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Terça-Feira 27.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna Crônicas de Theresa

As ruínas do tempo

As ruínas do tempo, estampadas naquele rosto, revelaram que a finitude é algo inerente a todos nós

Postado em 02 de Setembro de 2020 - Theresa Hilcar

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Cada vez que vejo Gabeira na TV faço cara de espanto. Tenho arrepios, a bem da verdade. Eu realmente me assusto. Não apenas com ele, mas com uma boa dúzia de pessoas, senão mais, que estão no mesmo patamar visual. Nem sei dizer ao certo se são meus retrovisores ou meus espelhos que mais me assustam.

E antes que alguém estranhe meu comentário sobre o jornalista Fernando Gabeira, vou deixar claro que gosto muito dele. Aliás, trouxe-o certa vez a Campo Grande, numa das muitas incursões que fiz na promoção de eventos literários, mesmo sem ter um tostão furado nem patrocínio.

Na época era tudo bem mais simples. Eu simplesmente pensava em um nome, arranjava o telefone e ligava fazendo o convite. Muitos eu já havia conhecido em alguma feira no eixo São Paulo–Rio. Mas de alguns, como o próprio Gabeira, não tinha qualquer conhecimento. E ele aceitou, como outros tantos. Sem cachê, sem exigências, sem frescuras.

Na época já havia lançado o célebre livro “O Que É Isso, Companheiro?” e o “Crepúsculo do Macho”. Mas nem em sonhos imaginei o sucesso de sua vinda com imensa repercussão. Foram três eventos completamente lotados e inúmeras entrevistas à imprensa.

Figura ímpar, de gentileza e sensibilidade raramente vistas. Durante dois dias fomos à UFMS, tivemos encontro com ecologistas, palestra e noite de autógrafos. Ambos vegetarianos, levei-o para almoçar no único restaurante sem carnes que existia na cidade. Meio sem graça e sem sabor, mas era o que tínhamos na época. À noite, porém, jantamos numa pizzaria para onde foi também uma turma de admiradores.

Fui reencontrar Gabeira trinta nos depois, no cafezinho da Câmara Federal. Relembrei-o da nossa empreitada em Campo Grande, ele sorriu e disse que gostou muito da cidade. Com alguma frequência nos víamos nos corredores da Casa. Ele deputado (excelente, por sinal), eu, assessora parlamentar. Às vezes até rolava um papo, algum comentário sobre a sessão e a pauta do dia.

Enfim, todo este preâmbulo para explicar o motivo pelo qual me assusto – e lamento – sempre que o vejo na telinha. Ao olhar aquele conjunto de rosto e pescoço encarquilhados penso em como a velhice é cruel com todos. E que eu também estou no mesmo caminho.

Às vezes me vem a lembrança daquele moço que chegou do exílio e, ato contínuo, vestiu a tanga de crochê da prima para ir à praia com uma barriga tanquinho. A cena, inclusive, gerou enorme repercussão. Mas Gabeira, cabeça feita, nunca deu bola para a opinião pública.

Para matar a curiosidade, que morreu de velha, procuro no Google a idade do jornalista. Sem ter a menor ideia, confesso, me surpreendi ao descobrir que já são 79 nove anos de vida e muitas batalhas. Então é claro, óbvio, que ele tem todo direito de ficar encarquilhado. Até porque, com aquela consciência, sabedoria e discernimento, os sinais do tempo são verdadeiro prêmio.

E para além dos meus espelhos e retrovisores, devo reconhecer que aquilo que mais me assusta é a finitude. O medo é tamanho que o corpo confunde crise de ansiedade com ataque cardíaco numa consulta de urgência. Valha-me, Deus! Nessas horas costumo lembrar de Chico Anysio, que gostava de dizer: devíamos nascer velhos e morrer como num sopro. De preferência fora de pandemia.

E ao fazer o mea culpa devo dizer apenas: que viva Fernando Gabeira! A inteligência e o discernimento nunca foram tão vitais como neste momento.

Crônica publicado todos os sábados no Portal Correio do Estado


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Colunista

Theresa Hilcar

Theresa Hilcar

Mineira de Lagoa da Prata, é jornalista.


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