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Domingo 15.dez.2019

Ano VIII - Nº 375

Coluna Re-existir na diferença

A garrafa de água e os bebedouros – Parte 2

Neoliberalismo, máquina mortífera, exterminadora dos devires-vidas

Postado em 01 de Agosto de 2018 - Emerson Merhy

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Como havia escrito na primeira parte desta reflexão, são nas vivências/experiências que recolhemos como consumidores-compradores e consumidores-trabalhadores, que devemos procurar elementos para andar com as questões sobre a possibilidade de se construir vidas não neoliberais, que apontem para uma construção de comunidades ativas sem exercícios de soberania de um perante o outro.

Para isso, vale agregar nessas novas experiências nos nossos processos de formação subjetiva, que não basta sermos consumidores de certos bens coletivos, como a água, pois quando somos consumidores-trabalhadores para o capital, em vários e distintos processos relacionais que vivemos, estamos ao mesmo tempo que construindo nossas existências coletivas produzindo, de modo incessante, a própria valoração do capital. Isso é novo, na organização das vidas nas sociedades predominantemente capitalistas, e mais vem se ampliando em larga escala para várias esferas da vida dos coletivos em geral, transformando substancialmente o modo desses coletivos verem o mundo em que vivem e se verem nesse mundo.

A ampliação desses processos capitalísticos é desigual, do ponto de vista da incorporação de contingentes populacionais, em seus modos específicos de se construírem. Por exemplo, há alguns que incorporam gigantescos contingentes, como a produção das redes sociais, e outros mais restritivos, como a inserção no biomercado da água. Assim, é possível termos grandes quantidades de coletivos conectados nas redes, produzindo-as, que não conseguem ter recursos para obter água de uma maneira facilitada.

Em algumas dessas experiências, em especial nas de consumidores-trabalhadores, vivemos coisas bem paradoxais sobre a produção da alma do negócio das corporações que as realizam. Pensem nas experiências que vivemos com o Facebook, os Whatsapps da vida e coisas semelhantes, e as nossas relações com as empresas que os produzem. Essas megacorporações, as que são donas desses aplicativos e de muitos outros, não produzem o que é a base do seu negócio: a informação, elas simplesmente gestionam a nossa produção de informação, em seus aplicativos.

Somos nós os seus consumidores-trabalhadores chaves, de um modo mais radical que no caso de sermos bancários, que produzimos a matéria substancial que eles nos prometem. Sem nossa produção 24 horas por dia de informações, de qualquer tipo, essas megacorporações não existiriam.

Essas mega-empresas, hoje as maiores empresas capitalistas do mundo, podem inclusive viverem com uma quantidade minúscula de trabalhadores próprios, pois bilhões de consumidores dos seus produtos trabalham para ela de modo incansável.

Cada um de nós é um trabalhador dessa forma de produzir capital ao mesmo tempo que estamos produzindo nossos próprios modos de viver, não há separação nenhuma entre produção e consumo, e entre consumo e produção do valor do capital. E essas vivências/experiências que vivemos funcionam como dispositivos de construção da noção de que somos de fato pessoas/indivíduos e não coletivos. Nos isolamos como verdadeiras mônadas identitárias, sempre nos referenciando como se cada um de nós fossemos únicos e isolados em nós mesmos, como se cada um fosse uma ilha fechada sobre si mesma, mudando de forma bem radical a experiência do trabalho vivida junto com outros, que ocorriam exclusivamente em processos de produção como das indústrias centradas na força de trabalho humano, coletiva.

O neoliberalismo é isso em essência e só vive, se mantém dia a dia, porque consegue que isso se repita a exaustão, forjando assim uma sociedade que cada um fabrica plenamente ao fabricar a si mesmo como um vivente, porém como um ser isolado com a sensação de uma poderosa autossuficiência, ou de fracasso depressor.

Viver desse modo, como consumidor-trabalhador, para se produzir vivendo, isolado, subjetivamente, sempre inserido em um mundo de ilhas que se comunicam ao vivo muito de vez em quando, é o verdadeiro paraíso neoliberal. Um modo capitalístico de vida que é construído por todos que vivem como um corpo-capital e não mais como trabalhador clássico, explorado de modo explícito pelo patrão. O outro na vida neoliberal é qualquer um que na sua diferença possa ser percebido como ameaçador dessa vida de consumidor-trabalhador, de modo pleno, como é o caso da existência de coisas que ainda são públicas, como praças abertas, produtos potenciais do biomercado que ainda não viraram claramente mercadorias, que podem ser subsidiadas, como outros que vivem vidas não neoliberais, que seriam considerados como anormais do desejo: moradores de rua, artistas de rua, coletivos construídos identitariamente por fora da mônada indivíduo, e por aí vai.

E como uma estratégia de se governar os processos neoliberais, os indivíduos-ilhas produzem a incessante construção do medo do outro. Produzir corpinhos medrosos nos indivíduos-ilhas de qualquer coisa que lhes seja estranha é um dispositivo de governo amplamente utilizado, inclusive pelas máquinas de guerra dessas sociedades, como a mídia privada, por exemplo. A raiva com os imigrantes mundo afora está aí para não negar isso. A homofobia, e nuclearmente o racismo, só fazem isso ficar cada vez mais evidente.

Nessas experimentações de produções de vidas, reforço que como consumidor-trabalhador a figura do patrão vai sendo dissolvida e em seu lugar se constitui a imagem do auto-empreendedor, que milhões perseguem para si, tendo como foco tirar também proveito dos bilhões de consumidores-trabalhadores. E retomo com isso a mesma ideia de estratégias de se governar as vidas individuais, produzindo coletivamente o desejo de se constituir como um corpo capital não só como consumidor mas como produtor, ser em si um corpinho plenamente vida-capital. Essa é a base do empreendedorismo como discursividade, inclusive procurando quebrar a figura do próprio cooperativismo que tem outra matriz na sua aparição, a de movimentos coletivos de trabalhadores-produtores para aumentar sua força na disputa com o capital dos empresários capitalistas.

No avolumamento das experiências como corpo-capital, adquire pleno sentido que tudo deve ser privatizado, inclusive a minha vida e os corpos em geral.

Isso, entretanto, tem um custo para a produção da maioria desses corpos-capitais, pois forma-se uma máquina de construção de vivências/experiências subjetivas que exaure, pois esse modo de produzir os viveres necessita se criar de modo permanente, sem parar um segundo, produzindo vidas a serem vividas individualmente como ilhas, mas vidas que possam se sustentar dentro da mesma lógica geral: tudo se faz e se constrói no mercado, inclusive os bens coletivos, o corpo e a própria existência; tudo se faz na competição, o sucesso e os fracassos, sendo esses infinitamente superior ao anterior.

***

Voltando ao final da Parte I, continuo com uma pulga atrás da orelha: esses modos de se produzirem vidas coletivas e individuais parecem-me pouco inclusivos, melhor dizendo, essa noção de inclusão de todos não parece ser um elemento (significante) que lhe faça referência, ao contrário, a competição de todos com todos é que expressa o mote central de uma sociabilidade desse tipo, neoliberal. E, de fato, a experiência mundial vem mostrando isso a todo momento, pois no dia a dia o que vimos são atos de exclusão e eliminação daqueles que não se mostram funcionais, manifestações de preconceitos com os diferentes, sarcasmo e perversidade com os considerados “fracassados” devido aos seus modos de existir.

Por isso, cabe retomar:

Será que esse modo desigual de viver, com usufruto bem diferenciado sobre as vantagens materiais que ele gera, aqui no Brasil, aponta fissuras para outras formas de vivências/experiências? Seria isso possível? Como?

Os coletivos não incluídos, o que acontece com eles, que vivências têm e como constroem suas experimentações de si? É possível viverem de outros modos?

Os ditos incluídos, que com sua vida 24 horas por dia produzem o capital neoliberal, vivem algum incomodo com isso? Podem se desorganizarem existencialmente e construírem outras experiências de si? Como?

***

Todos temos a experiência de termos corpinhos marcados, marcas que nos guiam em nossos modos de viver. Por exemplo, nosso olhar é marcado de alguma maneira com certos modos de ver as coisas, dando valor já no próprio modo de olhar, criando verdades para si. Quando temos um olhar-marca de alguém que por suas características físicas estaria por isso para a construção de situações de maus encontros, ou de bons encontros, só de vê-los nosso corpo-marcado já se manifesta de uma maneira mais receptiva ou não.

Chegamos inclusive a ter medo de olhar alguém que nossa marca valoriza com traços ameaçadores, mesmo que esse outro seja de uma docilidade incalculável (Fanon em seu livro Pele Negra, máscara branca, fala sobre isso de como a negritude gerava pânico em crianças, só por estar visível fisicamente). Desse modo, nem nos permitimos experimentar o encontro com o outro de modo não defensivo e chegamos a ter até ódio do outro, por isso.

Fico instigado a pensar como essas marcas vão sendo criadas e o que fazemos com elas em nós.

Lembro de um texto de dois pensadores franceses, Felix Guattari e Gilles Deleuze, que dizia que já na escola, ao sermos alfabetizados, vamos criando marcas em nosso corpo-pensamento sensível. Quando uma professora nos ensina que na língua que falamos, o português, existem os pronomes pessoais (eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas) aprendemos a usá-los para criar em nós a noção de quantos tipos de pessoas (inclusive denominando o outro e a nós mesmos como pessoas, já que são pronomes pessoais) e grupos que existem, constituindo nossos corpos-pensamentos de modo inseparável esses pronomes como marcas para ver e falar dos outros e de nós mesmos; além disso, nem pensamos que há outras línguas, que os pronomes pessoais não são só esses (no inglês há o it como pronome para coisas neutras) ou mesmo que há línguas que só tem quatro pronomes (não existindo nem o tu e nem o vós), por exemplo.

Assim, posso entender que as marcas dos nossos corpos estão muito ligadas aos tipos de vivências/experiências que vamos tendo na vida e ao tipo de agrupamento que pertencemos, o que me cria uma outra questão central, que é: o que fazemos com as marcas que são criadas como corpos em nós? Podemos ir além delas e criar outras?

Em uma entrevista, o cineasta Louis Malle - que fez o filme Lacombe Lucien, sobre um jovem que colaborou com os nazistas, apesar da sua pouca experiência na rejeição pelos outros por problemas étnicos, mas que se encantou com o poder adquirido sobre seu núcleo de relação familiar e vizinhança -, disse sobre si: que em 1944, em plena guerra mundial, estava na escola quando os nazistas vieram buscar pessoas que eles suspeitavam serem judeus, ou antinazistas, e que isso lhe marcou nos seus onze anos, mesmo que seus colegas de escola possam não ter registrado a mesma situação, porque sentiu uma grande inquietação com ato dos nazistas, pois lhe parecia que todos tinham o direito de viver independente do que pensavam, ou devido a sua etnia, e que essa vivência lhe produziu uma experiência que lhe foi dada como uma nova marca, uma ética da vida que chamou de exercício antifascista, em si, quanto a acolhida dos outros em sua vida.

Esse cineasta está dizendo que as marcas em nós não nos fazem obrigatoriamente fazer movimentos em uma só direção, mas que são repertório que também nos permite fazer escolhas, que em si podem também nos marcar, inclusive modificando o corpo-marca que tínhamos, como uma roupa que não nos cabe mais.

Isso me interessa, ir verificando que independente de sermos incluídos ou excluídos dos modos de produção de vida neoliberal, pela funcionalidade com a valoração do capital que nosso modo de viver constitui, é na nossa própria negociação do nosso corpo-marca com os acontecimentos que vão ocorrendo em nós, na nossa produção de nós mesmos como Redes Vivas de Existências que somos, que as imprevisíveis vivências que podemos podem funcionar como dispositivos de produção de experiências-outras de fabricação de outros tipos de sentidos para viver. 

Ali no caminhar das nossas vidas, cada um de nós (como indivíduos, como coletivos) vai vivendo situações que previmos e muitas outras sobre as quais não temos a mínima noção e, mais, não controlamos os efeitos que terão em nós e como iremos recolher esses mesmos efeitos. Porém, nesses aconteceres, nosso corpo-marca atua ou se conservando, ou se abrindo para novas experimentações de si, inclusive criando-se a todo momento, abrindo novas possibilidades de sociabilidades.

Isso é sermos Redes Vivas de Existências, nas quais cabe observar o que vamos fazendo com o que fazem conosco. É nesse tipo de vivência/experiência que incluídos e excluídos se colocam experimentando modos de viver, para além dos territórios existenciais que estão inseridos, como já vivenciei em várias experimentações de produção de uma vida não manicomial, quando muitos brasileiros procuraram desmontar os manicômios como forma de tratar o louco e sua loucura.

***

(Há uma quantidade enorme de relatos da produção de novos modos de viver de muitos que ficaram isolados e manicomializados por décadas, nessas prisões-manicômios que a psiquiatria inventou no século XIX. Mas, aqui não tenho a intenção de citar situações particulares, só faço como apontamento de que há construções concretas em várias frentes das experimentações de busca por outros modos de viver, que mostram isso que afirmei. Veja, quem se interessar, o livro Revolução Molecular de Felix Guattari, entre tantos)

***

Mas, também, há uma outra dimensão que me chama a atenção, o quanto essa produção incessante de efeitos em nós, do mundo que vivemos, vai nos constituindo não como indivíduos, mas como verdadeiras multidões que nos habitam e que nem sabemos que poderão emergir existencialmente, como nós mesmos.

Há modos de se construir, em certos povos, uma visão sobre essa questão da não existência fixa de algo, como sugere a figura da existência de cada um como um indivíduo, que me agradam muito e melhoram as ideias que estamos trabalhando aqui, nesse texto.

Nelson Mandela, que vinha do povo Zulu, dizia que “sou o que somos”, enquanto Ailton Krenak, diz: “sou sempre um sujeito coletivo, pois sou os outros em mim”.

***

Sim, agora parece possível voltarmos e dizermos que há vivências de coletivos de vidas neoliberais que os colocam em oportunidades para se deslocarem desse lugar, e alguns fazem isso com muita presteza; enquanto, há outros completamente excluídos que fazem o contrário, deslocam-se em direção à busca de vidas neoliberais, deslocamento que no geral os produzem como fracassados.

Entretanto, o que me interessa nesse momento é pensar a possibilidade de facilitar a experimentação de modos de vidas não neoliberais, com a invenção de dispositivos que possam ampliar as experimentações da multiplicidade em cada um de nós, como revoluções moleculares, mas com vivências constituídas por estratégias não neoliberais: que facilitem a construção comunitária de coisas para todos, dentro de práticas cooperativas e solidárias, na qual a experimentação de mim é a construção de nós; que permitam a con-vivência positiva da diferenças do outro em mim e em cada um; que nos abram como coletivos que somos para acolher o outro no seu sofrimento; que possam nos permitir o exercício do sofrer como biopotência, para a produção de novos modos de viver; que nos abram para um exercício comunitário sem que ninguém seja o soberano; que a minha liberdade seja de fato a construção da sua liberdade, de modo molecular, a cada encontro; que minha vida valha a pena ser vivida porque sua vida vale a pena ser vivida; que a ética da produção da vida na diferença seja o mote antifascista mais poderoso a nos governar, nós todos os vivos.

E porque isso?

Por considerar que o neoliberalismo vem provando à exaustão o quanto é contra a produção das vidas nas suas diferenças, nos seus exercícios livres de ser, e o quanto a produção da riqueza neoliberal é de fato o empobrecimento das vidas em sua multiplicidade. Porque só a produção de mais vida em si é o modo de re-existir ao neoliberalismo, esse anjo da morte.

O neoliberalismo já vem provando sua intolerância às vidas que considera disfuncionais para a valoração do capital, por isso, persegue, mata ou deixa morrer loucos e todos que considera, anormais do desejo, em geral.

Anormais por não desejarem, ou não conseguirem, ser vida-capital.

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Parte 1


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Emerson Merhy e Ricardo Moebus

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Emerson Merhy e Ricardo Moebus são médicos.


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