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Segunda-Feira 01.jun.2020

Ano VIII - Nº 395

Coluna Papeando

O mascate e o burro

Jamais duvide da capacidade destrutiva do seu dinheiro

Postado em 21 de Maio de 2020 - André Miguel Lucidi

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Essa estória segundo eu soube, aconteceu no Mato Grosso, não sei se do Norte ou do Sul. O fato é que ela, embora antiga, se encontra tão atual em sua moral, que eu achei por bem contar novamente.

Conta-se que em um tempo passado, havia um pequeno povoado se formando próximo a um rio, cujo principal problema era a total falta de entretenimento para as pessoas pioneiras, que arriscavam suas vidas adentrando o interior do país, que, naquela época, não era tão hospitaleiro. Nesse pequeno povoado, morava um homem que detinha todos os meios de sobrevivência na região. Da pouca medicina existente a época, a construção de moradias passando pelo plantio de alimento, tudo estava sob seu controle.

 Pois eis que um dia, um artista mascate e mambembe, desses que vão de lugar em lugar e encenam na rua, surgiu na cidade com uma peça teatral chamada “O Burro Mágico”. Logo na primeira exibição, o Mascate reuniu as 400 pessoas do povoado, para mostrar que o burro falava e não somente falava, mas também dançava e discursava. Ao saber disso, preocupado com o quanto as pessoas iriam gastar para assistir tal espetáculo, que, segundo o mascate dono do burro, deveria levar duas semanas de encenação, O tal homem que detinha tudo, resolveu que era hora do mascate e do burro partirem.

Bastou ele querer exercer seu poder, que tudo começou a mudar na pequena cidade. O delegado, seu amigo de tanto tempo, se voltou contra ele, assim como o fez o juiz e o padre da cidade já no seu primeiro sermão dominical. As pessoas na rua já não o cumprimentavam e sua própria família fugia dele. Desolado e mais preocupado com a economia do lugar, não sabia o que fazer. Até que um dia em seus pensamentos, encontrou   a solução. Resolveu que iria comprar o burro do mascate. Tão logo acabou a terceira encenação em praça pública, quando o mascate contava o dinheiro da apresentação, aproximou-se dele e deu-se o seguinte diálogo.

    _Burro bonito esse...O senhor mesmo o guardou esse tempo todo para esse momento?

    _ Na verdade, ele já é a quinta geração de burros. Todos os anteriores renderam bastante também.

   _ Mas como o senhor faz o burro representar e responder a perguntas?

   _ Oras... a sua maneira, o burro sabe fazer isso.

   _ Como assim? O senhor não adestrou o burro antes?

   _ Eu vou contar um segredo para o senhor. Essa família de burros sempre foi assim. São uma linhagem. Dos antepassados até ele, todos se aprimoraram. Burro, como o senhor sabe, só requer um certo capim verdinho e pronto. Ele faz o que você quiser.

    _ Pois saiba o senhor que eu estou maravilhado. Eu gostaria de comprar o burro do senhor.

O mascate se sentiu ofendido.

_ Pois saiba o senhor que eu não vendo esse burro por dinheiro nenhum. Ele é a minha certeza de que qualquer burro pode ser útil em qualquer momento da vida em que surgirem dificuldades.

_ ... Mas então, acabaram suas dificuldades! Se o senhor crer que a minha oferta de 20 contos lhe trará a tranquilidade necessária para o resto da vida, fazemos negócio.    

O mascate relutou um pouco, mas... 20 contos era muito dinheiro, mais dinheiro do que ele poderia juntar com apresentações. Achou por bem então vender o burro.

De posse do burro e com o mascate longe, o homem ia tratar de dar o burro em sacrifício, uma vez que assim, tudo voltaria ao normal.  Chamou o seu capataz e pediu que ele sacrificasse o burro, mas o capataz disse não. Só quando pagasse o seu salário. Sem um tostão, uma vez que tinha pago 20 contos pelo burro e não teve tempo de juntar dinheiro novamente, sentou-se ao lado do burro e pensou o que iria fazer. Resolveu que iria atrás do mascate e tentaria vender o burro de volta. Caminhou por quilômetros até que encontrou o mascate sentado em outra cidade, de roupas novas, com uma bela carruagem, tendo a mais lauta refeição. Aproximou-se e foi direto ao assunto.

_ Eu gostaria de vender o burro de volta a você.

_ Mas por que?

_ Eu descobri que não sei o que fazer com o burro.

_ Pois eu ofereço dois contos.

_ Dois contos? Mas eu paguei vinte contos por ele!

_ Pegar ou largar. Não faço outra oferta.

O Homem acho por bem aceitar. De alguma forma, o homem e o burro estariam longe de sua cidade e. em breve, ele se recuperaria economicamente.

E Assim, O Mascate foi embora com o burro, uma carruagem e dezoito contos de réis, enquanto o dono da cidade ficou com seu comércio e menos oitenta por cento de sua fortuna.

Moral da Estória

Jamais duvide da capacidade destrutiva do seu dinheiro que um sujeito que anda pelos cantos do mundo e um burro, juntos, podem fazer.    


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André Miguel Lucidi

André Miguel Lucidi

André Miguel Lucidi é bom de papo e pescador.


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