Semana On

Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna Crônicas de Theresa

Onde está nosso inimigo?

O inimigo invisível está nas ruas, nas praças, nas pessoas, nas superfícies, no ar e no mundo inteiro

Postado em 09 de Setembro de 2020 - Theresa Hilcar

lustração: Gazeta do Povo lustração: Gazeta do Povo

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Já parou para pensar que ele, nosso inimigo comum de nome sofisticado – o Sars Cov 2 -  está em todos os lugares e ao mesmo tempo em lugar algum? Lutamos contra um inimigo invisível. Um algoz que dizima famílias, cidades, estados, países.

 Afinal, onde está nosso inimigo que leva embora nossos amigos mais queridos e nos impede até de nos despedir deles?

Onde está? Onde está esta besta fera que parece nos espreitar em cada esquina? Será que ele vem com aquele senhor bem vestido, mas com a máscara mal colocada? Ou no bando de garotos que fazem da proteção um acessório pendurado no pescoço? E aquela senhora que passa sem máscara? E o ciclista que quase me atropela?

Onde está? No pacote de café que chega do supermercado? Na gentileza do entregador que nos cumprimenta? No teclado onde digitamos a senha do cartão? Digam-me, onde esconde este maldito? No balcão da farmácia? Na visita do filho? No botão do elevador, mesmo você enxaguando as mãos com álcool gel?

Onde está você, covarde? Está tirando empregos, deixando pessoas nas ruas, matando médicos, enfermeiras. Diga para mim: onde você se esconde? Na calçada que passamos, na árvore defronte ao prédio, nas flores que acabam de nascer no jardim?

Mostre sua cara, como na música da Gal Costa. Quero saber quem lhe paga para o mundo ficar assim, a sua mercê. Você está escondido nas lojas, nos restaurantes, nas academias, nos salões de beleza? Onde é seu esconderijo, quem são seus cúmplices? Quem é seu mestre?

Onde você está, monstro desalmado? O que você quer da humanidade? Sim, somos incompetentes, incoerentes, fazemos uma porção de besteiras. Somos humanos. E daí? Você veio para nos castigar, é isto? Veio para mostrar a força de um vírus invisível? Atravessou mares, montanhas, oceanos, florestas, para nos dizer que somos absolutamente nada?

É um vírus filósofo? Ou apenas um matador, atirador de elite? Não, com certeza suas armas são maiores. Uma bomba, como aquela que explodiu em Beirute? É uma conspiração do mal? 

Qual é o seu método. Como você escolhe suas vítimas? Ou seus alvos são aleatórios? Qualquer um, alguém que você não vá com a cara dele, alguém que já está sofrendo, são esses que você escolhe? Ou não importa quem seja? Não importa se a vítima é mulher ou homem, se tem família, se tem pais ou filhos. Você tem levado pessoas que não fizeram nada de mal para você, nem para ninguém. Você está levando irmãos e irmãs, avós e avôs, tios e tias. Jovens na flor da idade e até crianças. Você é mesmo cruel. 

Onde mais você se esconde? Nas páginas dos livros? Na fábula dos porcos espinhos, a história sobre os animais que para não morrer de frio resolveram se juntar em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente? Só que os espinhos de cada um, parecidos com os seus, feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor.

Por isso decidiram se afastar uns dos outros e começaram de novo a morrer congelados. Então precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros. 

Mas eles decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro. A humanidade também é assim. Não adianta tentar nos afastar uns dos outros. A gente já se acostumou com as feridas. E saiba que temos algo que você não conhece: compaixão e fé. É com esta força que a gente vai derrotar você.


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Colunista

Theresa Hilcar

Theresa Hilcar

Mineira de Lagoa da Prata, é jornalista.


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