabem que todos eles vão para nas panelas e churrasqueiras.

Numa rápida pesquisa na rede, me surpreendi com o fato de não encontrar material pertinente ao fato. Raros artigos apontam certa discrepância entre diversão e nutrição. E muitos nem estão acessíveis.

Alguns, poucos, sugerem que os pais ou responsáveis assistam aos desenhos junto com as crianças, explicando sobre a cadeia alimentar onde alguns animais servem de comida para os humanos bem como os bichos da floresta precisam caçar outros animais para sobreviver. 

A busca por explicações mais didáticas não rendeu muito. Em compensação, encontrei a história de Nelson, um garotinho português que adora bichos e aos quatro anos começou a rejeitar a carne animal. Durante anos a mãe tentou explicar-lhe a tese da cadeia alimentar e as necessidades nutricionais que, a bem da verdade, não me convence. 

Também não convenceram Antônio, que continuou recusando o alimento. O peixe era o único animal que lhe causava menos confusão. Para ele, havia uma diferença enorme entre a pescaria e a visão dos açougues com animais pendurados, o sangue escorrendo de suas entranhas, cenas que o faziam ter pesadelos na hora de dormir.

Ao fim e ao cabo, como dizem os portugueses, o garotinho (hoje com 7 anos), virou sucesso na internet e acabou levando a família a seguir dieta vegetariana.

Educar não é papel dos avós. Deseducar também não. A fronteira entre o que é permitido, saudável e invasivo é muito tênue. Antigamente se dizia que na casa da vó tudo pode inclusive comer “besteiras”. Não tive esta experiência pois já cresci na casa de uma avó = severa. No entanto, imagino que sejam casas onde existam bolos, biscoitos, hambúrgueres, franguinhos, batatas fritas e outras guloseimas à vontade.

Na minha casa, quando o Luca abre a geladeira, ele encontra apenas frutas, legumes, hortaliças, cereais orgânicos e suco de uva – exceção que faço para ele que adora o sabor, assim como o iogurte natural. De vez em quando dou um chocolate que ele recebe eufórico e chama de “supêsa”, 

Outro dia, vendo um desenho juntos, não resisti e cometi a indiscrição de dizer que todos aqueles animais felizes na fazenda, acabavam no pratinho dele. Depois de ouvir atento a minha explicação sobre vegetarianismo, ele disparou, entre incrédulo e temeroso: “Fofó, quelo face”.

Feliz da vida coloque em sua frente um lindo prato de legumes e folhas. Alegria que durou bem menos que eu esperava. Luca mexeu na salada, tentou pegar uma folha, mas logo desistiu. Olhou pra mim todo sério e declarou, à guisa de se livrar daquela montanha verde: “Eu não tomi a “tarne”, fofó”. Perdi a batalha e ainda ganhei bronca do pai dele.


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Colunista

Theresa Hilcar

Theresa Hilcar

Mineira de Lagoa da Prata, é jornalista.


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