Semana On

Quarta-Feira 19.set.2018

Ano VI - Nº 320

Governo

Coluna Re-existir na diferença

Nenhum a menos

Sob um olhar criminalizador e preconceituoso em relação a pobres e negros, o Brasil promove uma limpeza racial

Postado em 05 de Julho de 2018 - Emerson Merhy

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Disse o senhor ministro da “justiça” que garotos bonitos, bem vestidos de uniformes escolares, andando por aí, podem de fato serem perigosos bandidos, e isso tem que liberar as forças policiais e militares para o direito de matar.

Não, isso não é um filme de cowboy americano e muito menos a manifestação de um paranoico qualquer. É a fala do ministro de (in)justiça brasileira, em junho de 2018, após as forças militares blindadas atirarem em um garoto, menino ainda diria, uniformizado para ir à escola, matando-o na cidade do Rio de Janeiro, em plena Copa do Mundo de futebol.

Esses duros fatos a lamentar não são exceções em nosso país, onde a matança é sistemática, em boa parte pela própria ação das forças do estado, contra as populações jovens. Recente estatística revela que 25% dos milhares de homicídios que ocorrem no Estado de São Paulo são produzidos pelas forças policiais paulistas, sendo a maioria das vítimas jovens negros.

Estudos em Minas Gerais, sobre mortes violentas, também mostram que os jovens negros são as maiores vítimas dessas posições homicidas do próprio estado nacional, e não sem apoio de uma grande parcela da população brasileira, diariamente massacrada pelas mídias radiofônicas e televisivas com a afirmação de que o grande inimigo está aí pertinho: jovem e negro.

Os próprios negros passam a acreditar nisso, inclusive porque muitos das forças policiais e militares são compostas por pessoas negras.

Deveríamos estar cansados de histórias como de Amarildo, eliminado e acusado sem provas de ter sido bandido.

Sob um olhar criminalizador e preconceituoso, nuclearmente em relação aos pobres e negros, está se fazendo uma limpeza racial nesse país, como que cumprindo uma perversa agenda histórica das elites brancas dos séculos XIX e XX de embranquecer a população brasileira.

Não menos perverso tem sido o conjunto de atos violentos contra nossos povos originários. Os assassinatos de vários elementos dos povos indígenas tem sido uma constante a rechear as estatísticas brasileiras sobre homicídios, que chegam a mostrar a maior eliminação de populações inteiras em época de paz.

Há guerras no mundo atual que não matam em cinco anos o que se assassina no Brasil em um ano, e esses assassinados são em sua imensa maioria jovens e negros.

Falar que a sociedade brasileira é racista e aí justificar não basta. Há que se revelar os dispositivos que armam materialmente e subjetivamente vários brasileiros e brasileiras desse ódio paranoico que tem eliminado milhares e milhares de jovens, sem nenhum remorso que seja.

E o que é pior, essa imensa mortandade não tem impactado resultados na chamada segurança pública, ao contrário, quanto mais violência o próprio estado pratica mais violenta acabam sendo as relações entre os diferentes coletivos que constituem a nossa sociedade.

Chegou a hora de dizermos: NENHUM A MENOS.

Devemos imitar, no melhor do bom sentido, os movimentos feministas, que com a consigna NENHUMA A MENOS, estão marcando uma rica mobilização social contra a violência que se pratica contra as mulheres.

De novo: NENHUM A MENOS. Que não se mate mais nenhum jovem nesse país com argumentos tão preconceituosos, racistas e desclassificados como os do atual ministro da (in)justiça brasileira.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Colunista

Emerson Merhy

Emerson Merhy

Emerson Merhy é médico, formado pela USP em 1973.


Saiba mais sobre Emerson Merhy...