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Segunda-Feira 15.out.2018

Ano VII - Nº 324

Governo

Coluna Re-existir na diferença

A produção do medo e a construção de corpos medrosos

Diante da violência da extrema direita, é preciso estratégias de coragem e sobrevivência

Postado em 03 de Outubro de 2018 - Emerson Elias Merhy

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Nós que imaginávamos que o civilizatório em nós era um crescente de humanização cordata, o que sempre foi uma grande ficção sobre a modernidade/iluminista, como a própria Segunda Guerra Mundial demonstrou, ficamos sempre chocados com violências massivas e cotidianas geradas pelas razões mais idiotas e imbecis possíveis.

Como assim, alguém não tem o direito de fazer sua própria escolha dos modos de se realizar prazeirosamente, sem que isso signifique se colocar acima do outro como se fosse um seu objeto? Como assim, alguém não pode ter uma ideia sobre o que é viver em sociedade diferente da minha?

Como assim…?

Essas diferenças são vividas por uns como afrontas que, paradoxalmente, mesmo não sendo violentados por esses outros instalados em suas diferenças, se dão ao luxo de violentá-los até o ponto de se autorizar a eliminação física do outro, como se fosse o demônio que deve ser queimado.

Pensar por essa extrema tem feito hoje em dia os maiores estragos, tem gerado intolerância em relação ao outro e gerado muito medo. Medo estarrecedor.

A produção do medo, no meu ponto de vista, é um elemento até saudável, porque ao gerar certa percepção de algo que possa ser uma ameaça, possa colocá-lo em um certo risco, acaba por produzir um certo receio e medo de se expor a isso, permite, portanto a construção de manejos e estratégias para enfrentar esta mesma ameaça.

No entanto, é preciso diferenciar este “medo saudável” daquele que leva à construção de um “corpo medroso”, um corpo tão dominado pelo pânico que se paralisa, se submete, que passa a aceitar o poder da ameaça a tal ponto que se desvitaliza, se entrega.

O corpo medroso é uma construção que em diferentes civilizações sempre foi uma grande estratégia, especialmente de governantes que exerciam um poder violento sobre o corpo do outro, o poder soberano, que é a construção de um poder que dita sobre a morte e vida do outro. Por exemplo, o poder soberano do cidadão grego que na sua perspectiva construía a figura do seu escravo como um não cidadão e assim um não humano.

Criar no escravo não só o medo, mas, fundamentalmente, um corpo medroso, era uma estratégia de governo necessária e corriqueira. Esse modo de governar o outro a todo momento podemos ver se repetindo em diferentes lógicas de distintas organizações societárias

Por isso, quando hoje, no Brasil, observamos certos grupos, especialmente da extrema direita, que querem se opor ao outro da maneira mais violenta possível, o que vemos é uma produção cotidiana desta estratégia, governar o outro pelo pânico do corpo medroso.

E porque isso?

Talvez porque quando eles percebem que não tem a capacidade de se difundir para todos os segmentos sociais como um atrativo efetivo, em termos de ideário, quando percebem que só atraem alguns elementos dos vários coletivos que existem, eles criam uma outra estratégia agregada que é a de tentar paralisar os outros pela ameaça física, pela destruição exemplar física de alguns, para que os outros anulem o próprio desejo de se contraporem a este poder que se ambiciona a ser soberano, violento e autoritário. Não conseguem admitir a diferença como algo positivo, são paranoicos extremados quanto a isso, são tão fracos subjetivamente que a diferença os coloca em cheque a todo tempo em suas existências.

A morte de Marielle Franco, o assassinato de várias lideranças, a violência contra gays nas ruas, o assassinato de travestis e homossexuais, as surras que são dadas em pessoas que pensam de forma diferente fazem parte desta estratégia da extrema direita.

Este comportamento é o que está por trás, por exemplo, do exercício da própria afirmação da soberania branca americana com a Ku Klux Klan, quando esta organização aprisionava um negro, enforcava, colocava fogo em seu corpo e dizia que isso seria um castigo exemplar, para que “vocês, negros não se sintam poderosos e com vontade de nos enfrentar”, como os haitianos negros fizeram em 1791.

Esta estratégia foi adotada também em várias experiências latino americanas. Por exemplo, na ditadura militar argentina, que matou milhares de pessoas; na ditadura de Pinochet, no Chile, que de cara matou mais de 30 mil pessoas de forma bárbara.

No Brasil, a ditadura também torturou e matou. Mas, diferente do que ocorreu na Argentina e no Chile, aqui a história não foi contada de maneira tão ampla, a disputa da memória por aqui não foi tão favorável a mostrar a violência extremada da ditadura militar.

Hoje vemos um candidato de extrema direita advogar o fuzilamento de membros de outros partidos, pedir a morte de gays, a subserviência e inferioridade de mulheres, negros e índios. Esta eloquência violenta tem como objetivo a produção de corpos medrosos. E o corpo medroso, de fato, se paralisa, entra em pânico.

Mesmo percebendo que esse tipo de candidato é de fato uma construção realizada pelos outros que o querem representando-os, ou seja, o fascista só existe porque há coletivos fascistas que o constroem, sabemos que um cara como esse também reforça a produção de novos fascistas que vão se sentindo autorizados a praticarem violência contra um outro tipo de humano que ele não suporta. Isso amplia e reforça os mecanismos de ameaças que sentimos que podem nos paralisar como corpinhos medrosos.

Entretanto, quando nos damos conta desta estratégia, deste desejo de violência e de poder soberano da extrema direita, e percebemos que o seu desejo é, exatamente o oposto ao da construção de uma sociedade distinta da deles, nós temos medo: medo de sermos pegos na rua sozinhos, de participarmos de grandes manifestações, de nos expormos publicamente contra estas pessoas e ideias, de falarmos mais alto até nas nossas próprias casas.

Mas, se você não é um corpo medroso, você vai montar estratégias para se manifestar sem ser destruído. Você vai às manifestações acompanhado de mais pessoas, vai evitar se expor à toa, sem que esta exposição traga bons resultados para aquilo que você objetiva, vai medir a importância daquilo que você vai fazer na produção e consolidação de novas pessoas que possam perceber esta extrema direita como, de fato, algo que não é do interesse da maioria, que vai ameaçar qualquer modo de vida: paradoxalmente até as deles mesmos. É só lembrar que os primeiros grupos nazistas que apoiaram Hitler foram, na calada da noite, assassinados em massa por esse quando, do seu ponto de vista, perderam suas funções na construção dos corpos medrosos e do seu poder soberano.

Quando você tem medo, mas sabe o que quer, você não se deixa paralisar como um corpo medroso.

De Zumbi a Mandela nossa história está cheia de gente assim.


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Colunista

Emerson Merhy

Emerson Merhy

Emerson Merhy é médico, formado pela USP em 1973.


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