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Quarta-Feira 21.nov.2018

Ano VII - Nº 328

Gov Inst

Coluna Re-existir na diferença

Não larguem da minha mão

Cuidemo-nos amiges e da vizinhes

Postado em 31 de Outubro de 2018 - Emerson Merhy

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Quando o Trump, depois de uma campanha a estimular a raiva e o preconceito já enraizado em vários corpinhos americanos, ganhou a disputa eleitoral nos Estados Unidos da América do Norte, muitos que se sentiam ameaçados por aqueles discursos raivosos começaram a construir um movimento coletivo de produção de redes de proteção, contra a prática do ódio em relação a si.

Trump e seus aliados convenceram uma grande parte do povo americano de que eles estavam vivendo más condições de vida por causa da existência do imigrante (mexicano, guatemalteco, cubano, “chicanos” em geral), do negro, dos gays pobres, dos loucos e dos improdutivos em geral, e em especial por causa dos que pregavam o respeito ao direito a uma vida melhor para todes.

Essa parte da população americana era em geral branca, mas não só, pois muitos gays, negros e “chicanos” também acreditaram nesse discurso preconceituoso contra o diferente, e também demonizaram os outros como se fossem responsáveis por suas situações precárias de vida, ou pela piora das condições anteriores.

Trump e seu grupo conseguiram produzir uma adesão, inclusive de vários religiosos, que entendiam que os que defendiam direitos humanos iguais para todos, eram de fato os grandes vilões a serem perseguidos pela nova política que se instalaria nos EUA e que iria gerar uma melhora incrível da vida dos americanos autênticos.

Criminalizar o presidente anterior que defendia uma saúde para todos foi um dos seus objetivos, considerando inclusive que esse presidente, o Obama, que era negro e filho de uma família africana muçulmana - apesar de sua mãe ser branca e americana - deveria ser visto como um dos grandes problemas do sofrimento de vários americanos, que de posse de um pensamento bem binário e simples, não entendia que eram as corporações capitalistas americanas que os exploravam de modo bárbaro e, como tal, de fato produziam aquelas situações de profundas desigualdades.

O ódio e a prática política pela violência foi se construindo como o modo de viver as relações no cotidiano entre os vários grupos nos EUA, substituindo inclusive a política pela paz e pela relação cordial entre os diferentes, reafirmando a volta de um passado a duras penas superado.

Trump produziu uma explicitação da violência como justa quando praticada pelo homem branco contra o homem negro. Uma violência justa quando efetivada pelo homem branco contra as mulheres, em especial negras e pobres. Uma violência justa como repressão aos migrantes em geral, aos movimentos sociais, e aos pensadores e imprensas independentes.

Elegeu qualquer ativismo que defendesse o direito à democracia e aos direitos humanos como ética básica de qualquer convivência, como um dos piores inimigos a serem perseguidos e exterminados. Reforçou a prática de extermínio de um fantasioso inimigo externo como uma guerra justa de americanos contra o mundo, não espelhado nos seus próprios princípios.

Nunca se matou tanta gente nos vários cantos do mundo.

Trump, porém, sem saber, estimulou o oposto também. Vários grupos começaram a se formar para pregarem a visão de que Trump era uma mentira, que mentia e enganava. Vários grupos começaram a se formar para se protegerem, para cuidarem de si e dos outros.

Como se diz, por aqui, na Luta Antimanicomial: cuidar do outro é cuidar de si.

Aqueles americanos que se perceberam profundamente ameaçados no seu viver diário, se viram na obrigação de inventarem novas estratégias de sociabilidade. Como, por exemplo, construírem de modo explícito a noção de que agora a política não deveria mais ser o que sempre foi, um lugar de homens poderosos a esmagarem os considerados menos poderosos.

Que a política agora deveria ser molecularizada e vivida na cotidianidade do viver. Que deveria ser o lugar de produção de novos viveres onde o ódio sempre quis produzir mortes. Que deveria ser o lugar do encontro de vidas equivalentes em suas diferenças, onde um corpo não se colocaria nunca como acima e soberano em relação ao outro.

Ao contrário.

Deveria ser o lugar do encontro da diferença no mútuo efeito de produção da riqueza que a diversidade do viver sempre carregou consigo.

Por isso, na semana seguinte a vitória do Trump, muitos americanos de vários viveres criaram um movimento: cuide dx sua/seu vizinhx. Fique de olho e dê visibilidade se algo acontecer com ele. Solidarize-se. Não adira ao ódio de quem você sempre teve perto de você.

Seguremo-nos com nossas mãos.

Cuidemos dos nossos amiges.


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Colunista

Emerson Merhy

Emerson Merhy

Emerson Merhy é médico, formado pela USP em 1973.


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