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Quarta-Feira 21.nov.2018

Ano VII - Nº 328

Coluna Re-existir na diferença

Pastor Val e suas ovelhas

O dilema do ovo e a galinha

Postado em 12 de Setembro de 2018 - Emerson Merhy

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Consta na memória, ou como uma remota lembrança, a existência de um tal de Pastor Val, que prometia para seus seguidores uma vida bem melhor, cheia de riquezas materiais e espirituais, desde que acreditassem que ele era a representação do desejo Divino de espalhar o bem pela Terra e o tratassem como tal, como um príncipe celestial.

Ali, na memória do povo, as histórias sobre o Pastor eram muitas e uma delas contava que um dia ele se viu em uma situação bem difícil: uma de suas ovelhas - por estar se sentindo completamente enganada com aquela ideia de que, para ter os benefícios divinos teria que cuidar mais do Pastor do que de si mesmo - as escondidas foi cultivando um chifre bem afiado, pensando em terminar com aquela enganação, acabando de vez com o Pastor Val.

Criou essa ideia a partir dos próprios sermões do Pastor, que dizia que o Maligno se infiltrava onde menos se esperava, isto é, nos detalhes, como dizia Guimarães Rosa no romance Grandes Sertões Veredas.

Convenceu-se que o Pastor era mais o Maligno do que o Divino.

E a grande evidência disso era que nada estava dando certo na sua vida, mesmo seguindo fielmente tudo que o Pastor lhe dizia para fazer. Já tinha doado tudo que tinha para a Igreja, tinha lhe transferido tudo que ganhava e cada vez ficava em situação pior, empobrecido, cheio de dívidas e abandonado pelos mais próximos.

Não tinha mais dúvidas, tinha que acabar com o Maligno e ponto final.

Procura o Pastor e lhe desfere uma boa chifrada na barriga. O sangue jorra e empapa toda a camisa do Pastor Val que cai ao chão, mas é socorrido rapidamente por algumas de suas ovelhas que se encontravam ali no culto.

Levado para o hospital é tratado e salvo pela ação da equipe de profissionais de saúde. Sai bem da cirurgia. Mas, com um olho no caminho e outro no vizinho, no trajeto da ambulância pede para não jogarem fora sua camisa, pois queria guardá-la como parte de sua história.

E, apesar da situação crítica, com a ferida que sangrava, vai matutando sobre como criar uma fala sobre o milagre que o Divino tinha lhe proporcionado naquele dia, após colocá-lo a prova, sobre sua fé.

A ovelha do chifre afiado, quando presa, afirmava que aquilo foi um ato que precisava fazer, pois vinha sentindo-se prejudicada pelo Pastor há algum tempo. Para ela, este havia mentido quando falava dos benefícios que teria na vida se desse tudo que tinha para a Igreja, do tal Val.

A ovelha dizia que depois de um tempo, quando o escutava nos cultos se sentia muito ameaçado e em especial porque cada vez mais ia ficando descrente daquele apelo, e para os descrentes o Pastor sempre dizia que o que lhes sobrava no final da vida era irem para o fogo do Inferno, sofrendo as iras de Deus pela eternidade. Continuava dizendo que além do sofrimento da miséria que a sua crença naquele Maligno tinha lhe acontecido, que ele sempre ficava ameaçando as ovelhas que podiam fraquejar duvidando de que ele era o Príncipe do Divino.

Disse em seu depoimento que passou a se sentir permanentemente sob coerção e não conseguia mais pensar em outra coisa, tinha concluído que Val era o Maligno e precisava ser eliminado.

Foi nesse estado de confusão que a ovelha do chifre afiado praticou aquele ato de desespero, dando-lhe uma boa chifrada.

Consta na memória do povo, que o tal do Pastor podia ser tudo, mas bobo não era, em especial quando percebia que podia tirar uma vantagensinha de situações como aquele, sempre pensando em ter mais ovelhas para lhe servirem.

De fato, aquele momento tinha criado para ele uma grande oportunidade para aprofundar seu domínio sobre suas ovelhas e até atrair outras, e não teve dúvida: precisava tirar dali o maior benefício possível, material e imaterial.

Começou em suas pregações, ainda na cama do hospital, a produção de uma situação espetacular, isso mesmo, começou a atuar como se estivesse em um palco fabricando uma grande encenação, para isso contando com sua esposa que posava do seu lado para a produção de fotos e vídeos. Foi inventando um conjunto de ações para convencer os outros de que tudo não passava de uma prova que o Divino tinha lhe pregado, testando sua própria fé no Senhor.

Para completar a sua atuação, passou a vender pedaços da sua camisa ensanguentada como um objeto-força-milagreiro convencendo parte de suas ovelhas, sempre ávidas por isso, que quem tivesse um pedaço da mesma teria mais facilidades para obter as benesses e os milagres do Senhor.

Crentes compradores não faltaram e o Pastor Val para comemorar todo esse sucesso, do milagre e da grana, fez um grande rasgabofe com vinho e tudo, para outros pastores como ele.

Val sabia que, de fato, os verdadeiros responsáveis por essas benesses eram as ovelhas que, com suas crenças, acabavam criando seus pastores. Não eram os pastores que fabricavam suas ovelhas, como se pensa comumente, o dilema do ovo e a galinha aqui tem uma solução mais evidente. É isso mesmo, sabia que precisava cuidar bem de seus ovelhas-ovinhos, pois eles é que germinavam com sua fé pastores como ele.

Sabia que bastava as ovelhas-ovinhos pararem de acreditar naquelas coisas todas de Malignos e Divinos, para que os pastores-galinhas não existam mais.

Por isso, se preparava 24 horas por dia atuando para reafirmar a fé das ovelhas, esse era o seu objetivo permanente, pois sem ela desapareceria mais rápido do que com a chifrada.

Pastor Val, na memória do povo, sempre foi muito criativo nisso de inventar coisas, para que a fé estivesse sempre ali em reafirmação nas suas ovelhas-ovinhos, ficava atento para se aproveitar de qualquer situação inusitada, como essa de tirar proveito de um atentado desesperado de alguém que se sentia prejudicado pela própria Igreja do Pastor, criando uma outra narrativa para o acontecido. Criando, de fato, um outro acontecido que não o relatado pela ovelha do chifre afiado. Era mestre no manejo da ameaça e da produção de corpinhos medrosos. Fazia disso sua arte de aproveitador.

Ali na memória coletiva havia outras tantas histórias de ovelhas-ovinhos que tinham pulverizado no ar vários pastores como Val, mas aqui nessa história não cabe mais delonga porque sua intenção foi contar a saga da ovelha do chifre afiado e o seu Pastor Maligno.

Quem quiser que venha e conte outra.


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Colunista

Emerson Merhy

Emerson Merhy

Emerson Merhy é médico, formado pela USP em 1973.


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